O Bangu era o Rio na final do BR-85. Todas as bandeiras cariocas se uniram pelo clube do subúrbio. O rival no Maracanã só defendia as próprias cores. Era zebra. Era a sina do Coritiba. É o fardo dos clubes de Curitiba. Precisam não só vencer os rivais. Também a desconfiança geral.
São tantas barreiras que até o gol do título teve de superar duas delas; a primeira criada pelo competitivo time de Ênio Andrade: dois coxas ficaram à frente da barragem do Bangu. Quando o centroavante do Coritiba correu para fazer história, cada um foi para um lado, a bola foi no ângulo do goleiro Gilmar. Golaço do time dos alemães Hauer. Labsch. Dietrich. Iwersen. Juchks. Obladen. Kastrup. Maschke. Schlemker. Essenfelder. Sobrenomes alemães do primeiro quadro do Coritiba, há 100 anos. Campeão brasileiro nos pênaltis naquela última noite de julho de 1985. Título que começou a ser ganho naquele gol de Índio - nada mais brasileiro.
Rafael. André. Gomes. Heraldo. Dida. Almir. Marildo. Tobi. Lela. Índio. Édson. Onze nomes curtos. Onze gigantes grafados no Alto da Glória. Tem toda uma história do primeiro jogo em Ponta Grossa em 1909 à partida da vida coxa-branca em 1985. Toda uma torcida que sabe como foi duro ganhar jogos, campeonatos, respeito e admiração. Como é complicado ganhar manchetes no Sudeste. Como é botar um jogador na seleção em três Copas como um 11 que corria pelos 11 – Dirceu. Como é não ter visto um camisa 10 como Alex jogar um Mundial pelo Brasil. Como foi difícil uma bandeira paranaense defender a verde e amarela do jeito que o Coritiba se superou no ano da redemocratização brasileira, em 1985.
Aquele tiro longo de Índio pareceu levar um século para entrar. Vieram dores, desamores, derrubadas em 24 anos. Rebaixamentos no tapetão, puxadas de tapete do Clube dos 13, quedas no campo. Acessos no gramado, acessos de raiva por desatinos e destinos mal traçados e bolados. Barreiras que podem ser superadas com fé. Com coração. Nas coxas bravas e brancas.
De um clube que supera preconceitos. O time dos alemães que foi
o maior do Brasil com um gol de Índio numa falta sofrida pelo negro Tobi. Parece mentira. Como era “Mentira” o apelido do craque de 1985, o ponta Lela. Tinha perna curta. Coxa grossa. E era coxa firme. Como foram de corpo e alma Fedato, Duílio, Kruger, Bequinha, Miltinho, Zé Roberto, Alex, Ivo Rocha, Aladim, Tostão, Hidalgo, Leocádio, Tonico, Neno, Nilo, Jairo, Pizzatto, Pizzattinho, Rei. Nomes e apelidos estrangeiros e brasileiros. Rima que foi solução. Que virou seleção. Que virou campeão. Com garra, força e tradição.
SELEÇÃO - Quando o Brasil perdeu para o Paraguai por 2 a 0 em Assunção, entre tantas cornetadas e vuvuzelices, mandei: “O que não pode é o Brasil se fechar em Copas como no Paraguai, e ainda perder horroroso. Desse modo, perderemos a Copa. Ou corremos algum risco. A Argentina está melhor e vai [para o Mundial]. O Paraguai é competitivo. Sorte nossa que são quatro vagas, e mais um chorinho pela repescagem da quinta. Eles melhoraram. Nós pioramos. Mas ainda tem todo um turno e mais um pouquinho”.
Não preciso dizer que Dunga virou o jogo. Mérito dele como selecionador e treinador. E das apostas como Luís Fabiano e Felipe Melo. Evolução deles e dele, também. Naquela pavorosa atuação em Assunção, em junho de 2008, o meio-campo nacional era formado por Gilberto Silva, Mineiro e Josué, e apenas Diego na ponta do losango para pensar o jogo. O que foi o Brasil em Assunção? Dois tiros longos de Anderson, e mais nada. Não estivemos na área do Paraguai, não estivemos no campo do Brasil. Pior: não estávamos nem aí.
Nota e placar – zero no Paraguai.
