Se um alquimista se dedicasse à formula ideal de uma equipe, misturaria provavelmente os ingredientes do Brasil ou da Argentina com os da Alemanha. De um lado, talento e improvisação (esqueça o jogo de ontem no Mineirão e lembre a tradição vitoriosa de ambos os países). De outro, segurança, confiança e frieza. Sairia um time imbatível.
Não há dúvida de que teria sido melhor para Portugal adiar o confronto com os alemães para a semifinal. O álibi de Felipão e seus atletas é que eles cumpriram seu papel e ocuparam a liderança de seu grupo; os alemães é que vacilaram e avançaram na segunda colocação do seu, provocando o confronto precoce.
Se os portugueses tivessem alma alemã, talvez aguardassem o desenrolar do outro grupo para saber se convinha avançar em primeiro ou segundo lugar. Por mais que a Alemanha negue, foi o que fizeram em mais de uma competição – e a ocasião mais célebre foi na Copa de 1974, quando perderam para a extinta Alemanha Oriental e fugiram, nas semifinais, de Holanda e Brasil. Com isso, jogaram a disputa mais difícil para o final da competição – e, como se sabe, ganharam, contra os prognósticos da maioria dos observadores, que acreditavam na supremacia holandesa.
O andar da carruagem na Eurocopa aponta para uma possível repetição daquela final até hoje relembrada e analisada. Há diversas semelhanças, embora ambos os times em 1974 fossem muito superiores aos de 2008.
Os alemães eram, e ainda são, um time quadrado, mas disciplinado, com doses estratégicas (ainda que econômicas) de talento e capaz de se superar. Os holandeses jogavam, e ainda jogam, um futebol bem mais vistoso, agradável de ver, voltado para o ataque e para o envolvimento do adversário com movimentação incessante em campo.
A porção Felipão de Van Basten lembrará isso tudo para motivar sua equipe a demonstrar que é possível enfrentar o pragmatismo alemão e, mais de 30 anos depois, usar a final de Viena em 2008 para contrastar com a de Munique em 1974.
Antes, no entanto, os holandeses correm o risco de enfrentar na semifinal outra espécie de “alemães”, aqueles que falam italiano, também especializados em avançar nas competições mesmo quando os adversários parecem mais preparados para fazer isso.
Claro que, ainda antes desses cenários todos, há a Rússia e a Espanha no caminho de Holanda e Itália, bem como a Turquia ou Croácia no da Alemanha. Convém não bobear.