Estive no último fim de semana em São José do Rio Preto, para comentar um jogo de soçaite entre veteranos da região (que engloba outras cidades tradicionais no futebol, como Mirassol e Catanduva) e a Seleção Brasileira Máster, presidida por Tobias, o eterno goleiro do Corinthians campeão paulista de 1977. O evento foi promovido pelo Serviço Social do Comércio (SESC) dentro de sua programação de verão, cujo tema é "Esporte para todos", e faz pensar em como é rico o futebol das cidades do interior pelo Brasil afora. Rico, principalmente, em histórias.
Histórias como as de Gutenberg, lateral-direito do América em 1963, quando o time subiu para a primeira divisão paulista. Potiguar de Pau dos Ferros, ele, aos 70 anos, não jogou, mas foi homenageado no intervalo da partida, ao lado dos ex-colegas Tuba (zagueiro) e Robertinho Martins (meia e ponta-esquerda).
Guardião da memória daquela grande conquista americana, Gutenberg fez questão de mostrar fotos originais e recortes de jornais da época. Tinha também um disco com a narração dos jogos decisivos, inadvertidamente quebrado por gente que pediu o objeto emprestado para uma reportagem. Com uma das fotos do time formado em mãos, ele relata que oito dos campeões da segunda divisão paulista de 1963 pelo América ainda residem em Rio Preto. É capaz também de discriminar um a um os que já morreram, incluindo a comissão técnica, o então presidente e até o massagista. Depois, comenta, matreiro: "Fazer o que, né? A gente não quer morrer ainda, mas parece que esses aí já quiseram..."
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Outro destaque da partida foi o árbitro aposentado rio-pretense Sílvio Acácio Silveira, tendo como bandeira seu neto, Sílvio Renato Silveira, que também já apita. Figura conhecida no futebol entre os anos 70 e 80, Sílvio Acácio Silveira apitou 15 anos pela Federação Paulista e 10 pela CBF. Esteve presente em mais de 600 partidas, a mais lembrada delas uma vitória do Botafogo de Ribeirão Preto sobre o Corinthians por 1 a 0, no Parque São Jorge, em 1964, em que Rivellino agrediu o bandeirinha Mário Molina e acabou indo a julgamento por isso.
Durante toda sua carreira, Sílvio Acácio foi chamado pela imprensa tanto de "Silveira" quanto "DA Silveira". Por isso, resolvi tirar essa dúvida com ele na hora em que estava entrando em campo. "Eu nunca 'dei' nada pra ninguém, não", respondeu, bem-humorado. "Meu nome é sem esse 'da', mesmo"...
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Foi também o ex-árbitro Sílvio Acácio quem revelou um lado do futebol do interior bem menos rico que suas histórias. Contou os casos de dois jogadores locais que, para não ficar no prejuízo, aceitaram receber estranhos pagamentos em troca das dívidas que os clubes tinham para com eles. Hoje, um desses atletas é dono de parte das arquibancadas do estádio do Rio Preto. O outro, de uma das torres de iluminação do campo.

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