Porto Alegre, 18h16min de 2 de dezembro de 2007. O chão abriu: uma torcida de primeira sofreu com um clube fora-de-série caído feio para a B. Merecidamente por tudo que plantou, ou pior, adubou dentro e fora de campo, fora dos autos, fora da lei; 23h58min de 1º. de julho de 2009, 2,8 km ao Sul daquele túmulo tricolor, um tri legal na casa colorada que havia, em dezembro de 1976, negado o primeiro título corintiano desde 1954. Aquele mesmo Inter que tomara o gol do Goiás que derrubara em 2007. Aquele Inter de 2005. Aquele Inter...
Este Corinthians. Tricampeão da Copa do Brasil. Três vezes campeão estadual e da Copa na mesma temporada. Melhor; duas vezes paulista (em 1995 e 2009), uma vez do Rio-São Paulo que substiuiu o Paulistão de 2002. Era um supercampenato regional. Era um senhor campeão. Como este Corinthians foi enorme. Foi corintiano. Foi heróico.
Timão que foi ao Beira-Rio como se estivesse na beira do Rio que tanto conhece desde 1910. Como poucos clubes do Brasil conhecem essa rotina que cola na retina de dar a volta olímpica. E por cima. De modo absolutamente brilhante. Na história dos grandes que caíram, nenhum retornou não retumbante quanto o tricampeão da Copa do Brasil. Em menos de 20 meses faturou um estadual invicto derrotando duas vezes o tri brasileiro, e uma vez o Santos, na Vila; ganhou a Copa do Brasil depois de eliminar gigantes como Fluminense e Vasco, e deixando pelo caminho um dos vices mais campeões da história como o Internacional.
Colorado exemplar mesmo com os exemplares distribuídos de um DVD que não foi nada além de um choro antecipado, cantado e depois confirmado. Sim: os clubes de São Paulo e Rio têm menos erros de arbitragem contra, têm mais ibope, mais muitas coisas menos louváveis que gaúchos e mineiros. Mas nem por isso um digno campeão de tudo pode se perder por nada.
Se o árbitro deveria marcar falta de Jorge Henrique no início do lance do primeiro gol, o Inter deveria fazer muitas coisas que não fez na decisão. Título vencido pelos tantos erros infantis vermelhos (a começar e acabar por D’Alessandro, que de colorado foi maduro como um chapolín), e os tantos acertos alvinegros numa casa que fez linda festa, aplaudiu o Inter mais até do que ele merecia.
Só não pôde superar um Corinthians que foi gigante por ser grande. Por voltar a pensar enorme. Por se impor como tal. Sem fugir à luta como aquele time que entrou “rebaixado” no Olímpico, em 2007, quando foi a campo atrasado e depois de todos os rivais esperando por algo que dependia só dele. E acabou saindo atrás de muitos deles na tabela, e por tabela.
O Corinthians venceu um adversário que parecia favorito – como também era, na mesma Porto Alegre, em 1995, o Grêmio de Felipão. Era. Não foi. Porque aqui é Corinthians. Lá foi Corinthians. Lá foram corintianíssimos exemplos de superação. Ronaldo, joelhos torcidos e recuperados no Parque São Jorge. Marcelo Oliveira, joelho torcido e trazido ao campo e ao título no primeiro jogo, no Pacaembu. Dois que muitos aposentavam pelas contusões. Dois entre tantos que apostaram, não desistiram. Insistiram como o lateral improvisado no lance do primeiro gol da decisão em São Paulo, que Jorge Henrique marcou; persistiram como o Fenômeno que fez o segundo golaço da primeira vitória.
Ronaldo foi o nome do Paulistão, que estreou com gol contra o Palmeiras. Aquele “gol” que Douglas não dera a ele em Itumbiara. Pudera: estava preparado para o rival levar. Gols no fim como os dois no Paraná, na derrota menos sofrida para o Atlético que virou vitória em São Paulo. Gols fora de casa que eliminaram Fluminense e Vasco em jogos difíceis. Superados por um time que desbravou com categoria a Segundona, e ganhou de primeira tudo que disputou em 2009. Por manter os pés no chão, os corpos nos lugares bem treinados por Mano Menezes, e a cabeça pronta para ganhar jogos com o coração alvinegro. Imenso e aberto para tantas redenções.
