Por Simon Denyer
PEQUIM (Reuters) - A China desfilou na quinta-feira a tocha
olímpica pela sua Grande Muralha, um dia antes da cerimônia de
abertura da Olimpíada com a qual o país quer exibir sua
modernidade e prosperidade.
Pombas foram soltas sob uma chuva de confetes, enquanto
corredores transportavam a tocha sobre as rampas da Muralha,
cobertas de névoa àquela hora da manhã. A tradição do percurso
da tocha remonta à Olimpíada de Berlim-1936.
Na sexta-feira, a tocha entrará no estádio Ninho de Pássaro
para a cerimônia de abertura dos 16 dias de Jogos.
Mas o evento também rende críticas aos anfitriões. A
caminho de Pequim, o presidente George W. Bush, que chegou à
capital chinesa nesta quinta, usou termos excepcionalmente
duros para cobrar mais liberdades na China, país que para
muitos deve disputar com os EUA a hegemonia global neste
século.
"Os Estados Unidos acreditam que o povo da China merece
aliberdade fundamental que é um direito natural de todos os
seres humanos", comentou Bush.
"Nós defendemos uma imprensa livre, liberdade de reunião,
direitos trabalhistas, não simplesmente para nos opor aos
líderes chineses, mas porque confiar em seu povo dando a ele
mais liberdade é a única maneira de a China desenvolver todo o
seu potencial."
Pequim reagiu dizendo que seu povo desfruta de muitas
liberdades, mas fez um alerta: "Nós nos opomos resolutamente a
quaisquer palavras ou ações que interfiram nos assuntos
internos de outro país em nome de questões como direitos
humanos e religião."
Em outro constrangimento para o regime comunista, 40
atletas participantes da Olimpíada aderiram a um
abaixo-assinado pedindo uma solução pacífica para a questão do
Tibete.
BOLA ROLANDO
Deixando a política de lado, o esporte já começou em
Pequim. Na quarta-feira, a seleção feminina de futebol da China
venceu na sua estréia, enquanto a do Brasil empatou sem gols
com a Alemanha.
Na quinta, Ronaldinho e companhia estrearam com vitória na
busca pelo inédito ouro do futebol masculino -- 1 x 0 sobre a
Bélgica.
Em toda a China, cresce a excitação com o início oficial da
Olimpíada, que terá a cerimônia mais cara de todos os tempos.
No total, a China gastou 40 bilhões de dólares para o evento.
Nesta semana, no percurso final da tocha pela China,
multidões entusiasmadas, mas rigidamente organizadas pelo
governo, aplaudiram a chama olímpica, contrabalançando
parcialmente os protestos (especialmente com relação a Tibete)
ocorridos em várias etapas no exterior.
"Houve problemas com a tocha, mas agora é hora da festa!",
disse o estudante Weng Chengyu, 28 anos, entre a multidão que
dançava e cantava perto da Grande Muralha.
OLHO NO CÉU
Para os atletas, a maior preocupação agora é com o calor e
a poluição. Na quinta-feira, a cidade continuava coberta de
névoa, mas as autoridades, que gastaram 18 milhões de dólares
no combate à contaminação atmosférica, dizem que a qualidade do
ar está boa.
Agosto é um mês de chuvas de verão, e os organizadores
cogitam usar uma tecnologia experimental para estimular a
precipitação e evitar que a água caia durante a cerimônia de
sexta-feira.
O jogador de basquete Yao Ming, de 2m29, será o
porta-bandeira da China na cerimônia. Desta vez, não haverá
desfile unificado das duas Coréias, como em 2000 e 2004.
Apesar de haver 100 mil policiais e soldados de prontidão,
pequenos grupos de manifestantes surgiram nesta semana para
protestar a respeito da situação do Tibete, do aborto e dos
direitos dos animais.
Na quinta-feira, policiais à paisana detiveram três
ativistas cristãos norte-americanas que foram à praça da Paz
Celestial exigir liberdade religiosa na China.