




Os Jogos Olímpicos de 1936 tiveram Berlim escolhida como sede em 1931, dois anos antes da ascensão de Adolf Hitler e dos nazistas no poder. O Comitê Olímpico Internacional imaginava que as ações de controle de todo o país implantadas pelo governo não teriam conseqüências mais graves. Apesar da rejeição inicial, os alemães usaram o evento como propaganda do partido, com a intenção de mostrar a alegada superioridade da "raça" ariana.
Contudo, diante de majestosas estruturas e todo um esquema para favorecer e engrandecer os nazistas, brilhou justamente aquele considerado uma antítese: o atleta negro Jesse Owens, que silenciou Hitler ao conquistar quatro medalhas de ouro num Estádio Olímpico lotado por 110.000 espectadores.
Até mesmo os telões instalados em praças públicas registraram a vitória do americano. A transmissão dos Jogos neste formato era inédita até então.
Além de Owens, outros destaques foram o militar e ginasta alemão Alfred Schwarzmann, que conquistou cinco medalhas - três de ouro -, a nadadora holandesa Hendrika Mastenbroek, com três vitórias, e o remador britânico Jack Beresford, que estabeleceu um recorde nos Jogos Olímpicos ao conseguir sua quinta medalha em igual número de participações.
No Brasil, pela primeira vez o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), fundado novamente em 1935 (sua criação data de 1914), organizou a ida da delegação aos Jogos. Os representantes da extinta Confederação Brasileira de Desportos (CBD) aceitaram a unificação e o país levou 94 atletas, sendo seis mulheres - Maria Lenk entre elas. Mais uma vez, nenhuma medalha foi conquistada.
Outra novidade dos Jogos de Berlim foi a inclusão do basquete como esporte olímpico, e o Brasil participou com sua equipe masculina. A vitória foi dos Estados Unidos. Outra estréia foi a do handebol, com o formato antigo de 11 jogadores, disputado ao ar livre, para 100.000 espectadores.
Aos 12 anos, a nadadora dinamarquesa Inge Sorensen tornou-se a atleta mais nova a conquistar uma medalha, faturando o bronze nos 200 metros costas. Na mesma competição, a americana Marjorie Gestring, de 13, entrou para a história como a mais nova a ganhar o ouro, na prova do trampolim dos saltos ornamentais.
BERLIM 1936 EM NÚMEROS
Países: 49.
Atletas: 3.963, sendo 3.632 homens e 331 mulheres.
Esportes: 19 (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, pólo aquático e saltos ornamentais - futebol, ginástica, handebol, hipismo, hóquei sobre grama, levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, pólo, remo, tiro esportivo e vela).
Provas: 129.
Brasil: 94 atletas, sendo 88 homens e seis mulheres. O país participou em dez esportes (atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação -, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela)
ESTRELA DOS JOGOS: Jesse Owens (Lawrence County, EUA, 1913-1980). Em 3 de agosto, o atleta negro americano surpreendeu ao ganhar o primeiro ouro na prova dos 100 metros rasos. Nos dois dias seguintes, levou o salto em distância - superando o campeão alemão Lutz Long, que viria a ficar seu amigo - e os 200m. No dia 9, ele fez parte da equipe do revezamento 4x100m, calando Hitler e sua propaganda em defesa da alegada superioridade da raça ariana.
ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: O ginasta Alfred Schwarzmann (Fürth, Alemanha, 1912-2000). Militar desde 1935, ele conquistou cinco medalhas: três de ouro (combinado individual e por equipe e salto sobre o cavalo) e duas de bronze (barras paralelas e fixa). Em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, ele permaneceu detido pelos ingleses de maio a outubro. Nos Jogos de 1952, em Helsinque, ganharia sua última medalha, dessa vez de prata.
QUADRO DE MEDALHAS
1º Alemanha. Ouro: 33; prata: 26; bronze: 30. Total: 89.
2º EUA. Ouro: 24; prata: 20; bronze: 12. Total: 56.
3º Hungria. Ouro: 10; prata: 1; bronze: 5. Total: 16.
BRASIL: sem medalhas.
BERLIM EM 1936
A cidade alemã de Berlim entrou para a história em 1415, quando foi escolhida capital do estado de Brandeburgo, um dos muitos integrantes do Sacro Império Romano-Germânico. Em 1936, a bela cidade já beirava os quatro milhões de habitantes, em meio a um clima pré-bélico.
Aproveitando o fato de que os Jogos Olímpicos seriam um excelente canal para passar ao mundo o poder e a superioridade da Alemanha e seu povo, pretensamente "puro", Hitler procurou arrumar da melhor forma possível a cidade, que já se destacava por sua organização - o que atraiu o COI a elegê-la como sede dos Jogos.
As ruas de Berlim eram tomadas por belos edifícios ao estilo prussiano, com grandes avenidas cercadas de parques e árvores. A cidade tentava imitar Nova York, um centro industrial e de espetáculos, cabarés, teatros, cinemas e frenética vida noturna.
Os Jogos de Berlim foram cercados de polêmica, já que muitos pediram o boicote da maioria dos países por conta das ações do Governo nazista, e vários atletas americanos não foram liberados para viajar ao país. Inglaterra e França questionaram sua ida, mas, por fim, decidiram comparecer.
Muito dinheiro foi gasto com as melhorias realizadas na cidade. O estádio de Grunewald, construído para os Jogos de 1916, foi ampliado de 60.000 para 110.000 lugares - Hitler chegou a pedir 500.000, mas não foi atendido. Apesar de a relação entre o COI e o governo alemão não ser das melhores, os Jogos transcorreram sem nenhum incidente grave.
JUAN A. MEDINA
EFE REPORTAGENS