Como a do “vilão” da final perdida na Ilha para o Sport, em 2008. O herói sem aspas e reticências Felipe que tudo e mais um pouco segurou em 2009. Ele atrás, Ronaldo na frente, Alessandro, Chicão, William, André Santos, Cristian, Elias, Douglas, Jorge Henrique e Dentinho no meio, a escalação de um grande campeão. Que merecia das a volta olímpica em Porto Alegre. Para mostrar a volta por cima e completa que deu na vida em menos de dois anos.
Isso é Corinthians. Isso é centenário. Essa pode ser a data para libertar a América. E o grito contido. Quem pode duvidar? Vai, Corinthians.
LIBERTADORES-09 - Não foi a melhor partida cruzeirense – como já não havia sido no Mineirão; foi mais uma partida de superação gremista – como acontecera em Minas. E tudo se repetiu: quem levou foi o time mineiro com o empate por 2 a 2. Incontestável classificação. Discutível futebol. Bastaram 1min52 de gols mineiros para o Cruzeiro decidir a Libertadores com ligeiro favoritismo contra um cada vez melhor Estudiantes. Mas não melhor que o Cruzeiro.
Notáveis os gritos gremistas pelos 90 minutos. Eram não sei quantas vuvuzellas nas gargantas por todo o jogo – sem exagero. Mais ou menos como Adilson Baptista na casamata cruzeirense. O treinador berrou e orientou até quando o Grêmio precisava de cinco gols no segundo tempo. Ele é uma das causas de um time que só ganha no grito do treinador. Não dentro de campo.
O Grêmio empilhou chances. Não houve time nesta Libertadores que tenha perdido tantas. Fábio fez a sua cota usual de excepcionais defesas e garantiu a meta melhor que sua zaga. Com três minutos, falta besta de Tcheco originou o primeiro amarelo. E a primeira das oito faltas sobre Kléber (Fábio Santos sofreria o mesmo absurdo e abusivo número). Atacante que jogou demais (um lance aos 42 foi uma pintura técnica), e também bateu – na primeira falta dura, depois de sofrer 4, em 15 minutos, foi amarelado (e poderia ter sido avermelhado aos 21).
Além de gols perdidos, o Grêmio teve lances mal interpretados pelo apito. Uma jogada que parou por impedimento inexistente poderia dar em gol; Leonardo Silva agarrou Herrera aos 28 e não foi marcado o pênalti.
Fábio Santos também não marcou Kléber, que foi ao fundo e na técnica e na raça, de carrinho, deu o primeiro gol a Wellington Paulista, aos 34min15s. Na primeira real chegada, um Cruzeiro acuado e que não sabia contra-atacar abriu o placar. Antes que se pudesse fazer as contas de quanto precisaria fazer o Grêmio para se classificar, Wellington recebeu de Jonathan e fez de cabeça, aos 36min07s. Em 1min52s, o mundo e a América ruíram para o Grêmio.
Souza saiu esbofeteando rival sem o árbitro ver, o Grêmio entrou em parafuso no gramado. No Olímpico, o cantochão arrancava o time do chão. Palavras de Tcheco, ao Sportv: “vamos jogar o segundo tempo pela torcida que não parou de cantar”. E assim foi até 9min30s, gol de Rever, de cabeça, depois de escanteio de Tcheco. A acomodação natural estava ainda mais usual para o Cruzeiro. Não era nem sombra do time que iluminara o Morumbi com sabedoria nos 2 a 0. O Cruzeiro não estava marcando bem e não saía para o jogo.
Quando tentou algo, Adilson foi merecidamente expulso, ao pegar feio Wágner (em seu raro bom lance), aos 14. No minuto seguinte Ramires perdeu chance de ampliar. E o Cruzeiro de se impor, mesmo com um a mais, e ainda três gols de lambuja. Souza fez um golaço de folha-seca, premiando o melhor gremista na Libertadores. Bomba indefensável, como também era o recuo improdutivo mineiro. Pedindo para levar a virada de um rival inferiorizado em campo – até quando eram 11 x 11. Mas com tantas mil vozes jogando melhor que o time – sem contar as outras tantas que não conseguiram entrar no estádio, em algo a ser devidamente apurado.
O Grêmio até foi mais Grêmio que o esperado. Mas o Cruzeiro vive dias inspirados e iluminados. Até quando não brilha.