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Yahoo! Esportes - Edmundo, craque e personagem
Edmundo, craque e personagem
Qua, 20 Set, 07h57 - Yahoo! Notícias

Por Fernando Vives


Quando a decadência baixa, a tendência natural é se apegar aos bons momentos do passado. Que o diga o palmeirense, que vai ao Palestra Itália ver o atual time do Palmeiras e fica a imaginar que, fosse o Enílton o Evair, aquela bola seria caixa na certa, ou, fosse o Alceu o César Sampaio, aquele contra-ataque estúpido que gerou um gol do adversário jamais teria ocorrido. Ser torcedor do Palmeiras não anda nada fácil. Mas ser jogador do Palmeiras provavelmente é pior, já que ele é comparado a todo instante com o vídeo tape que passa na cabeça da torcida saudosista.

Edmundo é o elo entre o passado e o presente no Verdão. Não é o driblador de antanho, sem dúvida. Em compensação, sua inteligência dentro e fora do campo se aprimorou como pouca gente esperava. Some ao fato que Edmundo talvez seja, ao lado de Rogério Ceni, do São Paulo, e de Marcos, do próprio Palmeiras, o maior ídolo de direito e de fato de uma torcida no futebol brasileiro (Fernandão, do Internacional, é outro que caminha para tal patamar). O valor disso é inestimável em tempos em que os grandes jogadores estão cada vez menos ligados aos clubes.

Há diferenças entre a trajetória de Edmundo com a de, por exemplo, Amoroso. Quando no São Paulo, Amoroso cansou de provocar o Corinthians e, alguns meses depois, está no Parque São Jorge. Na estréia, logo contra o São Paulo, ele já promete que vai marcar um gol no seu ex-clube – não conseguiu. Tudo rigorosamente legítimo no âmbito profissional (ele tem direito de mudar de idéia e de jogar onde quiser). Mas o sãopaulino hoje não tem muito simpatia por Amoroso. Edílson é outro que, apesar de ser um craque, deixou muitas mágoas entre a torcida dos clubes pelos quais passou.

A trajetória de Edmundo não foi muito diferente da de Edílson, jogando por Vasco, Palmeiras, Flamengo e Corinthians. Então o que faz Edmundo ser diferente de Edílson, que jogou pelos mesmos clubes que ele, pegando a mesma crista da onde de títulos do Palmeiras, e de Amoroso, fundamental para o tri da Libertadores do São Paulo?

A resposta possivelmente está em que o atual camisa 7 do Palmeiras é muito mais personagem, tem a vida recheada de passagens marcantes dentro e fora de campo, para o bem e para o mal. Edmundo está mais para Heleno de Freitas, o craque intempestivo e galã do Botafogo dos anos 40 que morreu louco em um sanatório, que para Amoroso.

Edmundo começou a carreira no Vasco, onde deu indícios de que seria um bad boy – expressão ridícula que fez sucesso à época, que pode ser melhor traduzida como “malandro”. No Palmeiras, virou xodó da torcida mas causou atritos infindáveis com o técnico Vanderlei Luxemburgo e os colegas Antônio Carlos, César Sampaio e Evair. Se envolveu em um acidente automobilístico no Rio de Janeiro com vítimas fatais, cujo processo corre até hoje – ele já foi condenado, mas está recorrendo. Saiu de maneira conturbada do Palmeiras para jogar no centenário Flamengo ao lado de Romário (seu amigo com quem chegou a gravar uma música) e Sávio, o chamado ataque dos sonhos que virou pesadelo. Quando chegou ao Corinthians, em 1996, Edmundo já tinha quase nada do craque de um ano antes.

Muita gente achou que o retorno ao Vasco em 97 seria o último passo antes do esquecimento do craque. Ledo engano: provavelmente nunca um campeonato brasileiro foi vencido por um clube por conta de um só jogador como aquele de 1997, quando o gênio com as bolas nos pés revezou com o destemperamento do homem falível Edmundo – houve uma expulsão contra o América em Natal, Rio Grande do Norte, quando ele declarou na saída do campo: “A gente vem jogar aqui na Paraíba, botam um paraíba pra apitar e dá nisso”.

O título do Brasileiro de 97 pelo Vasco fez Edmundo disputar a Copa de 98, onde pegou uma tremenda fogueira tendo que substituir o convulsionado Ronaldo na final. Edmundo chegou a jogar na Fiorentina, da Itália, indicado pelo ídolo-mor Julinho Botelho, um dos cinco grandes ídolos palmeirenses de todos os tempos. Pelo Cruzeiro, Edmundo perde um pênalti contra o Vasco após declarar, antes da partida, que não gostaria de fazer um gol em seu clube do coração. Foi demitido ao término do jogo.

O craque voltou ao Vasco, passou pelo Fluminense e, após os 30 anos, parece que começou a colocar a cabeça no lugar. Fez as pazes com o ex-amigo e desafeto Romário, passou a usar a inteligência dentro de campo mais do que os dribles e ser referência do time dentro dos gramados.

Em 2005, no Figueirense, quando todos achavam que Edmundo novamente ia cair no esquecimento, o craque resolve fazer um grande campeonato brasileiro. Neste ano, voltou ao Palmeiras, clube carente de ídolos. E a torcida vê nele as glórias recentes que o clube viveu.

O melhor retrato da volta de Edmundo ao Parque Antarctica foi a primeira partida contra o São Paulo pela Libertadores, em que o time vinha de uma derrota esplendorosa para o Figueirense por 6 a 1, e sérios desfalques. A torcida estava assustada, já que o São Paulo era muito superior. No início do jogo, Edmundo peitou o volante Josué, do São Paulo, e iniciou uma guerra de nervos que truncou a partida e levantou a torcida do Palmeiras. Depois do jogo, Edmundo declarou algo parecido com esta frase: “Eu precisava ganhar a torcida que estava insegura com o time. Peitei o Josué para que eles se levantassem, mostrassem quem é que grita mais alto no Parque Antárctica”.
O jogou terminou em 1 a 1 e Edmundo provou que, mais que um craque, ele é um personagem como poucos na História do futebol brasileiro.

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