Encontro no metrô o estudante de Jornalismo Nathan Alves Lopes, meu aluno na Faculdade Cásper Líbero, e divido com ele a busca pelo tema para esta coluna. “Por que você não fala de gols de mão?”, sugere ele no embalo da polêmica da semana. Valeu, Nathan!
Calma, que eu prometo não escrever mais nada, aqui, sobre o famoso gol do Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986. Até porque acho que não há mais nada de novo a falar sobre isso. Mas vou falar, sim, de um jogo da Argentina, contra o Brasil. E não é aquele da Copa América de 1995, um 2 a 2 com gol de Túlio, marcado também com a mão.
Eram 20 minutos do segundo tempo. Gol argentino. Mas — surpresa! — quatro jogadores da própria Argentina cercam o bandeirinha. Estão “dedurando” seu companheiro, confessando que viram o gol ser marcado com a mão. O juiz, que havia dado o gol, volta atrás, sob os aplausos do público presente.
O autor do gol foi Leonardi, da Argentina. Entre seus colegas “dedos-duros” estava o zagueiro Gallup Lanús. O bandeirinha, argentino, era Calixto Gardi, e o juiz, brasileiro, o médico Alberto Borgerth, que pouco antes havia liderado uma debandada de jogadores do Fluminense para fundar a seção de futebol do Flamengo. A torcdia que aplaudiau era a da Argentina e o ano, claro, o longínquo 1914. Mais precisamente dia 27 de setembro daquele ano, data da primeira vitória da Seleção Brasileira em jogos oficiais, por 1 a 0, que valeu a conquista da Taça Roca.
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Já em 1938 — na verdade, abril de 1939 — o próprio Campeonato Paulista foi decidido com um gol de mão. O Corinthians, líder da competição, precisava de apenas mais um empate para ser bicampeão, e invicto. O São Paulo tinha que vencer para ficar com a taça.
Jogo no Parque São Jorge, o São Paulo ganhava por 1 a 0, gol de Mendes, até os 21 minutos do primeiro tempo, quando um temporal impede que a partida continue. O jogo só é reiniciado dois dias depois, na terça-feira, a partir de onde parou, com o Corinthians tendo apenas um tempo e meio para buscar o empate e o título.
Aos 20 do segundo, Carlito marca o salvador gol corintiano. Dizem que com a mão, mas o juiz, Thomaz dos Reis Cardoso de Almeida, não viu. A torcida sim. Tanto que naquele dia os próprios corintianos saíram do estádio cantando: “É com o pé, é com a mão, o Corinthians é campeão...”
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Mas quando o assunto envolve São Paulo e Palmeiras nenhum outro gol de mão é mais lembrado (pelo menos até o da semana passada) que o do palmeirense Leivinha.
Os dois times decidiam o título, na última rodada do Paulista de 1971. O São Paulo jogava pelo empate, mas saiu na frente com um gol de Toninho Guerreiro, logo no começo do jogo. Leivinha chegou a empatar de cabeça, mas o árbitro Armando Marques “inventou” um toque de mão que até hoje ninguém mais viu. E o jogo ficou naquilo: São Paulo 1 x 0, São Paulo campeão.
O bandeirinha Dulcídio Wanderley Boschillia, que também era um árbitro famoso, correu para o meio do campo, validando o lance de Leivinha. “Você quer me desmoralizar?”, teria perguntado Armando Marques. “Foi gol”, teria respondido Dulcídio. Dizem que por conta desse lance os dois não mais se falaram. E que Armando teria feito de tudo para que Dulcídio jamais integrasse o quadro de árbitros da Fifa.
Antes tarde do que nunca: o ex-jogador do Corinthians José Cássio da Silva, que hoje mora em Bruxelas, na Bélgica, informa por e-mail que de fato marcou o primeiro gol no jogo Corinthians 1 x 2 Santos, no Parque São Jorge, em 4 de novembro de 1962, conforme esta coluna registrou há algumas semanas no texto “40 Anos de um Tabu”. Mas que apesar de ter passado também por Ypiranga, Juventus e Portuguesa, jamais atuou pelo próprio Santos, conforme eu escrevi.
É verdade, Cássio. Você, que jogava mais adiantado, foi confundido por mim com um outro Cássio, zagueiro e médio que defendeu o Timão um pouco antes, em 1957/58. Aquele, sim, era o do Santos... Portanto, como você mesmo escreveu no título de seu e-mail, “a Cássio (César) o que é de César (Cássio)”.