Os detratores de Felipão querem dar ares de demissão por justa causa à sua saída do Chelsea, mas os números de seus sete meses no cargo, analisados com frieza, não autorizam esse raciocínio. Se a passagem dele e do inseparável Flávio Murtosa por Stamford Bridge não foi nenhuma maravilha, também não correspondeu a um desastre.
Parece mais razoável atribuir o fim do breve casamento a equívocos de ambas as partes já na contratação, ainda durante a Euro 2008.
Roman Abramovich, o magnata russo que administra o Chelsea como se brincasse de Banco Imobiliário ou de Total Manager, se deixou convencer pelo currículo estrelado de Felipão e pela promessa de agregar seu prestígio internacional ao clube.
Talvez porque não conhecesse direito o treinador, Abramovich e seus executivos não perceberam que o perfil de trabalho de Felipão não combinava com o do futebol inglês, mais adequado a fleumáticos tipicamente britânicos como Alex Ferguson ou a aculturados de ótima expressão no idioma local como Arséne Wenger.
Felipão, por sua vez, deveria ter desconfiado de que Abramovich não inspirava confiança, como descobriram Claudio Ranieri, José Mourinho e Avam Grant, seus antecessores no cargo. E talvez devesse também considerar que seu estilo combina mais com um clube espanhol ou italiano, onde poderia aplicar à vontade seus conceitos de formação de grupo (principalmente por causa da cultura e da língua), ou com uma seleção européia de porte mediano (cuja federação veria de forma positiva um trabalho de base, a ser desenvolvido no longo prazo).
Para piorar o que já não era uma união dos sonhos, veio a crise econômica e lá se foi o que o Chelsea tinha de mais atraente: dinheiro.
Quem sai melhor dessa história? Felipão, claro. Depois da ressaca da demissão, vai dormir tranqüilo, sem a imprensa sensacionalista inglesa a lhe encher a paciência. E não lhe faltará emprego, na Europa ou em outros continentes (Ricardo Teixeira, por exemplo, foi agraciado com um ótimo Plano B para a seleção brasileira).
Já o Chelsea precisa arrumar alguém a toque de caixa para os duelos das oitavas-de-final da Liga dos Campeões contra a Juventus de... Claudio Ranieri, desprezado por Abramovich depois de levar o Chelsea, com um elenco menos estrelado do que o atual, às semifinais da mesma Liga dos Campeões em 2004 (foi derrotado pelo Mônaco, que perdeu na final para o Porto de Mourinho, então contratado para substituir Ranieri).
E ao Chelsea só resta a Liga dos Campeões, porque as duas copas da Inglaterra já eram (sim, Felipão tem sua parcela de culpa nesse cartório) e parece impossível alcançar o Manchester United no campeonato inglês (não pela distância de pontos, mas pela diferença de elenco e de futebol).
Abramovich não quer e não precisa de conselhos, mas alguém talvez devesse lhe dizer que, se tem mesmo o objetivo de formar um time dominante por um longo período, precisa encontrar o seu Alex Ferguson e deixá-lo trabalhar por ao menos uma década. Se fizer isso, desperdiçará menos dinheiro, inclusive em rescisões contratuais. E dinheiro parece ser o idioma do sujeito.