Com os 2 a 0 do Zenit contra o Glasgow Rangers, a vodka venceu outra batalha simbólica contra o uísque e a Rússia faturou a segunda Copa Uefa nas últimas quatro temporadas. Em 2005, o CSKA derrotou o Sporting em plena Lisboa. Desta vez, os russos foram buscar a taça em Manchester, que parecia a casa do Rangers.
Não há dúvida de que os dois títulos põem o futebol do país no mapa do primeiro mundo da bola, mas ainda é cedo para dizer que refletem o desenvolvimento conjunto das equipes e dos campeonatos locais.
Embora o dinheiro tenha aparecido nos anos 2000, os investimentos até agora foram feitos em jogadores sem status internacional de craques. Basta notar, no Brasil, a resistência em se transferir para lá. Medo do frio, em todos os sentidos – o da temperatura, inóspita a maior parte do ano, e o do esquecimento, em relação ao mercado internacional e à seleção brasileira.
Parece mais razoável atribuir os recentes êxitos internacionais a esforços pontuais feitos pelo CSKA (que não foi capaz de sustentá-los nas temporadas seguintes) e, agora, pelo Zenit, cuja performance na reta final – vitórias inquestionáveis sobre Bayer Leverkusen, Bayern de Munique e Rangers – deixa claro que o time não estava na Copa Uefa para brincadeira.
O problema é que, apesar da participação neste ano de times alemães, espanhóis e ingleses com algum peso, a Copa Uefa se tornou, com a criação da Liga dos Campeões, uma espécie de Série B da Europa. Levantá-la enriquece consideravelmente a sala de troféus de qualquer time, sobretudo de emergentes como os russos e o Sevilla, mas não atesta a capacidade de se dar igualmente bem na Liga dos Campeões.
Nos velhos tempos de Copa dos Campeões, em que apenas o campeão nacional disputava a competição, os outros grandes eram distribuídos pela Copa Uefa e pela extinta Recopa (a copa dos vencedores de copas). Hoje, com os principais países enviando três ou quatro para a Liga, sobram poucas equipes de ponta.
Na Inglaterra, por exemplo, apenas o Manchester United teria, de acordo com os antigos parâmetros, o direito de disputar no próximo ano a Copa dos Campeões. Chelsea, Liverpool e Arsenal estariam na Copa Uefa ou na Recopa (se um deles por acaso vencesse a Copa da Inglaterra). No atual formato, vão os quatro para a Liga.
É bem verdade que, se os quatro grandes ingleses e seus co-irmãos de outros países estão por cima da carne seca, é porque a Liga dos Campeões também contribuiu para isso.
Concentração de renda, em resumo. Os ricos ficam mais ricos. Aos outros, resta a disputa das sobras.
O Zenit disputará na próxima temporada a Liga dos Campeões. Que a lembrança da campanha encerrada hoje contribua para que isso represente um salto na história do clube e o aproxime das principais forças do continente. Mas, se por acaso o time repetir o fiasco do CSKA, São Petersburgo terá entrado no roteiro da competição – o que já é bom motivo para celebração.
Com vodka, porque ali, mais ao norte de Moscou e bem perto da Finlândia, faz um frio danado.