







Com oito anos de atraso, os Jogos Olímpicos voltaram ao seu berço: Atenas, na Grécia. Mesmo com alguns problemas de segurança e no cronograma das obras, os gregos desempenharam bem na missão de receber novamente o maior evento esportivo do mundo, agora consolidado como um espetáculo. A programação foi realizada entre 13 a 29 de agosto.
Aproveitando a volta à capital grega, muitos locais históricos sediaram provas - caso das ruínas da cidade de Olímpia, local dos Jogos da Antigüidade, que receberam a disputa do arremesso de peso, e do percurso da maratona, fiel ao original elaborado pelo soldado Filípides.
Os Jogos tiveram como astro o nadador americano Michael Phelps, que ficou muito perto de igualar a façanha de seu compatriota Mark Spitz em 1972, na cidade alemã de Munique. Ele não conseguiu os sete ouros, mas acabou por superá-lo em número de medalhas: oito, sendo seis de ouro e duas de bronze.
Atenas também viu brilhar o marroquinho Hicham El Guerrouj, os americanos Justin Gatlin e Kelly Holmes, o etíope Kenenisa Bekele e as seleções argentinas de basquete e futebol.
A edição foi palco de muitos bons momentos do esporte, mas também acabou marcada por alguns incidentes inaceitáveis. Um dos casos foi a farsa dos atletas gregos Kostas Kenteris e Ekaterina Thanou, que armaram um acidente de moto para evitar um exame antidoping e acabaram fora da competição, decepcionando a torcida local.
Outro fato curioso envolveu o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro, agarrado por um padre irlandês que invadiu a pista quando o atleta liderava a prova. Contando com a ajuda de um torcedor que segurou o manifestante, o brasileiro retornou, mas perdeu ritmo e foi superado pelo italiano Stefano Baldini e o americano Mebrahtom Keflezighi, ficando com o bronze. Sua consolação foi a medalha Barão de Coubertin, do mérito olímpico, que recebeu por sua atitude, e os muitos aplausos ao chegar ao Estádio Olímpico, fazendo gestos de um avião com os braços.
Para o esporte brasileiro, Atenas será sempre lembrada como o local onde foi registrado o recorde de medalhas de ouro para o país em uma só edição dos Jogos - cinco, além de duas de prata e três de bronze. Pela primeira vez, o Brasil terminou entre os 20 primeiros do quadro de medalhas, na 16ª posição.
Uma das vitórias mais festejadas - e esperadas - foi a da seleção brasileira masculina de vôlei, a segunda na modalidade. A equipe comandada pelo técnico Bernardinho tinha astros como os pontas Giba e Nalbert, o levantador Ricardinho e o meio-de-rede Gustavo. Foi o segundo ouro de Giovane e Maurício, que estiveram presentes na conquista dos Jogos de 1992, em Barcelona. Na decisão, triunfo sobre a Itália.
Dois bronzes vieram do judô, com Leandro Guilheiro no peso leve e Flávio Canto no meio-médio.
O velejador Robert Scheidt, que perdeu o ouro na última regata dos Jogos de 2000, se redimiu e levou o primeiro lugar, entrando para a história como segundo atleta do Brasil a conquistar dois ouros em Jogos Olímpicos - o primeiro foi Adhemar Ferreira da Silva, que venceu o salto triplo do atletismo em 1952 (Helsinque) e 1956 (Melbourne).
Ainda na vela, Marcelo Ferreira e Torben Grael ganharam novamente o ouro na classe Star, após o de Atlanta, e Torben ainda deixou a Grécia como o maior atleta da história olímpica do Brasil, com cinco medalhas e seis participações nos Jogos - desde 1984, em Los Angeles. Ele também se tornou o iatista com maior número de medalhas olímpicas em todo o mundo.
No vôlei de praia, Ricardo e Emmanuel foram ouro ao bater os espanhóis Javier Bosma e Pablo Herrera por 2 sets a 0, com parciais de 21-16 e 21-15. Já Adriana Behar e Shelda voltaram a ficar com a prata, perdendo para as americanas Misty May e Kerri Walsh, melhores do mundo, por 2 a 0 (21-17 e 21-11). O Brasil chegou a sete medalhas desde que o esporte estreou nos Jogos, em 1996.
