Coluna de Futebol do Censo Unzelte - Yahoo! Esportes

Yahoo! Esportes - Histórias de dentro do campo (parte 1: goleiros)
Histórias de dentro do campo (parte 1: goleiros)
Qui, 17 Set, 11h56
Por Celso Unzelte
Celso Unzelte

A partir desta semana, dedicarei o espaço da coluna a histórias que acontecem dentro do campo, envolvendo jogadores posição por posição, de um a onze. E começo, claro, “pelo começo”, com algumas histórias envolvendo o goleiro, esse eterno incompreendido. ********************************************************************************

A primeira é “das antigas”, e envolve o lendário Jaguaré Bezerra de Vasconcelos. Entre os anos 20 e 30, Jaguaré virou lenda, principalmente no Vasco, tanto pelas grandes defesas que fazia quanto pelo estilo irreverente. Chamado de “Dengoso”, gostava de defender a bola com uma mão só, rodá-la na ponta do dedo (como fazem os jogadores de basquete) e jogá-la de volta na cabeça dos atacantes, só para praticar uma nova defesa. Jaguaré foi também o primeiro goleiro brasileiro a usar um par de luvas vermelhas, de borracha, que trouxe da França quando defendeu o Olympique de Marselha.

Certa vez, jogavam as seleções paulista e carioca, e Jaguaré defendia o gol do time do Rio, quando houve um pênalti a favor de São Paulo. Quem ia cobrar era o zagueiro corintiano Pedro Grané, apelidado de “Canhão 420”, o maior calibre da época, por causa da potência de seu chute.

“Olha aqui, seu mastodonte, eu vou tirar o seu chutinho com um soco”, teria desafiado Jaguaré. Grané não disse nada. Ajeitou a bola, deu dois passos para a frente. Jaguaré levantou o braço com o punho cerrado. A bola saiu como um foguete, na direção do braço erguido do goleiro.

Quando acordou, Jaguaré estava dentro do gol, com o punho fraturado. Saiu do campo direto para o hospital, onde, ao ser visitado pelos jogadores dos dois times, desabafou: “Como é que deixam um homem desses jogar futebol, meu Deus do céu???”

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Essa segunda história me foi contada pelo maior “fornecedor” dessa coluna, Valdir Appel, ex-goleiro principalmente do Vasco mas também de vários outros clubes de Norte a Sul desse país na década de 70. Autor do livro Na Boca do Gol (S&T Editores, 2006), ele agora se prepara para nos brindar com novas histórias em seu próximo livro, O Goleiro Acorrentado (maiores detalhes sobre o lançamento serão dados nesta coluna).

E foi em uma de suas andanças pelo Brasil, quando jogava pelo Goiânia, que Valdir conheceu um outro goleiro, chamado Nascimento. Nos treinos, Valdir costumava gritar para os companheiros: “Passa pra receber, passa pra receber”. Nascimento, no gol do outro lado, respondia: “Não adianta, Valdir... Não adianta”. “Mas por que não adianta, Nascimento?”, quis saber o Valdir. “Aqui não adianta passar pra receber”, retrucou Nascimento. “Porque aqui ninguém paga...” ********************************************************************************

Durante parte do tempo em que foi ídolo do Botafogo, de 1943 a 1952, o goleiro Oswaldo Baliza teve como reserva Ermelino Matarazzo, ninguém menos que o filho do conde Francisco Matarazzo, o industrial paulista que virou sinônimo de milionário na primeira metade do século XX.

Nos treinos, conta-se quer o jovem Matarazzo, impressionado com as defesas do mestre, não se cansava de dizer: “O meu maior sonho era ser você, Baliza!” E Oswaldo Baliza, irônico, também não se cansava de responder: “E o meu era ser filho do seu pai, Ermelino...”


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