Seguimos com nossas histórias de dentro do campo, posição por posição, agora com os meias. E para representar essa nobre linhagem, foram escolhidos três gênios da bola: Gérson, o Canhotinha de Ouro; Didi, o Gênio da Folha Seca; e Pita, ex-Santos e São Paulo.
********************************************************************************
O Campeonato Brasileiro de 1971 foi decidido em um triangular, envolvendo Atlético Mineiro (que acabaria sendo o campeão), São Paulo (vice) e Botafogo. Abrindo aquela fase final, Atlético e São Paulo enfrentaram-se no Mineirão.
Jogo duro, disputado no dia 12 de dezembro daquele ano, que até os 30 minutos do segundo tempo seguia empatado por 0 a 0. Foi quando o árbitro Armando Marques marcou uma falta nas proximidades da área do São Paulo. Quem bateu foi o lateral atleticano Oldair, dono de chute potentíssimo.
Na barreira, cinco são-paulinos. Quando a bola partiu, veio direto na direção do meia Gérson, o craque do time tricolor, que, instintivamente, abaixou-se, deixando a bola passar. Assim saiu o gol da vitória do Atlético, por 1 a 0.
No vestiário, o goleiro são-paulino, Sérgio, estava inconformado: “Pô, Gérson, perdemos o jogo, e talvez o título, porque você se abaixou na barreira! Eu nem vi por onde a bola entrou...” Gérson, tranquilo, apenas respondeu: “Calma, Sérgio... Campeonato a gente ganha no ano que vem. Agora, cabeça, se aquela bola me acetasse, eu nunca mais ia arrumar outra...”
********************************************************************************
Final da Copa do Mundo de 1958, entre Brasil e Suécia. Os jogadores brasileiros acomodam-se no ônibus que os levaria para o estádio. Didi, um dos destaques do time naquele Mundial, está preocupado: supersticioso, ele gostaria de se sentar no mesmo lugar de todas as vezes em que o Brasil acabou se dando muito bem até ali. Mas no banco está justamente o psicólogo da Seleção, o professor João Carvalhaes.
Depois de muito hesitar, com medo de ter sua superstição ridicularizada pelo psicólogo, Didi resolve abrir o jogo: “Olha, doutor, o negócio é o seguinte: durante toda a Copa, eu viajei aí no lugar em que o senhor está sentado. E vem dando certo. Então, eu gostaria...”
Tão preocupado quanto Didi, João Carvalhaes nem deixou ele terminar a frase. Foi logo levantando e falando: “Pelo amor de Deus, meu craque, pelo amor de Deus! O lugar é seu! Se vem dando certo até aqui, para que nós vamos facilitar, não é verdade?”
********************************************************************************
Meia clássico, daqueles camisas 10 à moda antiga, Edvaldo Oliveira Chaves, o Pita, brilhou no Santos, de 1978 a 1984, e depois no São Paulo, de 1984 a 1987. E foi protagonista de um engraçadíssimo episódio, testemunhado e narrado pelo fotógrafo Lemyr Martins, da revista Placar.
Santos e Guarani jogavam no Morumbi, por uma vaga na decisão do Campeonato Paulista de 1978. A certa altura, o ponta-esquerda santista João Paulo resolveu prender a bola junto à bandeirinha do escanteio, enquanto era acossado por faltas seguidas do lateral-direito Mauro, do Guarani, nenhuma delas marcada pelo árbitro Hélio Cosso.
Além dos pontapés por trás desferidos pelo adversário, João Paulo ainda tinha que agüentar os gritos de Pita, que não parava de pedir: “Passa a bola, João! Passa a bola, João!” A certa altura, irritado com aquela situação que não se definia, João Paulo virou-se para o companheiro e justificou, misturando o verbo apitar, o nome de Pita e os xingamentos ao árbitro: “É que esse filho da pita não aputa! Esse filho da pita não aputa...”