Dando sequência às nossas histórias de dentro do campo, posição por posição, seguem hoje algumas referentes aos laterais-esquerdos. Aliás, sobre três dos maiores jogadores do Brasil nessa posição em todos os tempos: Nilton Santos, Júnior e Oreco. ********************************************************************************
Nilton Santos é uma unanimidade entre os que o viram jogar, e mesmo entre muitos que não viram. Titular absoluto do Botafogo entre 1948 e 1965, bicampeão mundial pela Seleção Brasileira, em 1958 e 1962, não por acaso ganhou o apelido de “Enciclopédia”. Afinal, sabia tudo sobre futebol.
Em 1992, entrevistei Nilton em Brasília, onde ele, aos 67 anos, fazia um trabalho na escolinha do governo junto a crianças carentes. Foram duas manhãs de entrevistas, ao final das quais passeávamos conversando pelo gramado do Estádio Mané Garrincha.
Nilton me explicava que era uma pena a idade chegar, porque, com ela, o corpo já não obedecia mais as ordens do cérebro. Mas que aquilo que o jogador trazia de berço, o dom de jogar futebol, jamais era esquecido. Para provar o que dizia, Nilton pegou uma bola e me disse: “Está vendo essa bola? Eu vou chutá-la com essa parte do pé, ela vai descrever uma curva assim e assado, e vai parar exatamente ali”. O velho Nilton, então, fez o que prometia. E acreditem vocês ou não a bola fez exatamente tudo o que ele queria que ela fizesse.
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Outro gênio da lateral-esquerda foi Júnior, do Flamengo. Campeoníssimo dentro de campo, fora dele era conhecido também como um grande parceiro, capaz de descontrair o grupo com histórias como essa, que envolvia o ingênuo meia Peu.
Peu havia trocado pouco tempo antes o CSA, de Alagoas, pelo Flamengo. Reserva, embarcou com o time para o Japão, em 1981, a fim de disputar a decisão do Mundial Interclubes, em Tóquio, contra o Liverpool, da Inglaterra. Na época, Peu cultivava um vasto bigode, que não escapou das gozações de Júnior.
“Mas você vai descer no Japão assim, de bigode, Peu?”, teria perguntado Júnior, deixando o companheiro assustado. Em seguida, Júnior inventou uma história, dizendo que no Japão era proibido usar bigode. E para dar maior veracidade, ainda emendou: “Você já viu japonês de bigode? Chinês ainda vá lá, mas japonês? Eu nunca vi nenhum...”
E lá se foi o pobre Peu, com a lâmina de barbear em punho, arrancar o bigode às pressas no banheiro do avião, antes que ele descesse no Aeroporto Internacional de Narita.
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Reserva de Nilton Santos na Copa de 58, o gaúcho Oreco foi ídolo tanto no Inter, onde começou a despontar para o futebol nacional, quanto no Corinthians, onde jogou de 1957 a 1965. Amava tanto o futebol que morreu jogando.
Era mais um amistoso do Milionários, time famoso por reunir veteranos como o próprio Nilton Santos, Garrincha e Oreco, entre outros. O local, a cidade de Ituverava, no interior de São Paulo. O dia, um domingo, 3 de abril de 1985.
A certa altura daquele jogo, Oreco, ainda um jovem senhor de apenas 52 anos, colocou a mão no peito. “Pedro, Pedro”, teria gritado, chamando por outro craque, o uruguaio Pedro Rocha, que também estava em campo. Aquelas foram suas últimas palavras.