Coluna de Futebol do Mauro Beting - Yahoo! Esportes

Yahoo! Esportes - Injúria “qualificada”?
Injúria “qualificada”?
Qui, 25 Jun, 06h16
Por Mauro Beting
Mauro Beting

Narigudo! Baixinho! Banguela! Pirulão! Careca! Peruqueiro! Balofo! Filé de borboleta! Orelhudo! Zoiudo! Quatro olhos! E.T.! Chaminé do avesso! Branquelo! Retardado! Burro! Múmia paralítica! Cego! Surdo!

Mas, mudo, ninguém é. Xinga-se tudo e a todos. No calor da hora, sai tudo que está escondido, como pústula. Se não sair o pedido de desculpa depois da erupção, a irresponsabilidade deve ser punida. Não dá mais para achar que sempre foi assim e assim será. Que é coisa de jogo… Que jogo, cara-pálida que nem fica rubra? É compreensível imaginar um cutucão moral em um rival para desestabilizá-lo durante um jogo. É praxe deplorável, mas um código aceito. Daí a achar que todos devam aceitar o que se fala nas desalinhadas quatro linhas é atalho ao desfiladeiro. Especialmente no momento de intolerância e ignorância que vivemos.

Não pode mais. Quem quer deixar passar tudo em branco (sem o perdão do trocadilho) é quem não vê, não lê e não ouve o mundo à volta. Mazelas precisam ser combatidas na raiz. Passou da hora de passar a mão na cabeça e não frear a língua.

É do jogo se falar bobagem e é uma estratégia usual desestabilizar o adversário? Claro que é, até o cardeal carmelengo sabe disso. Mas era normal escravizar alguém e até o papa achava um negócio natural – mais negócio que natural.

Claro (com trocadilho e sem perdão) que tem gente que ganha com tudo isso. Mas é dando um basta e um pontapé no primeiro réu que os próximos vão ter de pensar antes de ver um futuro negro. (E agora? Que termo eu uso?)

A questão vai muito além de Máxi López x Elicarlos, de Grêmio x Cruzeiro, de Argentina x Brasil. Até porque não é por aí. E será menos ainda ali no Olímpico. Foi deplorável, foi lamentável – ou deve ter sido, porque não estava lá, e apenas imagino que foi tudo isso, pela reação de Wágner ao ouvir o que deve realmente ter dito Máxi López a Elicarlos. Deve ter sido realmente quase tudo isso – se de fato foi, e ainda podendo imaginar o que possa ter feito o cruzeirense previamente (se fez algo, também...). Como também é detestável dizer que isso é coisa de “argentino”. É coisa do ser humano, hermano. Ou das coisas que nos tornamos muitas vezes quando falamos sem pensar. Ou, ainda pior, falamos o que realmente pensamos.

Não é Brasil x Argentina, não é branco x negro. Paradoxalmente, é questão sem pátria, nem cor. Argentinos não podem se sentir ultrajados. Nem os brasileiros podem discriminar os hermanos. Wellington Paulo, brasileiríssimo zagueiro do América Mineiro, um mês antes do episódio Desábato-Grafite, em 2005, chamou o zagueiro atleticano André Luís de “macaco”. Punido por 30 dias pelo TJD estadual, não ganhou um zilionésimo do espaço (devidamente) dado à história corajosa que escreveu Grafite no Morumbi, naquela Libertadores.

O termo técnico para o que Máxi deve ter falado é “injúria qualificada”. Uma das ações mais desqualificadas que alguém pode cometer. Até a Justiça é paradoxal na questão.

O que não pode é levar apenas ao campinho de jogo a questão. O que não vale é espetacularizar o que aconteceu, como nós, da mídia colorida (sem alusão) tanto gostamos. Não faria mal algum ao planeta tentar enxergar o mundo com suas várias cores, com suas nuances e matizes. Sobretudo, com seus vários tons de cinza.

Nem tudo é escuro, nem tudo é claro. Sobretudo em uma vida tão turva, com cada vez menor utilização de massa. Cinzenta.

