






Os chamados Jogos Olímpicos do Centenário, realizados cem anos depois da primeira edição, foram disputados pela quarta vez nos Estados Unidos, agora em Atlanta. A competição registrou um número recorde de 197 países - mais que o total de membros da Organização das Nações Unidas (ONU) à época.
Atlanta, terceira cidade dos Estados Unidos a sediar os Jogos, viveu altos e baixos de 19 de julho a 4 de agosto, quando recebeu todos os países filiados ao Comitê Olímpico Internacional (COI) - 197, mais que o total de membros da Organização das Nações Unidas (ONU) à época.
O grande número de países participantes trouxe nada menos que 10.318 atletas, número este que só não foi maior porque a organização resolveu limitar a presença dos competidores.
Nada menos que 79 nações conquistaram medalhas, sendo que 53 voltaram para casa com um ouro - incluindo o Brasil, com três primeiros lugares. Os Jogos tiveram 271 eventos, com 1.838 prêmios em disputa. A sensação era de que a competição atingira patamares elevados até demais
Embora tenham sido um sucesso em termos de resultados, os Jogos de Atlanta decepcionaram no que diz respeito à organização: foram muitos os problemas com transporte, informação sobre as provas e a atenção dispensada aos atletas.
O destaque foi o americano Michael Johnson, ouro nos 200 metros com direito a recorde mundial, de 19s32 - ainda vigente -, e nos 400m. Além disso, seu compatriota Carl Lewis venceu o salto em distância e se tornou o terceiro participante da história de todos os Jogos a conquistar a mesma prova quatro vezes, e o quarto a obter nove medalhas de ouro em todas as edições de que participou.
Os Jogos de 1996 foram os melhores de toda a história da participação do Brasil, a começar pelo planejamento, iniciado 15 meses antes da competição pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O projeto incluiu ajuda e treinos aos atletas classificados dentro e fora do Brasil, tanto em competições internacionais quanto em locais mais adequados e adaptados à realidade que encontrariam em Atlanta.
O esforço ficou refletido no resultado alcançado ao final do evento: o país acabou com 15 medalhas (três de ouro, três de prata e nove de bronze), um recorde histórico, e chegou perto em modalidades como o boxe, tênis e futebol feminino. O grupo foi de 225 atletas, sendo 66 mulheres.
E foi delas uma das medalhas de ouro conquistadas. O Brasil foi o protagonista da final feminina do vôlei de praia, em sua primeira edição como esporte olímpico, com direito a "dobradinha": na decisão, Jacqueline Silva e Sandra Pires superaram Mônica Rodrigues e Adriana Samuel, num momento histórico para o esporte brasileiro.
Os outros ouros vieram na vela: Robert Scheidt venceu a classe Laser, enquanto a dupla Marcelo Ferreira e Torben Grael ganhou na Star.
As mulheres também se destacaram nos esportes coletivos. O basquete foi prata com uma equipe que tinha Hortência, Paula, Marta e uma jovem Janeth, enquanto o vôlei acabou no pódio pela primeira vez, com o bronze. Ana Moser, Virna, Leila e a levantadora Fernanda Venturini começavam a colocar o Brasil entre as potências do esporte.
Uma surpresa foi a participação do hipismo, com Rodrigo Pessoa (filho de Nelson Pessoa, um dos maiores cavaleiros do Brasil), Álvaro Affonso de Miranda Neto, André Johannpeter e Luiz Felipe Azevedo faturando o bronze na prova de saltos por equipe.
Mais uma vez, o futebol chegou como favorito e decepcionou. Comandada por Zagallo, a seleção era a grande favorita ao título e vinha reforçada com Bebeto, Rivaldo e Aldair como jogadores acima de 23 anos de idade. A seleção caiu nas semifinais, diante de Nigéria, que batera na primeira fase. O Brasil chegou a estar vencendo por 3 a 1, mas cedeu o empate ao adversário, levando a decisão da vaga para a prorrogação com morte súbita. Os africanos venceram com um gol do meia Kanu - a Nigéria conquistaria a medalha de ouro na modalidade.