Mas ainda haveria coisas piores. Brasil 0 x 0 Argentina, no Mineirão, logo depois. O pior clássico que vi desde 1974. Aquele em que a torcida gritou “Adeus, Dunga”, entre outras coisas nada publicáveis. Ao final do jogo mequetrefe, falei e escrevi: “Ainda acho que Dunga merece continuar como treinador. Ao menos até Pequim-08. Reitero que não o teria colocado no cargo. E entendo que ele está se saindo melhor que a encomenda, mesmo com o futebol apresentado em 2008, mesmo com as birras burras com craques e alguns bagres. Mas é só trocar o treinador que tudo melhora? É só uma questão de técnico ou passa pela questão técnica de uma Seleção carente de Kaká, do Ronaldinho (modelo 2005-06)? Dunga não é o treinador ideal. Mas o ideal seria a saída dele?”
O jogo em BH foi deprimente. “Não apenas gols não foram vistos. Alguém recorda de algum drible, de alguma jogada do nível das seleções e mesmo dos jogadores que lá estiveram? E, desta vez, mais que o W.O. paraguaio, o time lá esteve. Tentou jogar. E não conseguiu. O que é ainda pior”.
Mas pior do que nada jogar contra um grande rival que também jogou pequeno, só ter goleado o bom Chile em Santiago e ter feito o que não fez no Engenhão, contra a Bolívia, logo a seguir, num empate sem gols e sem futebol. Meu lamento, então: “A seleção só pega no tranco. Não tem jeito. Não pode se achar como se encontrou na bela vitória em Santiago. Quando ela se acha, se perde. Talvez fosse o caso de pedir pro presidente cornetar o time antes do jogo. Vai que o time jogasse com a gana e a garra do jogo no Chile...”
Mas, não. Eles se superam: Brasil 0 x 0 Argentina do Mineirão havia sido o pior clássico entre eles que vi desde 1974. O time foi além no Engenhão: o empate sem gols, sem gosto, sem futebol com os bolivianos foi o jogo oficial mais medíocre que vi do Brasil.
Nem vaiar a pequena torcida no Engenhão conseguiu. O primeiro ponto conquistado pela Bolívia como visitante desde as Eliminatórias-01 coincidiu com a pior apresentação do Brasil que vi em uma partida oficial. Contra Honduras, na Copa América-01, o time de Felipão foi eliminado com a derrota doída e ridícula por 2 a 0. Mas ao menos o time lutou e criou cinco oportunidades de gol.
Contra a pavorosa Bolívia, só tivemos um lance de gol aos 46 minutos, numa cabeçada com a orelha de Júlio Baptista. Os jogadores reclamaram da retranca boliviana... Como se alguém esperasse que os hermanos de Evo nos atacassem como se fossem George W. Bush com azia brincando de GTA...
“E o pior é que mais batemos que apanhamos.
E o pior é que jogamos pior que os bolivianos.
E o pior de tudo é que a responsabilidade não é só de Dunga.
Quando se veste uma camisa amarelinha, quem não amarela assume a bronca. Pede a bola. Busca espaço. Arma o jogo. Arrisca um chute.
Quem fez isso? Quem faz isso? Quem fará isso?
Taticamente, era o mesmo 4-2-3-1 da bela vitória em Santiago. Tecnicamente, parecia Bolívia A x Bolívia Z. Os espaços eram menores que os da vitória no Chile. Mas em casa, contra a pior equipe das Eliminatórias, animados por um 3 a 0 fora, não há desculpa possível para criar apenas uma chance de gol em 90 minutos”.
O que mudou desde então? Muita coisa em nosso favor. Muita coisa contra os rivais.
O que ainda pode mudar até 2010. Porque a Argentina vai para a África do Sul. E ainda pode achar o jogo dela.
BR-09 – Ninguém quer vencer o BR-09? É o que parece. O que ainda dá mais chances para o Palmeiras de Muricy. Cinco pontos é muito pela pouca diferença entre a turma do G-4 e os que crescem como Cruzeiro e Flamengo, melhores equipes do returno.
Do jeito que vai (ou não vai), o BR-09 pode ser definido até pelo saldo. E, nessas contas, é essencial teorizar a dificuldade dos próximos rivais.
Pelo que a tabela apresenta, na teoria, o Cruzeiro é quem tem os adversários menos complicados. O São Paulo está na cola, com Palmeiras e Internacional com um pouco mais de dificuldade. Flamengo e Goiás terão jogos mais difíceis. Ninguém com maiores dificuldades – teóricas – que o Atlético Mineiro.
Tudo, porém, pode mudar já na próxima rodada, até pelo essencial Palmeiras x Flamengo.