NOVA YORK – O valor astronômico da transferência para o Real Madrid e os 80 mil torcedores presentes à apresentação oficial não deixam dúvidas de que o português Cristiano Ronaldo, além de ainda manter o título de melhor jogador do mundo segundo a Fifa, é o maior astro do futebol no momento – mas apenas do lado de lá do Atlântico.
Do lado de cá, o cetro é de David Beckham, que recebe tratamento de celebridade do “show business” nos EUA. Mais importante do que ele faz ou deixa de fazer nos gramados é o que ele diz e faz fora dos gramados, e também o que dizem sobre ele.
Em campo, espera-se que Beckham dê novamente o ar de sua graça na próxima quinta-feira, às 20h no horário local, quando o Los Angeles Galaxy visita o New York Red Bulls. Se for escalado, ele disputará sua primeira partida desde os cinco meses de licença que tirou da Major League Soccer (MLS), a liga profissional norte-americana, para jogar sob empréstimo no Milan.
Como nem o próprio Beckham escondeu, ele preferia continuar em Milão. Qualquer jogador profissional preferiria, se a opção fosse um time da MLS. O problema é que a disposição de ficar na Itália criou por aqui uma saia justa que arranhou sua imagem de bom-moço.
Coube a Donovan, colega (por assim dizer) de Beckham no Galaxy e craque da seleção norte-americana, colocar o guizo no pescoço do gato. Em declarações a um livro, “The Beckham Experiment”, de Grant Wahl, ele disse que falta ao jogador inglês comprometimento com seus companheiros, com o clube e com a própria liga.
Beckham respondeu pela imprensa, e os dois teriam conversado a respeito nos treinos. É provável que a história prossiga porque envolve um medo de deserção.
A MLS ofereceu os tubos ao jogador por acreditar que ele pudesse impulsionar o futebol no país a uma nova etapa de desenvolvimento (leia-se negócio), e ninguém ligado ao esporte gostaria de passar agora o recibo de que a missão é inglória, talvez impossível de ser cumprida por um homem só.
O mais curioso nessa história é imaginar o que mudou na cabeça de Beckham desde que veio para os EUA. A estrutura aqui é ainda pior do que imaginava? Los Angeles fica devendo a Madri, Londres e Milão?
O gostinho de jogar a próxima Copa falou mais alto? O italiano Fabio Capello, treinador da seleção inglesa, teria dito algo na linha do “se jogar nos EUA, não garanto a convocação”?
Ao sair do Real Madrid, Beckham talvez pensasse que já era tempo de iniciar o programa de aposentadoria, mas o período em Milão pode ter feito com que acreditasse armazenar ainda um bocado de lenha a queimar, e não seria lenha para a MLS.