Ana Beatriz Moser foi uma das grandes jogadoras do vôlei mundial. Atuou pela Seleção nos Jogos de Seul (1988), Barcelona (1992) e Atlanta (1996, conquistou o bronze). Ela comenta os Jogos de Pequim 2008 pelo Yahoo! Esportes.

COMO É QUE A CHINA CONSEGUE VENCER???
O Brasil do vôlei enfrenta a China nos dois naipes: as quartas de final do masculino, a semifinal do feminino. No feminino, mais uma vez, a China bate a Rússia em Olimpíadas: como aconteceu nas semifinais de Atlanta e Sidney, e na final de Atenas. Se bem que o time russo desta vez não era muito confiável, mas a China mantem uma escrita no mínimo curiosa, mesmo com equipes piores sempre vence a Rússia em Olimpíadas.
Mas sobre as semifinais femininas falamos amanhã. Hoje vamos falar das quartas dos homens, onde o Brasil ganhou um presente da Polônia, que venceu os russos na última rodada da primeria fase e colocou o Brasil em primeiro. Ao invés de cruzar com a Bulgária, vai jogar contra a tímida e inexpressiva China (entre os homens, a China não tem muita vez). O jogo mais fraco das quartas, um presente e tanto. Não teremos nenhum problema para passar para as semifinais. Vamos passar uma geral em cada jogo dessa fase:
EUA e Sérvia: aposto nos EUA, invicto até agora e muito mais estável do que os Sérvios, que erram além da conta. Na semifinal o Brasil não irá cruzar com este vencedor, só irá efrentar numa suposta final.
Bulgária e Rússia: aposto na Rússia, mas os búlgaros são tão altos quanto e sacam uma enormidade. Podem quebrar o esquema russo se encaixar a estratégia saque - bloqueio. É o jogo mais disputado dessa fase.
Itália e Polônia: acho que a Polônia vai ficar por aqui, depois de já nos ter deixado boas lembranças pela vitória contra Rússia. Apesar de achar os italianos mais fortes, não podemos esquecer a sina da Itália em Olimpíadas, que já venceu muitos campeonatos, mas ainda não colocou a mão no ouro olímpico.
Brasil e China: barbada para o Brasil. Precisamos fazer somente o nosso jogo, errar pouco e não desperdiçar contra-ataques. A sorte que tivemos antes vale também para o jogo porque, pelo jeito, ela está do lado da seleção brasileira.
PS.1: E achei muito bom o time do técnico Bernardinho deixar de lado aquele discurso da pressão pelo favoritismo, a irritação em explicar as dificuldades. Agora a seleção fala do jogo e de questões mais práticas, não dando continuidade em discussões sobre o passado, o que esse grupo representa e tudo mais. Falar do jogo e do próximo jogo, é bem mais concreto e fácil de lidar.
PS.2: Mesmo um pouco atrasada, gostaria de comentar que eu não defendo a volta do Ricardinho, porque esse não é o caso. Ao citar o Ricardinho, eu analisava as características que o time do Brasil tinha e fazer uma comparação com o time atual. Não é posível um retorno do Ricardinho, e mesmo que ele voltasse aquela equipe não iria voltar junto. Quer dizer, cada coisa tem seu tempo, as pessoas vão mudando e os grupos também. Hoje a seleção é outra (mesmo se, por um milagre, o Ricardinho voltasse), e este novo time está construindo o seu caminho em busca de fazer o melhor possível.
Muito bem, gostei das discussões e resolvi contribuir com mais algumas reflexões. Veja, bem, na minha experiência eu aprendi que tudo é uma questão de preparo, de estar preparado para enfrentar as determinadas situações. Lembro da Olimpíada de Barcelona, quando ficamos em 4o., que me batia uma sensação de não merecer chegar ao pódio. Não merecíamos porque não tínhamos nos preparado o suficiente.
Este gancho de não deixar nunca de fazer todo o necessário nos treinamentos é utilizado constantemente pelo Bernardinho. Ele chega até a criar sacrifícios artificiais, como acordar mais cedo para treinar de uma temporada para a outra, chegar de viagens longas e ir direto para a quadra treinar, entre outros exemplos. Tudo para manter o sentimento de estar fazendo o máximo. Na hora do jogo isto se traduz em uma postura tipo: nós fizemos tanto e ninguém vai tirar isso da gente.
Ok, isso é uma estratégia de comando. Mas o que eu falava é que tudo é questão de preparo. No caso da mídia, ela dá aos atletas um status de sobre-humanos, pessoas superdotadas. O que não deixam de ser, da mesma maneira que há pessoas superdotadas em outras áreas (medicina, engenharia, advocacia, empreendedores sociais, gestão, e até mesmo artes) que não são tratadas da mesma maneira. O assédio público cria uma realidade irreal, ou uns graus acima da realidade.
Entre atletas que têm muito assédio, quem está mais bem preparado lida com um certo distanciamento, cria um personagem e se esconde atrás dele. Não é isso que o futebol nos ensina muito bem, com seus discursos repetitivos e com pouco conteúdo - muitos deles intencionalmente evasivos. Ou se enconde atrás de muito treino e privações, como faz o vôlei.
O esporte é concreto, não irreal. Tem começo, meio e finalização, mão na borda, bola no chão, ou na cesta, ou no gol. E numa Olimpíada são segundos de definição, que acontecem e não voltam mais, só daqui a 4 anos. Esta é a mística dos Jogos Olímpicos. Para isso é preciso preparo e total conexão com a realidade.

