PARIS – Futebol é um esporte em que jogam 11 contra 11, e a Alemanha sempre ganha no final. A máxima, criada pelo ex-atacante inglês Gary Lineker, foi diversas vezes lembrada nos últimos dias pelas imprensas de Portugal, por onde passei a caminho de Paris, e da França.
Há uma curiosa espécie de resignação entre torcedores de diversos países quanto à capacidade de os alemães chegarem a fases finais de copas – do Mundo e da Europa – mesmo quando parecem inferiores a seus adversários.
Resignação que se mistura com autocrítica (neste ano, feita com mais intensidade pelos portugueses, no sentido do “onde foi que erramos?”) e com insinuações de favorecimento – no terceiro gol de Ballack contra Portugal, por exemplo. Alguns dirigentes e comentaristas alegam que faltaria a Portugal e a outros países de status futebolístico parecido (ou seja, nenhum grande título no currículo) a mesma desenvoltura dos alemães nos bastidores.
Em Paris (e, salvo engano, em quase toda a França), o sentimento de resignação diante dos alemães se somou também à alegria pela eliminação da Itália. A derrota na final da Copa de 2006 e o episódio Zidane-Materazzi ainda na haviam sido digeridos pelos torcedores. Provavelmente ainda não o foram, mas ao menos os franceses puderam sorrir pela primeira vez na Euro 2008 quando Casillas fez o que se esperava de Barthez em Berlim.
Outro motivo de contentamento entre os franceses é o fim da era Raymond Domenech. O ex-volante Didier Deschamps, capitão da seleção campeã mundial em 1998, lidera as apostas para substituí-lo. Seria uma solução à la Dunga, temperada com mais experiência – Deschamps levou o Mônaco a uma inesperada final da Liga dos Campeões, contra o Porto, e ajudou a conduzir a Juventus de volta à Série A na Itália.
O técnico do momento na imprensa européia, entretanto, é o holandês Guus Hiddink, o “Superguus”, segundo a edição especial da revista francesa “So Foot” dedicada à Euro, e que traz ótima reportagem sobre o “método Hiddink”.
É certamente ele, e não o talento de Arshavin ou o de qualquer outro jogador russo, o principal temor dos espanhóis. De fato, entre Hiddink e Luis Aragonés, o treinador espanhol que põe Fabregas no banco porque o considera um meia ofensivo e não encontra lugar para ele no time, não há a mais remota comparação. Os dois pertencem a universos de competência muito distintos.
Ninguém duvida que, a essa altura, os alemães preferem enfrentar a Espanha do que a Rússia justamente por casa de Hiddink e do potencial de surpresa que ele poderia armar em uma hipotética final.
A situação se inverterá se os turcos chegarem à final, o que parecia absolutamente improvável há duas semanas. Nesse caso, Hiddink (ou Aragonés) é quem terá a sempre ingrata missão de desarmar a zebra.