Nenhum brasileiro parece capaz de ser feliz por muito tempo no Barcelona. Romário, Ronaldo e Rivaldo já haviam passado, com pequenas diferenças, pelo ciclo que Ronaldinho Gaúcho agora está prestes a completar, com a já anunciada saída para a Itália.
Primeira fase: contratação a peso de ouro, recepção calorosa, ótimas partidas, juras de amor eterno. Segunda fase: conquistas, mais planos de longo prazo. Terceira fase: desgastes, queda de rendimento, mágoas. Quarta e última fase: transferência abrupta e o sentimento de “já vai tarde”.
Se ocorresse apenas com brasileiros, seria razoável supor que o problema estivesse no comportamento dos jogadores. Mas a história já se repetiu com craques de outras nacionalidades que também foram ídolos na Catalunha e depois caíram em desgraça, como o português Luís Figo, sugerindo que o ambiente político do clube tenha algo de ciclotímico. Tanta paixão, como a demonstrada pela Catalunha em relação ao time, às vezes é difícil administrar.
A transferência de Ronaldinho configura-se como o primeiro movimento bombástico de um mercado de verão que promete ser aquecido na Europa, com re-acomodações de elenco (e de treinadores) em alguns grandes do continente, a começar pelo próprio Barcelona, que deve vender e comprar em doses generosas.
Na Espanha, nem mesmo o provável título nacional impedirá que o Real Madrid também vá ao mercado para outra tentativa de reestruturação, uma vez que a nova desclassificação precoce na Liga dos Campeões não estava no planejamento da diretoria e muito menos da torcida.
Situação parecida é a da Internazionale, que manteve a hegemonia doméstica (nem tão notável assim, em período de reconstrução da Juventus e de crise de velhice do Milan), mas ficou muito longe do título europeu, que não levanta desde os anos 60. E o Milan? Como o cerco a Ronaldinho demonstra, a fraquíssima campanha deste ano forçará a chegada de reforços de peso.
O Chelsea é outro endinheirado que deve promover mudanças drásticas, previstas desde que o treinador português José Mourinho se foi, ainda no início da atual temporada. Sem tanto dinheiro para investir, o Arsenal precisará reforçar cuidadosamente o elenco para suprir as lacunas que levaram o time a morrer na praia em todas as competições.
No segundo escalão de times europeus, clubes tradicionais como Lyon, Valencia, Benfica, PSG, Tottenham e Borussia Dortmund serão obrigados a se mexer, ainda que por motivos distintos: os prováveis heptacampeões franceses têm ainda o sonho de alcançar as semifinais da Liga dos Campeões, enquanto os demais precisam urgentemente recuperar terreno perdido no cenário doméstico (e, antes disso, evitar o rebaixamento, que se aproxima perigosamente do PSG).
Efeito secundário desse aquecimento: por mais uma vez o Campeonato Brasileiro começará de um jeito e, no período de junho a agosto, virará outra coisa. Muita gente empregada aqui vai ocupar, daqui a pouco, mansões e apartamentos na Europa.