Ambos tinham retrospecto que indicava estarem entre os melhores desta Olimpíada, além de confirmarem as marcas e metas pessoais nas classificatórias em Pequim. Ambos estavam seguros do potencial e do que iriam fazer em cada prova: o tempo que iria abaixar a cada série, os pontos que planejava alcançar a cada apresentação.
Tudo certo e muito parecido na história dos dois atletas, mas um foi Ouro e o outro foi 6o. Qual a diferença, então, entre os dois??? É o tal "psicológico" que às vezes entra e às vezes não entra junto com o atleta na disputa??
Vamos colhendo algumas pistas e, quem sabe, até o final da Olimpíada a gente consegue entender melhor esses fenômenos. E não devemos esquecer que, entendo o fenômeno esportivo estaremos mais próximos de nos entendermos como povo.
Mas, voltando à nossa questão inicial, qual a diferença entre Diego e Cielo, por que um venceu e o outro falhou na decisão? Será que Diego Hypólito relaxou cedo demais e terminou a série antes do último salto? Por que não deu certo, o que pesou tanto nas pernas do ginasta?
Jade Barbosa disse ao final da sua participação que estava aliviada por ter chegado ao fim. Acaba a Olimpíada e junto termina a tensão, a pressão e o medo. A psicologia esportiva aponta que o caminho mais rápido para acabar com a angustia da disputa é a derrota: é muito mais eficiente relaxar e perder, do que se superar para vencer. Medo de não corresponder, tanta gente para pedir desculpas se perder, muita coisa para as cabeças dos nossos atletas. E muito mais para os atletas que caem na graça da imprensa e dos grandes conglomerados de comunicação, que passam a acompanhar cada passo, cada competição preparatória, cada promessa.
E aí temos uma boa diferença entre Diego e Cielo: enquanto o ginásta estava quase toda semana na mídia, o nadador estava quase escondido no interior dos EUA. Não que o Diego tenha se perdido nesse assédio, não estou culpando o atleta de "deslumbramento". Só estou tentando entender porque as coisas são assim.

Pela liderança do grupo e pelo direito de enfrentar o Japão nas quartas de final. A Itália é um adversário perigoso e também venceu todos os jogos dessa fase. Teoricamente, se o Brasil repetir o desempenho dos outro jogos, vence. Segundo as estatísticas acumuladas de todas as equipes, o time brasileiro é o melhor no bloqueio, na defesa e na recepção de saque; o segundo no ataque (o melhor é Cuba) e no saque (também Cuba). A Itália está atrás em todos, apesar de ter a Aguero como melhor sacadora disparado, além de conhecermos bem o perigo que ela é no ataque.
A Aguero é nossa maior preocupação, mas não a única. Dependendo do dia, Piccinini, Nádia Centoni, Ortolani também precisam ser bem marcadas. O que atrapalha muito o time italiano é a recepção, que não tem dado condições para a levantadora Lo'Bianco fazer um jogo mais veloz pelo meio. Por isso nosso saque precisa entrar para termos menos preocupações. E pode sacar na líbero Cardullo, porque ela não está entregando nada.
Quanto a nós, espero que o timer do freezer funcione direitinho, que o Zé Roberto traga nosso time para a quadra para jogar o que tem jogado até agora. A cada partida a pressão fica maior e o time precisa de mais e mais concentração. E novidades. Para quem ainda não notou, ou ouviu em alguma declaração das jogadoras, o time brasileiro tem escondido algumas jogadas de ataque para ir mostrando aos poucos nesse momento da Olimpíada. Ganhamos o Grand Prix jogando com as bolas mais abertas, sem cruzamentos, ou bolas encurtadas nas pontas. Já nas primeiras partidas, começamos a ver a Sheila e a Mari em desmicos, a Paula numa bola mais curta na entrada de rede, e assim por diante.
O Zé Roberto, como bom estrategista, está queimando fases com todo o cuidado e confiança. Confiança no seu instinto, na preparação que o time vem fazendo, e nas jogadoras que tem. Agora, importante mesmo é vencer a Itália.

