O Coringão voltou. Ronaldo voltou. E ele precisa entender isso. O futebol brasileiro é aquele que dá show com a bola nos pés, quase sempre dá exemplo de organização de equipe. Mas é a bagunça que bota fogo na taça, no troféu que o presidente interino da federação dá na mão do presidente aparecido (em vez de entregar ao capitão do time campeão), no elevador que leva secretário, ministro e aspone para o alto, e na quizomba da imprensa que é liberada para fazer até o que não deve.
Mas vamos falar do que interessa. Do que é de poucos. Ou, no caso, de tantos. De campeões dos campeões paulistas como o Corinthians que voltou para ficar. A partir da primeira partida decisiva, em Santos. Quando Ronaldo ceifou Triguinho e viu um borrão vermelho saindo da meta. O Fenômeno meteu a colher para acabar com a discussão. Era o terceiro gol na Vila Belmiro. O segundo já havia nascido do pé que matara um bicão de Chicão como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como é natural para alguém que faz gols como se fosse Ronaldo.
E ele é. Sempre será. Pode operar o joelho. Pode perder velocidade, ganhar peso. Pode se perder fora de campo em Prudente. Que, no campo, na elenco, ele continua sendo o “presidente. Como foi rei na Vila de Pelé. Como calou a rádio-e-tv-patrulha que o “acabara” mais uma vez. Eles não se cansam de aposentar Ronaldo. E ele nem precisa se cansar para esgotar adjetivos e valer quanto pesa.
Ronaldo foi o Corinthians no Paulistão 2009. E o Corinthians voltou a ser o Timão da virada. Melhor defesa do torneio, campeão invicto pela quinta vez em 26 canecos estaduais. Vencendo o Santos nas finais, ganhando duas vezes do tri brasileiro nas semifinais, superando as limitações de um elenco pouco responsável pelos irresponsáveis que o rebaixaram. Mas profissional na seriedade do comando de Mano Menezes, que montou time competitivo que não sabe o que é perder. Mas que aprendeu rapidamente o que é o Corinthians. O que é Ronaldo. O que é vencer.
Muitos não davam pelota ao gênio. Muitos achavam que era um elenco de segunda categoria. Muitos não reconheciam a capacidade de Felipe nas decisões, a firmeza do sistema defensivo (dos artilheiros Chicão e André Santos) bem protegido por volantes como Cristian e o regularíssimo Elias (o melhor do campeonato). Ajudado por atacantes que dão um pé atrás como Jorge Henrique e Dentinho, armados pelo irregular (porém decisivo) Douglas. Muitos só criticavam o perdedor de gols Souza, a perda de Herrera, as contas que não fechavam, o patrocinador que chegou tarde, brigas e bregas da direção.
Mas poucos são Corinthians. Poucos são Ronaldo. Duas marcas do futebol. O artilheiro dos artilheiros das Copas. O campeão dos campeões paulistas. Dois que caem, dois que quebram. Dois que rompem tendões e tensões. Dois que são milhões, Dois que foram mais que campeões em 2009. Dois que voltaram para ficar. Porque o lugar deles é aonde ninguém chegou em São Paulo.
FLAMENGO TRICAMPEÃO - De novo, 2 a 2. De novo, superação de lado a lado. De novo, pênaltis. De novo, Bruno, num pênalti decisivo, e bem batido por Victor Simões, desde os 90 minutos. De novo, um valente Botafogo, que quase virou o clássico e virou história. De novo, um ótimo trabalho de Ney Franco com pouco grupo. De novo, coisas que só acontecem com… De velho, na decisão, uma vez Flamengo, 31 vezes Flamengo. Tricampeão. Pentatri. Campeão como Cuca. Mais que merecido, apesar dos problems técnicos, estruturais e de ataque do Flamengo.