O quinto e último ouro do Brasil só veio quase um ano após os Jogos. Montando o mesmo Baloubet du Rouet que refugara em Sydney, acabando com as chances de ouro do Brasil, Rodrigo Pessoa garantiu a prata na prova de saltos individual. No entanto, cerca de um ano mais tarde, a Federação Eqüestre Internacional (FEI) anunciou o doping do cavalo do irlandês Cian O'Connor, que conquistara o ouro, e o cavaleiro brasileiro herdou o primeiro lugar.
Uma das medalhas mais surpreendentes foi a prata do futebol feminino, comandado por René Simões. O mesmo treinador que levou a Jamaica à Copa do Mundo de 1998 fez com que um grupo praticamente desconhecido ganhasse a torcida de todos os brasileiros, já que a equipe masculina sequer havia conseguido a classificação. Na final, a equipe perdeu de 2 a 1 para os Estados Unidos, já na prorrogação. O feito consagrou a geração de Pretinha e Formiga, ao mesmo tempo em que abriu espaço para o surgimento de novos talentos como a atacante Marta, então com 18 anos e que seria eleita duas vezes Melhor Jogadora do Mundo pela Fifa.
Já as equipes de basquete e vôlei feminino ficaram na quarta posição, sendo que as meninas de José Roberto Guimarães tiveram todas as oportunidades para superar a Rússia na semifinal e acabaram perdendo. Na disputa pelo bronze, Cuba levou a melhor.
Nas piscinas de Atenas, só deu Michael Phelps. A capital grega foi testemunha da brilhante atuação do nadador americano, que teve como um de seus poucos rivais o australiano Ian Thorpe - mas não como em Sydney 2000.
Thorpe, aliás, foi o vencedor de uma das provas mais memoráveis da natação olímpica: os 200 metros livre, à frente do holandês Pieter Van den Hoogenband e do próprio Phelps.
Outros nomes de destaque na piscina foram o americano Gary Hall e a holandesa Inge de Brujin, vencedores nos 50 metros livre, e a África do Sul no revezamento 4x100m livre.
O Estádio Olímpico, palco de grandes provas de atletismo, viu brilhar o marroquino Hicham El Guerrouj, ouro nos 1.500 metros e 5.000m - feito que não ocorria desde 1924, em Paris, com o finlandês Paavo Nurmi. O americano Justin Gatlin foi o mais rápido nos 100m.
O maior fracasso dos Jogos de Atenas foi a seleção americana de basquete, que perdeu três partidas e acabou com um modesto bronze mesmo contando com astros como Tim Duncan e LeBron James. O ouro foi para a Argentina, que derrotou os americanos nas semifinais e a Itália na decisão.
Os argentinos comemoraram também o ouro no futebol, batendo o Paraguai na decisão, e conquistaram antes da seleção brasileira a tão sonhada medalha.
ATENAS 2004 EM NÚMEROS
Países: 201 países.
Atletas: 10.625, sendo 6.296 homens e 4.329 mulheres.
Esportes: 28 (atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, nado sincronizado, pólo aquático e saltos ornamentais -, futebol, ginástica, handebol, hipismo, hóquei sobre grama, judô,
levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, remo, softbol, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, tiro com arco, triatlo, vela e vôlei).
Provas: 301.
Brasil: 247 atletas, sendo 125 homens e 122 mulheres. O país participou de 22 esportes (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, natação sincronizada e saltos ornamentais -, futebol, ginástica - artística e rítmica -, handebol, hipismo, judô, lutas, pentatlo moderno, remo, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, triatlo, vela e vôlei - vôlei e vôlei de praia).
DESTAQUE DOS JOGOS: Michael Phelps (Baltimore, EUA, 1985). O nadador americano queria igualar a marca de oito ouros de seu compatriota Mark Spitz nos Jogos de Munique, em 1972, mas conquistou apenas seis. Porém, as oito medalhas no total tornaram-no o atleta a conquistar o maior número de premiações numa só edição dos Jogos.
ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: Michael Phelps (Baltimore, EUA, 1985). O nadador americano não bateu o recorde de oito ouros de seu compatriota Mark Spitz em Munique, mas venceu seis provas: 100 metros e 200m borboleta, 100m e 200m medley e revezamentos 4x100m medley e 4x200m livre. Ele também ficou com o bronze no revezamento 4x100m livre e 200m livre.
QUADRO DE MEDALHAS
1º EUA. Ouro: 36; prata: 39; bronze: 27. Total: 102.
2º China. Ouro: 32; prata: 17; bronze: 14. Total: 63.
3º Rússia. Ouro: 27; prata: 27; bronze: 38. Total: 92.
16º BRASIL. Ouro: 5 (Hipismo - saltos - Rodrigo Pessoa)
(Vela - Laser - Robert Scheidt)
(Vela - Star - Marcelo Ferreira e Torben Grael)
(Vôlei - Anderson de Oliveira Rodrigues, André Heller, André
Nascimento, Dante Amaral, Gilberto Godoy Filho - Giba -,
Giovane Gavio, Gustavo Endres, Maurício Lima, Nalbert
Bitencourt, Ricardo Garcia - Ricardinho -, Rodrigo Santana -
Rodrigão - e Sérgio Dutra dos Santos - Escadinha. Técnico:
Bernardinho)
(Vôlei de praia - Emanuel e Ricardo)
Prata: 2 (Futebol feminino - Andreia Suntaque, Marlisa Wahlbrink -
Maravilha - Aline Pellegrino, Juliana Cabral, Tânia Maranhão,
Mônica de Paula, Rosana dos Santos, Grazielle Nascimento,
Renata Costa, Daniela Alves, Miraildes Maciel Mota - Formiga -,
Elaine Estrela, Andréia dos Santos - Maycon -, Marta Vieira,
Delma Gonçalves - Pretinha -, Kelly Cristina, Cristiane Rozeira e
Roseli de Belo. Técnico: René Simões)
(Vôlei de praia feminino - Adriana Behar e Shelda)
Bronze: 3 (Atletismo - maratona - Vanderlei Cordeiro)
(Judô - leve Leandro Guilheiro)
(Judô - meio-médio - Flavio Canto)
ATENAS EM 2004
E os Jogos Olímpicos voltaram à sua origem. Foi em 2004, quando Atenas se tornou novamente sede do grande evento do esporte mundial. Obviamente, a cidade era bastante diferente em relação a 1896. Agora a Grécia queria mostrar sua faceta moderna, como país da União Européia, que se integrava ao Primeiro Mundo. Os cerca de 5 milhões de habitantes contrastavam com os pouco mais de 100.000 da primeira edição.
A boa recepção dos habitantes da capital grega aos atletas foi impressionante. Mais uma vez, o problema foram as altas temperaturas.
O número de 201 países mostrou que, apesar de alguns conflitos ainda assolarem o mundo, os Jogos são uma chance de abrir novos horizontes e unir os povos. Foi o caso das delegação iraquiana, que fez bonito com o quarto lugar do torneio de futebol e deu um pouco de alegria a um povo que sofre com a guerra interna entre as tropas americanas que ocupam o país e os rebeldes.
O ano de 2004 foi também marcado por muitos fatos negativos: a deposição do presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, que gerou uma crise no país; os atentados de 11 de março a Madri, cometidos pela organização terrorista Al Qaeda e que deixaram cerca de 190 vítimas mortais; e, no fim do ano, um terremoto seguido de tsunamis que provocou muita destruição nos países do Sudeste Asiático e matou aproximadamente 174.000 pessoas.
Os Jogos de 2004 marcaram, ainda, a ascensão esportiva da China, que só não se igualou aos Estados Unidos na primeira posição por três medalhas de ouro de diferença. O país acabou na segunda colocação geral e ultrapassou a Rússia, numa mostra do que pretende exibir quando for a próxima sede da maior competição esportiva do mundo, em Pequim.
JUAN A. MEDINA.
EFE REPORTAGENS.