...e a vibração voltou ao vôlei masculino. Parece que o time fica mais confiante com ele em quadra, pelos ataques fulminantes e pela liderança. O time da Polônia não pressionou o time brasileiro nadinha no saque, e passou muito mal. Nosso ataque também foi superior e a recepção, feitas quase exclusivamente por Serginho e Giba, bateu os 85% de eficiência.
O Brasil entrou mordido e não teve pena do time polonês, bateu até o fim. Saiu de quadra confiante e pronto para a próxima partida contra a Alemanha, que até agora só ganhou do Egito. Dependendo do resultado entre Rússia e Polônia, pode ainda acabar em primeiro do grupo, mas o provável é que termine em segundo e enfrente Itália ou Bulgária nas quartas de final.
E, claro, não poderia deixar de prestar minha homenagem emocionada ao César Cielo. Pela medalha inédita, pela coragem e determinação presentes na sua trajetória. Um projeto pessoal da família Cielo, com pouquíssima interferência de algum projeto oficial (COB, CBDA, Ministério). Discreto (perto de muitos outros figurões do esporte brasileiro), consciente, eficiente. Parabéns, você merece.
Ps.: Foi muito único a reação do Cielo ao seu feito dourado, especialmente durante a execução do Hino Brasileiro. O francês Bernard, terceiro colocado, ficou tocado pela luta do César em se controlar e manter a compostura. Pegou no braço dele e depois abraçou carinhosamente para a foto oficial do pódio. O Cielo perdeu para a emoção e fez o Cubo D´Água viajar com ele naquele momento. Somos mesmo um povo muito engraçado, e não conseguimos passar desapercebidos.

A seleção feminina venceu o Cazaquistão e agora decide o primeiro lugar do grupo contra a Itália, a outra equipe invicta. Além do Brasil, claro, que não perdeu nenhum set ainda.
No masculino, depois da derrota contra a Rússia, o Brasil caiu para terceiro do grupo, pois Rússia e Polônia ainda não perderam. Contra a Polônia, que está a frente dos russos, outro jogo que irá exigir algo a mais do que o Brasil tem mostrado ultimamente. O time polonês saca muito forte e tem no atacante Wazly seu maior pontuador. Mas a Polônia não é time de uma atacante só e o bloqueio brasileiro precisa fazer boas escolhas e jogar com as probabilidades.
Agora, o time do Brasil é uma incógnita. A equipe não dá sinais de franca evolução e o que se vê é um time melhor a cada jogo, isso sem dúvida, mas num ritmo que talvez esteja abaixo do que esta Olimpíada está exigindo. Não temos hoje um ponto forte que segure as pontas: nosso saque e o ataque, que sempre foram a base onde o time se apoiava nas vitórias, tem muitos altos e baixos. Por isso precisamos esperar para ver como o Brasil se apresentará contra a Polônia: confiantes, ou assustados (como no final do jogo contra a Rússia).
Fora esses aspectos técnicos, a equipe está diferente num fator mais empírico, difícil de ser detectado nas estatísticas dos fundamentos do jogo. É a energia que rolava em quadra e que era, em boa parte das vezes, comandada pelo Ricardinho. A seleção tinha muito da alma do Ricardo que, ao lado e contagiando os outros, especialmente Serginho, Gustavo e Giba, deu uma cara de garra e superação para as conquistas do vôlei. Veja bem, sempre fomos mais baixos do que outras seleções, mas nosso jogo era mais eficiente e por vezes "imarcável". O Gustavo tinha tanta gana para bloquear que o "toco" sempre acontecia quando o ponto era muito importante, ou um ponto de "moral". Algo além da técnica e da tática, um estado constante de excitação e desafio.
E a coisa rolava em quadra muitas vezes independentemente do comando do banco. Lembro de decisões nesses anos super disputadas, os jogadores brasileiros até exagerando um pouco, parecia um bando de loucos em quadra (no bom sentido), dando peitadas uns nos outros para comemorar os pontos, uma vibração contagiante. O Bernardinho justificava esse jeito de jogar como "a forma deles jogarem. É deles e eu tenho que respeitar".
O time do Brasil hoje não tem mais isso. Pode até recuperar, ou encontrar uma outra maneira de jogar e ser tão eficiente quanto já foi. Mas nunca se sabe, porque essas coisas acontecem a partir de um milhão de fatores que convergem para um certo grupo, num certo tempo. Algumas a gente controla, outras a gente só especula e joga muito com a sorte.
| Ranking | gold | silver | bronze | Total | |
| 1. | Flag ofChina | 51 | 21 | 28 | 100 |
| 2. | Flag ofEstados Unidos | 36 | 38 | 36 | 110 |
| 3. | Flag ofRússia | 23 | 21 | 28 | 72 |
| 4. | Flag ofGrã Bretanha | 19 | 13 | 15 | 47 |
| 23. | Flag ofBrasil | 3 | 4 | 8 | 15 |
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