Calendário dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008

  • Cidade do México 1968

Altitude favorece recordes nos Jogos dos protestos

Os Jogos da Cidade do México, de 12 a 27 de outubro de 1968, foram os primeiros realizados num país de língua hispânica. Contudo, o que realmente marcou a competição foi a altitude de 2.235 metros acima do nível do mar da capital mexicana, que muito influenciou os resultados.

A presença do ar rarefeito, com 30% a menos de oxigênio em relação ao nível do mar, trouxe um festival de recordes mundiais nas provas de curta distância, mas causou estragos à saúde dos atletas nas competições de resistência física.

A maior prova da "ajuda" da altitude veio no salto em distância, modalidade em que o americano Bob Beamon conseguiu uma marca de 8m90 - 53 centímetros além do recorde mundial à época. Seu desempenho só foi batido em 1991, com os 8m95 de Mike Powell, também dos EUA, no Mundial de atletismo daquele ano, em Tóquio.

Quem também estabeleceu um novo recorde mundial foi o atleta americano Jim Hines, que escreveu seu nome na história ao ser o primeiro a percorrer os 100 metros livres em menos de dez segundos - sua marca foi de 9s95.

Dick Fosbury, dos EUA, levou o ouro no salto em altura e quebrou o recorde olímpico graças a uma inovação: pulou com uma técnica diferente, que consistia em correr de frente para a barra, girar no ar e passar o sarrafo de costas. A partir daí, todos adotaram seu método, chamado de Fosbury em sua homenagem.

A final daquela prova também foi a primeira que contou apenas com negros, em toda a história dos Jogos Olímpicos, fato que ganhou relevância devido aos protestos contra o apartheid sul-africano e a discriminação aos negros em território americano.

O expoente do clima tenso que dominava a competição foi a expulsão dos americanos Tommy Smith e John Carlos, ouro e bronze na prova dos 200 metros livres do atletismo. Durante a comemoração, eles colocaram uma luva preta e levantaram o braço com o pulso cerrado, em alusão ao grupo Panteras Negras, um dos movimentos negros dos Estados Unidos que combatiam a segregação racial. Acabaram retirados da vila olímpica.

De volta aos recordes, os americanos estabeleceram mais três marcas históricas no atletismo: Tommie Smith fez os 200 metros rasos abaixo dos 20 segundos (19s83), Lee Evans cravou 43s86 nos 400 m (marca que só seria batida em 1988) e a equipe de revezamento 4x400m, com Evans e Vincent Matthews, Ronald Freeman e Larry James, obteve um tempo de 2min56s16, superado apenas nos Jogos de Barcelona, 23 anos depois.

O melhor resultado do Brasil foi no salto triplo, com Nelson Prudêncio surpreendendo até mesmo a si próprio. Ele fez 17m27 e chegou a ser o detentor do recorde mundial por alguns minutos, mas acabou superado pelo soviético Viktor Saneyev.

O esporte do país ainda levou duas medalhas de bronze, com Servílio de Olveira, na categoria mosca do boxe, e a dupla de iatistas Reinald Conrad e Bukhard Cordes, na classe Flying Dutchmann.

Aída dos Santos superou o recorde sul-americano na prova do pentatlo, mas seus 4.578 pontos lhe renderam apenas a 20ª posição. Repetindo boa parte da equipe que levara a prata em Tóquio, o basquete masculino ficou em quarto lugar. Por sua vez, José Sylvio Fiolo, recordista mundial nos 100 metros peito da natação e campeão nos Jogos Pan-Americanos do ano anterior, acabou em quarto, com 1min8s1, a um décimo de segundo dos atletas que ficaram com a prata e o bronze.

Se em Tóquio a campanha do futebol brasileiro havia sido ruim, na Cidade do México foi ainda pior: a equipe sofreu a primeira derrota na estréia, perdendo para a Espanha por 1 a 0, e amargou dois empates, com Japão (1 a 1) e Nigéria (3 a 3).

Outro destaque destes Jogos foi a tcheca Vera Caslavska, com quatro ouros e duas pratas. Nas piscinas, um jovem americano chamado Mark Spitz mostrava estar acima da média ao vencer as provas dos revezamentos 4x100 metros e 4x200m livres e ainda faturar uma prata (100m borboleta) e um bronze (100m livres). No boxe, George Foreman garantiu a medalha de ouro para os EUA na categoria pesado antes de ser campeão mundial pela primeira vez, em 1974.

O americano Al Oerter também entrou para a história com o tetracampeonato olímpico no arremesso de disco, pois jamais alguém havia conseguido conquistar quatro ouros consecutivos na mesma prova.

