Kléber perdeu um gol imperdível aos 34 do segundo tempo. Mas imperdível é o time que tem um goleiro como Fábio em noite de Fábio com cinco antológicas defesas. Deu a lógica em La Plata. Vai dar Cruzeiro pela terceira vez na Libertadores.
Não foi brilhante como no Morumbi. Foi muito melhor que no Olímpico. Foi cirúrgico o Cruzeiro na Argentina. Aguentou as pressões iniciais em cada tempo, teve Fábio brilhando atrás, e teve a bola, gás, técnica e inteligência para ganhar o jogo no fim. Não deu. Mas é o começo da festa. Para a torcida. Porque o time é sério. Não vai se perder no favoritismo.
Adilson veio com Henrique e Marquinhos Paraná, com o pezinho mais atrás de Ramires. Os volantes do Figueirense-06 de Adilson fizeram bem o serviço, facilitado por Verón não estar no melhor da forma. E, ainda assim, sempre perigoso.
Melhor foi Pérez aberto à direita, no primeiro tempo. Gerson Magrão só melhorou, com a ajuda dos volantes, na segunda etapa. Por ali poderia ter sofrido gols se não fosse Fábio.
Aos 11, Verón não fez porque Fábio fez; aos 18, Pérez não abriu o placar porque Fábio fechou a meta, mandando a escanteio; aos 44, Verón pegou sem-pulo tão espetacular quanto a defesa de Fábio; com menos de 6 minutos, Boselli pintou na cara de Fábio e só não fez porque, no Brasil, só ele e Marcos fecham tão bem o ângulo; na sequencia, no escanteio, Desábato cabeceou para marcar, mas marcante foi mais uma grande defesa de Fábio. E merece o nome Fábio ser repetido a cada defesa. Porque são defesas que já estão colocando literalmente uma mãozona na taça.
Tem algum goleiro melhor que Fábio atuando no Brasil? E não de hoje. Entre os três ele tem de estar na seleção de Dunga.
A Convenção de Genebra saiu satisfeita com o desempenho no duelo Schiavi x Kléber. Entre mortos e feridos, salvou-se a bola.
O Cruzeiro foi crescendo com o passar do tempo em cada etapa. Antes, exagerou na bola longa. E contou com um Estudiantes pouco inspirado. Também pela boa marcação celeste desde o meio-campo. O jogo todo, o Cruzeiro não sofreu o que se poderia esperar. O preparo físico mais uma vez fez diferença.
Teve um lance discutível de Desábato com Wellington Paulista, aos 6 do segundo tempo. Eu não marcaria o pênalti.
Também não daria amarelo para Ramires no contraste com Verón, aos 10min do segundo tempo. O lance em que o craque pincharrata saiu sangrando.
O gol que Kléber perdeu, na marca do pênalti, Andújar caído, a bola no pé bom, foi inacreditável. Mas não será tão chorado se tudo der certo. Se der a lógica que vai dar.
Vai continuar sendo difícil. Mas vai continuar sendo Cruzeiro.
MEA CULPA - Antes de tudo, aos não poucos cruzeirenses que se manifestaram contrários ao meu último texto um pouco frio demais aos méritos celestes na indiscutível classificação (como estava escrito) para a decisão sul-americana: vocês estão certos. Como eu também não estava errado ao entender que o time de Adilson se classificaria diante do São Paulo e do Grêmio – confesso que com maior dificuldade do que o ocorrido.
Apenas reitero por aqui meu pedido de desculpas pelo tom. E reafirmo o que tenho dito nos meus cantinhos na TV, rádio, internet e revista: o Cruzeiro sempre foi meu favorito. Palavras de um brasileiro paulista palestrino jornalista – a ordem dos fatores não altera o produto.
(E, sim, ajuda a entender o tom ácido das críticas a este que vos tecla. A imprensa do “eixo” erra demais com os clubes de Minas e Rio Grande do Sul - para não dizer dos demais Estados que nem dizemos… Não damos a devida bola - a não ser quando os times paulistas e cariocas as levam nas costas… Estamos pagando pelos erros de tantos anos de descaso, desprezo, desconhecimento. O que também não pode levar a generalizações. E muito menos a reações tão bairristas e clubistas quanto as que levaram a esse estado de espírito).
As desculpas a todos, dos mais virulentos e violentos aos mais cordatos e equilibrados. Não é babação-de-ovo e nem puxação-de-saco - no Jornalismo, quem faz média está muito abaixo dela. É apenas um esclarecimento, para não dizer um arrependimento de quem escreveu um texto simplório demais.
E os agradecimentos a quem entender. E a quem quiser achar que eu sou mesmo é um paulista atleticano preconceituoso, bairrista, clubista, invejoso, peruquento, seboso, idiota, presunçoso, branquelo, analfabeto…
AMARCORD - Era um tempo em que, em São Paulo, no domingo, só passava um jogo ao vivo pela televisão – da várzea, de manhã…
Feliz o teletorcedor que vê quase tudo que quer por estes dias – quando paga pela TV. E quando não tem de pagar para ver depois de já ter pago para assinar…
Quando não vê a TV a gato.
Quando não vê a TV pelo computador – ou quando vê de tudo na tela cibernética pagando um pouco para alguém que a gente não sabe quem é. Mas sabe que vai entregar um serviço que trava, que some, que não é bom. Mas, enfim, é o preço que se paga.
