É possível jogar bonito e ganhar lindo. Mas também é possível se complicar só jogando assim. Ou não jogando.
Para não ir longe, o futebol mais bonito do turno do BR-07 foi do Botafogo de Cuca; o do returno foi do Cruzeiro de Dorival Júnior; e o campeão foi o São Paulo de Muricy, com quatro rodadas de antecedência. Ele concorda com as duas primeiras frases e com aquelas fases iluminadas dos rivais.
Em 2008, ninguém joga tão bonito no Sul como o Inter, como mal aprendeu a Ulbra – mas o invicto é o Grêmio, há 18 jogos, e que fez o de sempre contra o Juventude, em Caxias; o Cruzeiro tem belas partidas e bons placares, mesmo com os reservas, como fez contra o Ipatinga; Fluminense e Botafogo têm jogado bem e bonito – mas ainda não estão classificados como o Flamengo, que faz campanha notável, mesmo com a equipe reserva, na Taça Rio.
Acontece. Como pode se repetir no SP-08 com o mais vistoso futebol paulista, como o mais bonito Palmeiras desde a final do RJ-SP-2000. Para não ir mais longe.
O golaço de Valdivia contra o São Caetano é a síntese desse jogo. Bola que saiu da esquerda para a direita até o chute com a parte de fora do pé direito. Bolas elaboradas, jogadas ensaiadas, técnica apurada. Não é acaso o bom jogo verde. É caso pensado e muito trabalhado. Não apenas na parte técnica. Era o que imaginava Luxemburgo antes mesmo de o time começar a jogar. E como começou a jogar.
PR-07 – Apesar dos sustos, Atlético e Coritiba começam a se recuperar e a fazer a lógica, juntamente com o redondinho time do Paraná. Deve dar a lógica nas semifinais. Mas não mais com o Furacão como enorme favorito.
BA-07 – O Bahia faz um campeonato bonito como há muito não se via. Paulo Comelli é bom treinador, e tem alguns bons jogadores. Campanha facilitada pelo mau momento do Vitória.
PE-07 – O Sport tropeçou, o Náutico enfim acertou um belo jogo e uma bela sacola de gols, e vai deixar o campeonato mais equilibrado. Mas ainda difícil pro time alvirrubro. O rubro-negro sobra.
CHORO É LIVRE? - A manifestação equilibrada e contundente é livre.
Mas o choro desmedido, o esperneio premeditado, a reclamação estratégica, não.
O chororô deve ser discutido, combatido, evitado e, nos casos de lei, julgado.
Podemos e devemos discutir a arbitragem. A tabela. Questionar decisões políticas de cartolas e federações. Sugerir até possíveis favorecimentos ou eventuais prejuízos por injunções comerciais, políticas e pessoais.
Mas não podemos nos defender apenas atacando.
Sobretudo nos tribunais competentes – ou não. Forçamos a barra ao dizer que é uma “ditadura” quando os TJDs exigem explicações dos treinadores, jogadores, cartolões e bonezinhos dos clubes. Não só por constar do próprio regulamento das competições e do código esportivo. Mas por uma questão de espírito esportivo.
Todos podem e devem se manifestar sobre tudo. Mas não insinuando armações, maracutaias e complôs.
Uma coisa é dizer que o árbitro errou, que a arbitragem tem errado; outra é enxergar premeditação e favorecimento explícitos.
O choro livre trava árbitros, turva erros, tranca os jogos, tumultua arquibancadas, teatraliza a mídia, e transforma os tribunais em craques do espetáculo.
Em breve, em vez de falar de uma linha de zaga com Leandro, Marinho, Mozer e Júnior, vamos louvar uma linha de defesa composta por Tucunduva, Paranhos, Medeiros e Albuquerque Advogados.
Era fato.
Time e torcida estavam juntos naquele abraço doído e doido.
Como tantas vezes o atleticano esteve junto com o time. Qualquer time.
Nada é mais atleticano que aquilo: um time que se comportou como o torcedor.
Solidário na dor, irmão no gol.
O atleticano é assim: tem a coragem do galo, mas não a crista.
Luta e vibra com raça e amor. Mas não se acha o dono do terreiro.
Sabe que precisa brigar contra quase tudo e contra quase todos. Até contra o vento, na célebre imagem de Roberto Drummond.
Aquela que fala da camisa preta e branca pendurada num varal durante uma tempestade. Para o escritor atleticano, ou, melhor, para o atleticano escritor, o torcedor do Atlético sopraria e torceria contra o vento durante a tormenta.
Não é metáfora. É meta de quem muitas vezes fica de fora da festa. Não porque quer. Mas porque não querem.
Posso falar como jornalista há 17 anos e torcedor não-atleticano há 41: não há grande equipe no país mais prejudicada pela arbitragem.
Os exemplos são tantos e estão guardados nos olhos e no fígado.
Não por acaso, o atleticano acaba perdendo alguns jogos e títulos ganhos porque acumulou nas veias as picadas do apito armado.
Algumas vezes, é fato, faltou time. Ou só sobrou raça. Mas não faltou aquilo que sobra no Mineirão, no Independência, onde o Galo for jogar: torcida.
Pode não ser a maior, pode não ser a melhor, pode até se perder e fazer perder por tamanha paixão, cobrando gols do camisa 9 como se todos fossem Reinaldo, pedindo técnica e armação no meio-campo como se todos fossem Cerezo, exigindo segurança e elegância da zaga como se todos fossem Luisinho.
Mas não se pode cobrar ninguém por amar incondicionalmente.
O atleticano não exige bola de todo o time. Não cobra inspiração de cada jogador. Quer apenas ver um atleticano transpirando em cada camisa, em cada posição, em cada jogada.
Por isso pede para que o time lute.
É o mínimo para quem dá o máximo na arquibancada.
A maior vitória atleticana é essa. Mais que o primeiro Brasileirão, em 1971, mais que o vice mais campeão da história do Brasil, em 1977.
Os tantos títulos e troféus contam. Mas tamanha paixão, essa não se mede. Essa é desmedida. Essa é a essência atleticana.
Essa é centenária.
Essa é eterna.