Por Pedro Fonseca
RIO DE JANEIRO (Reuters) - O choro de uma criança
repreendida pelo pai, as brincadeiras de um treinador com uma
aluna de 3 anos e dois gatos dividindo colchões com atletas. O
cenário é o improvável local de treinamento de Diego Hypólito,
único ginasta brasileiro classificado para os Jogos Olímpicos
de Pequim.
O bicampeão mundial do solo, de 21 anos, fará sua estréia
olímpica na China, em agosto. Até lá, ele luta todos os dias
contra a distração não só dentro do ginásio, mas também com as
obrigações de celebridade, especialmente após o sucesso
conquistado no Pan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007.
Com tanta movimentação ao redor, Diego tenta se concentrar
em realizar o único objetivo do ano: voltar da Olimpíada com a
primeira medalha da ginástica do Brasil na história dos Jogos.
"Esse movimento faz parte do dia-a-dia, a gente está sempre
correndo. O que começou a atrapalhar um pouco era que eu estava
com muitos afazeres. Eu não posso perder o foco, o foco é a
Olimpíada", disse o ginasta à Reuters, nesta sexta-feira.
"Eu não sou ator, sou atleta, e o grande problema do povo
brasileiro é que eles transformam atleta em ator. Eu não tenho
que ir a festas para aparecer. Minha boa imagem são os
resultados. Tenho que aproveitar esse momento que estou no auge
e não perder o foco", acrescentou o campeão Pan-Americano.
Como único representante da ginástica masculina do Brasil
nos Jogos, Diego vai participar da disputa dos seis aparelhos
na competição individual geral (cavalo, argola, salto,
paralelas, barra fixa e solo), mas a real chance de medalha
está no solo, prova que venceu nos Mundiais de 2005 e 2007 e
foi vice-campeão em 2006.
"Tenho que trabalhar bastante o lado da resistência em
função de o solo ser o meu último aparelho, e tenho que
participar de todos os aparelhos porque não tem como eu ficar
duas horas parado numa competição esperando chegar a hora do
solo", afirmou.
DIEGO SEM HYPÓLITO
O ginasta, entretanto, não deve apresentar em sua série o
movimento Hypólito, duplo twist carpado com pirueta, que foi
criado pelo brasileiro em 2006. Segundo Diego, a acrobacia é
"muito arriscada" para ser apresentada numa competição tão
importante quanto os Jogos Olímpicos, mas a ausência do
movimento não altera a nota de partida de sua apresentação.
"Por mais que tenha o meu nome, é um exercício muito
difícil, muito técnico, que exige muito da minha cabeça. Eu não
quero entrar na Olimpíada com nenhum movimento com incerteza",
disse Diego, acrescentando que somente mais um ginasta no
mundo, um norte-americano, já realizou o Hypólito em
competições internacionais.
Diego voltou a treinar no ginásio de ginástica do Flamengo
há três semanas, após ter passado por uma artroscopia no joelho
direito e depois ter ficado internado alguns dias com
diagnóstico de dengue. No clube carioca, onde treina há 13
anos, o atleta divide espaço com os alunos da escolinha do
clube, boa parte deles inspirada no sucesso de Diego e da irmã,
Daniele.
Seguindo uma rotina diária de 7 horas de treinamento mais 5
horas de fisioterapia, o ginasta tem pouco tempo livre. As
entrevistas, antes liberadas, agora só acontecem uma vez por
semana, e a forma encontrada por Diego para relaxar é ouvir
música tecno durante as atividades.
"Às vezes eu coloco uma música alta, porque a minha rotina
é muito monótona", disse o ginasta, cuja irmã faz parte da
equipe olímpica feminina do país que também vai para Pequim.
Apesar de lamentar a rotina, Diego se diz disposto a
continuar levando o mesmo estilo de vida até por mais 12 anos.
Sua intenção é encerrar a carreira após a Olimpíada de 2020,
aos 33 anos.
"Quero ver se aguento essa e mais duas pelo menos, até
três, só o que vai dizer é o tempo. Minha cabeça, meu corpo
como vão responder. Eu quero muito estar nessa e mais três
Olimpíadas", disse.