Os Jogos do México marcaram, ainda, a primeira eliminação de um atleta por doping: o sueco Hans Gunnar Liljenwall, que disputava a prova de pentatlo moderno, foi pego por excesso de álcool e teve de deixar a competição. Testes de feminilidade também foram realizados pela primeira vez.

MÉXICO 1968 EM NÚMEROS

Países: 112

Atletas: 5.516, sendo 4.735 homens e 781 mulheres.

Esportes: 19 (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, pólo aquático e saltos ornamentais -, futebol, ginástica, hipismo, hóquei sobre grama, lutas, levantamento de peso, pentatlo moderno, pelota basca -exibição - remo, tiro esportivo, vela e vôlei).

Brasil: 84 atletas, sendo 81 homens e três mulheres. O país participou em 12 esportes (atletismo, basquete, boxe, esgrima, esportes aquáticos - natação e pólo aquático -, futebol, hipismo, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei).

Provas: 172

DESTAQUE DOS JOGOS: Bob Beamon (Nova York, EUA, 1946). O atleta americano se consagrou não só por vencer o salto em distância, mas por estabelecer o novo recorde mundial da prova, com uma marca de 8m90, graças à "ajuda" da altitude da Cidade do México. O desempenho, 53 centímetros acima do recorde mundial à época, só foi batido em 1991, por Mike Powell, também dos EUA. Beamon vinha de 22 vitórias em 23 torneios antes dos Jogos, mas só conseguiu o salto milagroso na última tentativa.

ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: A ginasta Vera Caslavska (Praga, Tchecoslováquia, hoje República Tcheca, 1942). Após os três ouros de Tóquio, a atleta conseguiu outros quatro primeiros lugares na Cidade do México (combinado individual, paralelas assimétricas, solo e cavalo de saltos), além de duas pratas (equipes e barra de equilíbrio). Ela também foi bastante lembrada por ter se casado com o também atleta tcheco Josef Odlozil pouco depois do fim da competição, numa catedral mexicana.

QUADRO DE MEDALHAS

1º EUA Ouro: 45; prata: 28; bronze: 34. Total: 107.

2º URSS. Ouro: 29; prata: 32; bronze: 30. Total: 91.

3º Japão. Ouro: 11; prata: 7; bronze: 7. Total: 25.

35º BRASIL. Prata: 1 (Atletismo - salto triplo - Nelson Prudêncio)

Bronze: 2 (Boxe - peso mosca - Servílio de Oliveira)

(Iatismo - Flying Dutchmann - Reinaldo Conrad e Burkhard

Cortes)

CIDADE DO MÉXICO EM 1968

Foi o ano da invasão soviética à Tchecoslováquia e muitos países protestaram ao Comitê Olímpico Internacional (COI), ameaçando não participar se a URSS não fosse excluída por seus crimes políticos. Uma das mais afetadas por conta disso foi Vera Caslavska, que teve de se esconder alguns meses antes do incidente para participar dos Jogos.

Durante a competição, ela mostrou seu repúdio às atitudes de seu país ao permanecer de cabeça baixa e ficar de costas à bandeira soviética durante a execução do hino da URSS, ao dividir o pódio com uma atleta conterrânea.

Os Jogos também foram manchados por uma ação do Exército mexicano, dias antes do início da competição, contra um grupo de dez mil estudantes que protestavam pela ocupação da área de duas universidades. O Governo nunca divulgou o total de vítimas, mas calcula-se que tenham sido cerca de 300 mortos e 1.200 feridos.

Apesar disso, o evento começou em 12 de outubro, com a cerimônia de abertura realizada num ampliado Estádio Olímpico, agora com 80.000 lugares. Outra novidade foi a introdução da pista de tartan, de material sintético, para o atletismo.

As redes de televisão americana transmitiram os Jogos para 400 milhões de telespectadores em todo o mundo, utilizando 45 câmeras, com um total de 45 horas de transmissão em cores. Mesmo com todo o comprometimento, os mexicanos não foram tão bons na missão de organizar o evento em virtude das deficiências na infra-estrutura do país.

As mulheres começavam a ganhar mais espaço nas competições: a mexicana Norma Enriqueta Basílio tornou-se a primeira mulher a levar a tocha olímpica até a pira.

Ao redor do mundo, a Guerra do Vietnã seguia dizimando milhares de pessoas, enquanto tiros em diferentes locais dos Estados Unidos mataram o líder negro Martin Luther King e Robert Kennedy, pré-candidato à Presidência que queria seguir os passos de seu irmão John.

JUAN A. MEDINA

EFE REPORTAGENS

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