O futebol também estreou entre as mulheres, e o Brasil, embora sem a mesma tradição dos homens, acabou num honroso quarto lugar, perdendo o bronze para a Noruega. Vitória das americanas, com as chinesas em segundo.
A outra prata do Brasil foi de Gustavo Borges, nos 200 metros livre. Ele ficou atrás apenas do neozelandês Danyon Loader.
As demais medalhas de bronze ficaram por conta do revezamento 4x100 metros do atletismo; de Henrique Guimarães e Aurélio Miguel, ambos no judô; de Gustavo Borges, agora nos 100m livre , e Fernando Scherer, nos 50m livre da natação; e de Kiko Pelicano e Lars Grael na classe Tornado de vela.
Atlanta também foi testemunha da consagração de diversos atletas: a francesa Marie-Jose Perec, que repetiu a façanha do americano Michael Johnson nas disputas dos 200 metros e 400m femininos; a russa Svetlana Masterkova, com vitórias nos 800m e 1.500m; o argelino Noureddine Morceli, que ganhou os 1.500m; o etíope Haile Gebrselassie, nos 10.000m; e a búlgara Stefka Kostadinova, ouro no salto em altura.
O ídolo do tênis Andre Agassi, número um do mundo à época, levou o ouro na simples, enquanto Alexander Popov ficou com o bicampeonato nos 50m e 100m livre da natação.
Os Jogos de Atlanta foram manchados novamente pela violência. Mesmo com 35.000 homens e toda a tecnologia à disposição, uma bomba de fabricação caseira explodiu junto a uma torre de som durante o show de uma banda num evento na cidade. Uma pessoa morreu e outras 110 acabaram feridas, mas a paralisação dos Jogos sequer foi cogitada.
No âmbito esportivo, as decepções ficaram por conta do ucraniano Serguei Bubka no salto com vara e do cubano Javier Sotomayor, que passou bem longe do ouro conquistado em Barcelona.
Quatro anos após encantar o mundo, o basquete americano colocou diante de sua torcida uma equipe de respeito, que levou o ouro sem dificuldades. Porém, não empolgou da mesma forma que em 1992.
ATLANTA 1996 EM NÚMEROS
Países: 197.
Atletas: 10.318, sendo 6.806 homens e 3.512 mulheres.
Esportes: 26 (atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, nado sincronizado, pólo aquático e saltos ornamentais -, futebol, ginástica, handebol, hipismo, hóquei sobre grama, judô, levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, remo, softbol, tênis de mesa, tênis, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei).
Provas: 271.
Brasil: 225 atletas, sendo 159 homens e 66 mulheres. O país participou de 18 esportes (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esportes aquáticos - natação -, futebol, ginástica - artística -, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, vela e vôlei - vôlei e vôlei de praia).
DESTAQUE DOS JOGOS: Michael Johnson (Dallas, EUA, 1967). O atleta americano conquistou os 200 metros com uma marca de 19s32, recorde mundial ainda vigente, e ainda levou o ouro nos 400m.
ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: Amy Van Dyken (Englewood, EUA, 1973). A nadadora americana foi um dos destaques de seu país, com quatro medalhas de ouro: 50 metros livres, 100m borboleta e revezamentos 4x100m livre e medley.
QUADRO DE MEDALHAS
1º EUA. Ouro: 44; prata: 32; bronze: 25. Total: 101.
2º Rússia. Ouro: 26; prata: 21; bronze: 16. Total: 63.
3º Alemanha. Ouro: 20; prata: 18; bronze: 27. Total: 65.
