Em um mundo perfeito, os dois presidentes se reuniriam no centro do gramado com Michel Platini, presidente da Uefa, e decidiriam que Chelsea e Manchester United dividiriam o título da Liga dos Campeões. Quem acompanhou a temporada e assistiu ao jogo de hoje sempre se lembrará do equilíbrio entre os adversários, talvez as principais equipes do planeta no momento.
O regulamento, no entanto, previa os pênaltis, e os pênaltis - 14 deles, dramaticamente batidos sob chuva intensa na madrugada de Moscou - reservaram a consagração dos almanaques, que trazem apenas o nome dos vencedores, para o Manchester.
Não seria justo, ao final de um confronto entre equipes de força equivalente, buscar vilões. Terry, o capitão do Chelsea? Ninguém melhor do que ele sabia que converter o último pênalti da série inicial de cinco o imortalizaria na história do clube e do futebol europeu. Seria ele, na foto, a levantar o troféu.
Terry escorregou, no entanto, e chutou para fora. É provável que não consiga dormir hoje, talvez nem amanhã, mas não merece ser crucificado – inclusive porque todos sabemos, embora os almanaques não registrem, que ele foi quem evitou que Giggs marcasse o segundo gol do Manchester ainda com a bola rolando.
Anelka seria candidato natural a vilão, ao desperdiçar a última cobrança. É um jogador muitas vezes apático, que troca de clube como quem muda de restaurante, e jogar a culpa pela derrota nas suas costas parece muito convidativo para o torcedor de cabeça quente. Talvez seja melhor preservá-lo, assim como aos demais colegas, diante da constatação de que o Chelsea perdeu em pé, um instante depois de acreditar na vitória iminente – e, nesse caminho alternativo do destino, o Manchester também perderia em pé.
Sem vilão, não se pode ter herói. Talvez seja o caso de atribuir uma espécie de menção honrosa, a medalha Homem-Aranha, ao goleiro holandês Van der Sar, o último a tocar na bola, defendendo o pênalti de Anelka. Há cinco ou seis anos, ele já era considerado um goleiro em vias de aposentadoria. E pé frio, por causa das derrotas da Holanda em decisões por pênaltis. Hoje, Van der Sar também não vai dormir, como Terry, mas será de alegria.
Coube a Ferdinand e Giggs, em bonito dueto de capitães, levantar o troféu em Moscou. Imagine se tivessem ao lado Terry e Lampard, em concerto de vitória a duas cores e oito mãos?
Seria uma cena muito razoável, coerente com a temporada, mas a graça do futebol também está na tragédia de quem sente o triunfo perto e, em questão de minutos, às vezes de segundos, o vê escorrer pelas mãos.