Por Brian Homewood
ALEXANDRIA (Reuters) - No Brasil, ninguém notou quando o
adolescente Francileudo dos Santos foi embora para jogar
futebol em outro país.
Na época, ele era apenas mais um das centenas de jogadores
brasileiros que decidem ir para lugares como Indonésia, El
Salvador, Índia, Finlândia e Bolívia.
Nascido no Maranhão, Francileudo saiu de casa aos 17 anos,
sem nunca ter visto o Maracanã. Foi para o Etoile Sahel, da
Tunísia, depois de uma breve passagem pelo Standard Liege, da
Bélgica.
Fez mais de 50 gols em duas temporadas no Etoile, o que
atraiu o interesse europeu. Em 2001, foi para o Sochaux, da
França.
Francileudo continuou marcando gols e, em 2003, teve a
chance de receber a nacionalidade tunisiana e jogar pelo país
do norte da África.
O sucesso continuou e ele foi um dos artilheiros da Copa
Africana de 2004, com cinco gols, no torneiro vencido pela
Tunísia e que garantiu a segunda classificação consecutiva para
a Copa do Mundo.
Francileudo, agora no Toulouse, está de novo em forma na
Copa das Nações Africana, no Egito, e é o vice-artilheiro, com
quatro gols, um atrás da estrela Samuel Eto'o, de Camarões.
O brasileiro está muito próximo de realizar o sonho de
disputar uma Copa do Mundo -- mesmo com um sentimento um pouco
amargo.
SONHO DE CRIANÇA
"Disputar a Copa Mundo é um sonho que tenho desde criança",
disse ele à Reuters. "Não vai ser pelo Brasil, como eu queria,
mas minha carreira andou assim."
"Percebi rapidamente que não tinha como ter uma chance de
jogar pelo Brasil, e estou feliz por representar a Tunísia."
"Minha família, em casa, não sabe para quem torcer. Sei que
querem que eu vá bem, mas também vão torcer pelo Brasil",
disse.
Francileudo acompanha a imprensa brasileiro e afirma que
gostaria de encerrar a carreira no país.
"Nunca joguei no Brasil e, quem sabe, quando tiver 34 ou 35
anos, possa voltar e jogar por um time lá."
O que ele não quer é enfrentar o Brasil em uma partida
oficial.
"Seria muito difícil, não é algo que eu queira fazer e espero
que nossos caminhos não se cruzem", disse. "Não tenho certeza
de que gostaria de jogar. É algo sobre o que teria que sentar e
pensar com muito cuidado."
SILÊNCIO
Ele não conversou com os companheiros de equipe sobre o
dilema.
"Mantenho isso para mim. Mas me naturalizei para jogar por
um país e vou dar o melhor para representar a Tunísia da melhor
maneira que puder."
Francileudo, que foi poupado do último jogo da Tunísia na
fase de grupos, contra Guiné, espera alcançar Eto'o no quadro
de artilheiros.
"Ainda tenho uma chance," disse. "Eto'o está um gol na
minha frente e jogou uma partida a mais. Vai ficar mais difícil
a partir de agora, mas ainda tenho uma chance de ser o
artilheiro e ajudar o time a chegar à final, o que é mais
importante."
O tema de troca de países tornou-se polêmico recentemente.
Há dois anos, a Fifa adotou regras mais duras depois de uma
onda de naturalizações rápidas, que resultaram em casos de
jogadores tentando representar países com os quais não tinham
conexão anterior.
Francileudo não se abala. "As pessoas podem pensar o que
quiserem. A Tunísia é um país do qual gosto muito", disse.
"Se alguém quer se naturalizar, o que há de errado se puder
se adaptar ao país? Os tunisianos gostam muito de mim e estou
feliz de ter tomado a decisão e jogar pela Tunísia."