25º BRASIL. Ouro: 3 (Vela - Laser - Robert Scheidt)
(Vela - Star - Marcelo Ferreira e Torben Grael)
(Vôlei de Praia feminino - Jacqueline Silva e Sandra Pires)
Prata: 3 (Basquete feminino - Adriana Aparecida dos Santos, Alessandra
Santos de Oliveira, Cíntia Silva dos Santos - Cíntia Tuiú -,
Cláudia Maria Pastor, Hortência de Fátima M. Oliva, Janeth dos
Santos Arcain, Leila de Souza Sobral, Maria Angélica G. da Silva
- Branca -, Maria Paula Gonçalves da Silva - Paula -, Marta de
Souza Sobral, Roseli do Carmo Gustavo e Silvia Andréa Santos
Luz - Silvinha. Técnico: Miguel Ângelo da Luz)
(Natação - 200m livre - Gustavo Borges)
(Vôlei de Praia feminino - Adriana Samuel e Mônica Rodrigues)
Bronze: 9 (Atletismo - revezamento 4x100m - André Domingos, Arnaldo
Oliveira, Edson Luciano Ribeiro e Robson Caetano)
(Futebol - Aldair Nascimento dos Santos, Alexandre da Silva
Mariano - Amaral -, André Luiz Moreira, Danrlei de Deus
Hinterhloz, Flávio Conceição, José Elias Moedim Júnior - Zé Elias -, José Marcelo Ferreira - Zé Maria -, José Roberto Gama Oliveira - Bebeto -, Luiz Carlos Goulart - Luizão, Joubert Martins - Beto -, Narciso dos Santos, Nelson de Jesus Silva - Dida -, Oswaldo Giroldo Júnior - Juninho Paulista -, Rivaldo Victor Borba Ferreira, Roberto Carlos, Ronaldo Guiaro, Ronaldo Luiz Nazário e Sávio Bortolini Pimentel. Técnico: Zagallo).
(Hipismo - saltos por equipe Álvaro Affonso de Miranda Neto -
Doda -, André Johannpeter, Luiz Felipe Azevedo e Rodrigo
Pessoa)
(Judô - meio-leve - Henrique Guimarães)
(Judô - meio-pesado - Aurélio Miguel)
(Natação - 100m livre - Gustavo Borges)
(Natação - 50m livre - Fernando Scherer - Xuxa)
(Vela - Tornado - Kiko Pelicano e Lars Grael)
(Vôlei - Ana Beatriz Moser, Ana Flávia Chritaro D. Sanglard,
Ana Margarida Vieira Álvares - Ida -, Ana Paula Rodrigues Connelly, Ericléia Bodziak - Filó -, Fernanda Porto Venturini, Hélia Rogério de Souza - Fofão- , Hilma Aparecida Caldeiras, Leila Gomes de Barros, Márcia Regina Cunha - Márcia Fu -, Sandra Maria Lima Suruagy e Virna Dias. Técnico: Bernardo Rocha de Rezende - Bernardinho).
ATLANTA EM 1996
Os Jogos que marcariam os 100 anos do evento deveriam ser disputados na Grécia, mas acabaram em Atlanta por conta da pressão exercida pela empresa de refrigerantes Coca-Cola, parceira e patrocinadora olímpica e cuja sede fica na cidade.
O evento arrecadou muito dinheiro, mas o atentado à bomba ficou marcado como uma falha da cidade que dizia ser a "mais segura" do mundo no período de competições. O autor do atentado foi identificado dois anos: Eric Rudolph, de 32 anos, simpatizante das milícias e de movimentos religiosos extremistas de oposição ao governo americano. Mesmo com ordem de prisão, ele seguiu em liberdade.
Outros problemas foram os constantes engarrafamentos, o calor e os sistemas de resultados em tempo real, que costumavam falhar - algo irônico num país que sempre se vangloriou de sua tecnologia.
Atlanta, capital do estado da Geórgia, localizada perto do litoral sul do Oceano Atlântico, é uma cidade moderna, mas pecou pelas falhas de organização durante os Jogos. No mesmo ano em que o supercomputador "Deep Blue" venceu o russo Gary Kasparov, a terra natal de Martin Luther King não esteve à altura do evento.
JUAN A. MEDINA.
EFE REPORTAGENS.