LIBERTADORES – Ah, o jogo... O Grêmio jogou muito mais do que vinha jogando. O Cruzeiro, muito menos. Tanto que foram seis oportunidades agudas mineiras, e sete gaúchas. Ainda assim, o placar final foi um 3 a 1 incontestável. A classificação poderia estar praticamente definida pelo mandante. No mínimo muito bem encaminhada. Mas é Grêmio. É Olímpico. Dever respeitar. Porém, do outro lado, tem uma equipe com a mesma história, com o mesmo peso atômico e esportivo. E, hoje, com mais time.

Adilson mais uma vez surpreendeu no 4-3-1-2: Marquinhos Paraná veio para a lateral esquerda, com Jonathan do outro lado; Leo Silva e Thiago Heleno fizeram a zaga, com a sobra mais à frente de Fabinho, na cabeça da área; Henrique marcou Souza pela direita, com Elicarlos seguindo Tcheco; Wagner ganhou muitas de Túlio, e Adilson não desarmou e nem criou; no ataque, Wellington Paulista e Kléber.

Autuori manteve o 4-2-2-2. Thiego até se virou como lateral improvisado pela direita. Na marcação, na pior das hipóteses, foi melhor que Ruy. Léo e Rever que não foram os de costume, também no jogo aéreo; Túlio e Adilson não foram bem, e Tcheco e Souza foram notados mais na bola parada; ainda assim foram melhores que Alex Mineiro (que fase…). Máxi López brigou como sempre. Mas perdeu um gol que não se perde.

Na matemática, é mais difícil a tarefa colorada que a gremista: um 2 a 0 leva aos pênaltis no Beira-Rio; um 2 a 0 classica o Tricolor no Olímpico. Porém, na bola, o Cruzeiro me parece mais pronto para passar que o Grêmio. A tarefa do Inter é “menos complicada” que a do Grêmio. Mas, ambas, claro, são difíceis. Muito difíceis.

COPA DO BRASIL – A cada minuto, aumentam as chances corintianas, diminuem as coloradas. O que não tira a etiquete de “indefinido” do jogaço histórico no Beira-Rio.

BRASIIIIIIIL! - Grande partida contra a pequena Itália classificou o Brasil para a final mais que antecipada contra a Espanha. Só faltou avisarem a Fúria, que perdeu a primeira desde 2007, evaporou a invencibilidade histórica de 35 jogos, interrompeu a não menos impressionante sequência de 15 vitórias, e, agora, vai ter de bater palmas e bumbo para o Brasil.

Como, deste espaço, faça o mesmo para Joel Santana. Pela “rait”, pela “lefti”, pelo “midium”, o Brasil foi travado pelo 4-3-2-1 muito bem armado por Joel Santana. Ele mostra que sabe falar a língua que importa no futebol mundial. Extraiu bola de pedra num futebol incipiente. Conseguiu fazer com que uma equipe limitadíssima truncasse um Brasil pouco inspirado. E ainda tivesse ao menos três boas chances de fazer gol. Pelo menos uma defendida apenas por um goleiro do nível de Júlio César.

Se Joel mandou muito bem, Dunga está cada vez melhor. E com cada vez mais estrela. Botou Daniel Alves na lateral esquerda aos 36 de um jogo complicado, e, seis minutos depois, numa falta sofrida por Ramires, Daniel soltou a bota no ângulo do bom Khune. Golaço e mais uma decisão de Copa das Confederações para o Brasil. A mais fácil de todas. Dentro do que existe de “fácil e previsível” no futebol.

Mais uma vez, o Brasil foi montado num 4-2-3-1, o melhor jeito de não afundar Gilberto Silva entre os zagueiros, e dar a Felipe Melo uma participação mais eficiente à frente da zaga. Desse modo, Ramires pode sair mais à direita, Robinho recua um tanto do outro lado, e Kaká segue sendo o articular para, por dentro, encostar em Luís Fabiano. O problema é que, bem cercados por Pienaar e Tshbalala, os laterais brasileiros avançaram pouco. Com a pouca movimentação de Robinho (e a partida ruim tecnicamente), sobraram apenas Kaká e Ramires para a criação. Luís Fabiano também não foi o de sempre. E o Brasil criou o menor número de chances em toda a competição.

Era jogo que fedia prorrogação até o belo gol de Daniel Alves. Mais uma aposta felicíssima de um Dunga que se mostra seguro como o time, ousado como costuma(va) ser o futebol brasileiro, inventivo como ainda é o talento nacional. E, para domingo, favorito como sempre é a Seleção Brasileira.


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