Mas você cruzeirense que não poderá ver pela televisão aberta a disputa da Libertadores, você torcedor que não poderá acompanhar uma senhora decisão, saiba que já foi possível ver pela TV (não havia distinção entre as fechadas e as escancaradas) uma partida espetacular no Chile.
O jogo-desempate entre Cruzeiro e River Plate, na decisão de 1976.
No Mineirão, um show celeste: 4 a 1. Era um senhor time, com Raul, Nelinho, Piazza, Zé Carlos, Jairzinho, Palhinha e Joãozinho. Dois de Palhinha, um de Nelinho, um de Valdo. Na volta, em Núñez, 2 a 1 para o River Plate de Beto Alonso, Passarella, Perfumo (ex-raposa) e Luque.
A negra foi em Santiago. Nelinho, de pênalti, 1 a 0. O predestinado Ronaldo fez 2 a 0. Más diminuiu de pênalti.
Numa falta pela meia direita, a muvuca usual, o craque Beto Alonso, às costas do árbitro, bateu rápido a infração, à frente da barreira que se formava. O árbitro deixou seguir e Urquiza empatou o jogo, livre à esquerda. Mais muvuca num gol - para mim - irregular. Se formou barreira, não poderia o árbitro deixar fazer o que foi feito.
Até que Palhinha foi derrubado, aos 42 minutos. Falta ideal para Nelinho (até tiro de meta era ideal para o excepcional chutador como ele). Barreira feita, Nelinho recuou para cobrar, quando Joãozinho veio rápido e bateu de direita, por sobre a barreira argentina. 3 a 2.
A mesma bronca agora mudou de lado. Teve briga, teve papo, teve tudo. Inclusive um gol clonado. O da vitória. O do título celeste.
Não apenas pela Libertadores que o Brasil não conquistava desde 1963, com Pelé e companhia ilimitada. Mas pelo modo como o River havia conquistado o empate, nada mais espetacular que o gol de João. Até porque o tiro de Nelinho tinha imensas chances de entrar. Mas não seria tão maravilhoso como devolver o empate na mesma moeda.
Gol que celebrei com a família torcendo como nunca por aquele ótimo Cruzeiro que aprendera a admira por toda a Libertadores que passou para São Paulo, em 1976, pela TV.
Tinha nove anos. Parece que foi há nove meses. Antes fosse.
ENQUANTO ISSO, NUMA EMISSORA DE RÁDIO PAULISTA... -
- Atenção para o giro de placar na sua, na minha, na nossa, na rádio do Dr. Hermes – aquele abraço, patrão! Aqui, campo B-3 do Parque São Jorge: pentagonal da segunda fase da seletiva do returno, categoria infanto: Corinthians-A zero, Corinthians-D zeroooo!
- Morumbi, Neto Filho! Final da Copa do Brasil! São 43 minutos do segundo tempo. São Paulo e Flamengo empatam por 5 a 5 e é pênalti pro Mengão; O Imperador bateeee!
- Palestra Itália, final da Copa Sul-Americana. Decisão por pênaltis: Palmeiras 13 x Boca Juniors 13. Marcos está com o braço quebrado e sangra muito na testa. Vai cobrar Palermooooo!
- Antes do Sobrinho Neto, no plantão da Rádio Difusora Imparcial! Aqui no Parque São Jorge, Átila bate o arremesso lateral. O Átila que é tataraneto por parte de tia do grande dr. Abud, diretor-adjunto honorário da sala de carteado do Corinthians, e diretor-presidente do Guaraná Renato, “o néctar dos campeões”. Ele cobra com perfeição o lateral! Sabe tuuuudo o Átila, o número “huno” da Fiel!!!
- Olha o gol!!! (Narradores no Morumbi e Palestra chamam o comandante Neto Filho):
- Já falei para esperar um pouco, Sobrinho Neto... Esse Átil...
(Como Sobrinho Neto está bravo com Neto Filho – ele não repassou a cota do merchan da “Ogivas Nucleares Chernobomb”, e não pagou o testemunhal que Sobrinho gravou imitando a voz de Lima Duarte dizendo “Pensou Ogiva Nuclear? Pensou Chernobomb! É bum! Xibumbombom!” -, o plantonista não quis nem saber):
- Gooooool do Cruzeiro! Kléber Gladiador! De bicicleta, depois de um lançamento de Fábio, logo depois de o goleiro defender a quarta cobrança de pênalti seguida de Verón! Agora, Cruzeiro 3 x 2 Estudiantes, mesmo atuando com sete jogadores! São 86 minutos do segundo tempo em La Plata!
(Viriato Cândido, o “comentarista do verbo divino”, pergunta a Neto Filho):
- Mas o Cruzeiro está jogando hoje? Que torneio é esse? É a Copa Roca?
- Não, doutor Viriato: é a Libertadores. Primeiro jogo da final. Mas não importa! Aqui no campo B-3 é tiro de meta e....
- Mas por que não está passando na televisão? Por que estamos fazendo este jogo do campeonato interno, Neto Filho? (Viriato pergunta ao narrador e chefe de equipe, que responde apenas mostrando o último boletim do Ibope da rádio):
- Difusora Imparcial! A rádio que está onde o povo está, meu caro Viriato! Um abraço a toda diretoria do clube e a todas as torcidas organizadas alvinegras! A torcida que mais cresce no Brasil! Assim como a nossa audiência!!!