Por Emnma Graham-Harrison
KASHGAR, China (Reuters) - Cacos de vidro azul, cabos de
energia expostos, buracos onde três árvores eram usadas como
moldura para a entrada de uma loja. Este cenário deixa evidente
que ali foi o cenário do maior atentado terrorista cometido na
China em mais de uma década.
Mas, depois que militantes mataram, na segunda-feira, 16
policiais usando explosivos caseiros e facas em frente à loja
de bebidas da remota cidade de Kashgar, o vendedor do
estabelecimento está mais frustrado do que com medo.
"Não estou com medo, mas estou sem energia elétrica há dois
dias e isso é ruim para os negócios", disse Hung, que abriu seu
negócio 18 meses atrás.
"Tem poucas pessoas em volta e ninguém quer comprar
bebidas. Eles apenas entram para olhar e fazer perguntas."
Huang descarta o risco de novos ataques, assim como boa
parte das pessoas da etnia chinesa Han, que vive na remota
cidade à margem da Rota da Seda. Ele diz se sentir seguro,
mesmo sabendo que o homem que lançou o ataque poderia tê-lo
matado.
Os dois terroristas eram uighurs, minoria principalmente
muçulmana que domina Kashgar e região, rica em minerais e
energia. Alguns grupos separatistas buscam a independência do
Turquistão Oriental.
Shi Dagang, chefe do Partido Comunista Chinês em Kashgar,
sugeriu que os dois eram ligados a um desses grupos.
Mas, apesar de o massacre, menos de uma semana antes da
abertura dos Jogos Olímpicos, chamar a atenção do mundo para as
tensões étnicas na distante região oeste da China, a maioria
dos chineses da etnia Han entrevistados pela Reuters afirmaram
que o fato foi uma anomalia, muito mais do que um alerta.
"A China é muito grande e é claro que coisas assim acabam
acontecendo de tempos em tempos", disse Gu Zhen, natural de
Xangai, visitando a ancestral mesquita de Idgah. "Não estou
preoucupado por estar nessa região", completou.
DESENVOLVIMENTO X RELIGIÃO
Hans e uighurs às vezes são vizinhos, mas eles têm vidas
segregadas com barreiras culturais e linguísticas cimentadas
pela desconfiança.
O governo considera a área um modelo de harmonia racial.
"Todos os grupos étnicos vivem amigavelmente juntos aqui.
Todos cooperam para construir uma bela nação", diz um cartaz em
inglês no pátio de uma mesquita.
"Um cidadão comum me disse, 'o partido é muito bom para
nós. Nós cultivamos a terra livremente, não temos que pagar
pela escola para nossas crianças, temos subsídios para reformar
novas casas... onde mais poderíamos ter uma vida tão boa?',"
disse uma autoridade de Kashgar em uma entrevista coletiva
sobre os ataques.
Mas a maioria dos uighurs se sente excluída do boom
econômico da região e, mesmo aqueles que se beneficiam do bom
momento, têm diferentes prioridades das de seus vizinho,
oficialmente ateus.