A frase é de Cuca: “Tirei uma betoneira das costas”. Melhor imagem não há. Ou houve: no Sportv, o treinador enfim campeão com a família. Parabéns, Cuca. Você merece. Campeão, aliás, tricampeão. E com os salários megaaaaaaatrasados. Parabéns ao time de melhor elenco. Parabéns à direção rubro-negra?
A história se repetiu como festa mesmo com Bruno. Com os pés, defendeu a bomba no meio do gol de Juninho, no segundo pênalti alvinegro. E mereceu defender o último tiro, batido à meia altura, no canto direito, por Leandro Guerreiro - um que não merecia perder a cobrança. Mas que Bruno merecia defender, mais uma vez.
CRUZEIRO BICAMPEÃO - No primeiro clássico, 3 x 0 Palestra Itália. 3 x 0 Cruzeiro, em 1921. Mas o rival do Atlético era o América, que viria a ser decampeão (!) mineiro. No final dos anos 20, o tri celestre de 1928 a 1930 começou a mudar o eixo. Ou a constituir o real triângulo mineiro, no Barro Preto e em Lourdes.
Foram quatro os títulos nos anos 40. Mas, outro mineiro, só em 1959. Com Procópio na zaga, Hilton Oliveira na ponta esquerda. Base do time que seria tri, em 1961. Começo de um que floresceu com o Mineirão, em 1965. Dele para o país que foi do Cruzeiro, em 1966, detonando o Santos de Pelé, na Taça Brasil. Berço do maior time da história cruzeirense. De um dos maiores do país em todos os tempos.
Penta estadual até 1969. Raul; Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Piazza e Dirceu Lopes; Natal, Evaldo, Tostão e Hilton Oliveira. A base desses anos brilhantes, com Aírton Moreira ou Orlando Fantoni no banco, e gente como Zé Carlos, Fontana, Darci Menezes, Vanderlei, Palhinha e Rodrigues recheando uma maravilhosa camisa azul estrelada.
Não por acaso, parecida com aquela que, no domingo passado, passeou no Mineirão de festa por 5 a 0. E que, neste domingo, faturou mais um mineiro com categoria, deixando prostrado, frustado, o maior rival. Histórico rival. Que corre o risco de virar apenas história se não tentar pensar grande, jogar grande, fazer grande como o Cruzeiro.
Sim, em 2007, foi 4 x 0 Atlético. Como já foi 9 x 2, em 1927. Como tantas páginas e partidas gloriosas fez um Galo forte e vingador. Mas tudo parece história empoeirada pelo pó desse cometa que há pelos 20 anos praticamente domina o cenário mineiro, por vezes brasileiro, quando não sul-americano.
Não por acaso, supremacia que se materializou quando se fez a Toca da Raposa – primeira, nos anos 70. Centro de excelência nacional, exemplo para todos os clubes estruturados. Há mais de 30 anos! Se o Atlético tem mais é de se orgulhar pela bela Cidade do Galo, e tem mesmo, o Cruzeiro tem mais uma Toca. Tem outros patrimônios.
Mas sabe que não pode viver apenas da história. Precisa reescrevê-la constantemente. Como fez no MG-09, bisado a goleada de 2008, devolvendo a de 2007 com juros e correção futebolística. Como pode repetir a façanha de reconquistar a América, em 2009. Como fez em 1976 com uam campanha e um time notáveis, quando superou expectativas em 1997. Como pode fazer de outro modo este ano.
E por que repete tanto caneco, por que não se cansa de ganhar? Porque faz direitinho em campo, erra menos fora. E, em Belo Horizonte, tem a imensa ajuda do rival, que por vezes se perde na própria casa. Que vai se apequenando em picuinhas políticas. Que não consegue fazer em campo tudo que sua torcida apaixonada faz por ele fora. E, talvez, fizesse melhor lá dentro se fosse escalada.
O Cruzeiro não tem nada com isso. E tem tudo com essa sanha de raposa astuta que não se assusta. Fatura como clube de futuro que faz do presente uma imensa alegria azul.