





Os Jogos Olímpicos de Moscou serão sempre lembrados pelo maior boicote da história da competição: 61 países deixaram de competir na capital russa, liderados pelos Estados Unidos e sua retaliação ao auge da Guerra Fria. Além dos americanos, nações como Alemanha Ocidental, Canadá e Japão não compareceram. Mesmo assim, 80 nações disputaram uma competição marcada pela excessiva preocupação dos organizadores com a segurança dos atletas.
Foi o menor número de participantes desde 1956. Os ausentes ainda ganharam uma nova adesão no dia da cerimônia de abertura com a saída da Libéria. O país chegou a desfilar, mas resolveu aderir ao movimento dos americanos. Com isso, muitos atletas e equipes de nível inferior acabaram se destacando, como foi o caso da seleção de hóquei sobre grama da Tanzânia.
Apesar das ausências (atletas de alto nível como Carl Lewis, Edwin Moses e Michael Gross foram prejudicados pelo boicote americano), nada menos que 31 recordes - mundiais e olímpicos - foram batidos na capital russa, sendo 18 no atletismo e 13 na natação. Os Jogos foram disputados entre 19 de julho a 3 de agosto.
Diante da ausência dos principais competidores, o Brasil levou a Moscou a maior delegação desde 1920, com 109 atletas, entre eles 15 mulheres, em 13 esportes: atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esportes aquáticos - natação e saltos ornamentais -, ginástica - artística -, judô, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei.
O maior número de representantes e a ausência dos melhores atletas nas competições deram aos brasileiros sua melhor campanha nos Jogos até então, com duas medalhas de ouro e igual número de bronzes.
Os dois primeiros lugares foram conquistados na vela: Alex Welter e Lars Björkström venceram a classe Tornado, enquanto Marcos Soares e Eduardo Penido, pela classe 470, ficaram com o outro ouro. Na Finn, Cláudio Biekard ficou em quarto. A combinação destes resultados deu ao país o primeiro lugar entre todos os participantes.
Na natação, os brasileiros ficaram com o bronze no revezamento 4x200 metros livre, com Djan Madruga, Marcus Mattioli, Ciro Delgado e Jorge Fernandes cravando 7min29s30.
No atletismo, João do Pulo ganhou o segundo bronze de sua carreira no salto triplo, com a marca de 17m22. Ele ainda poderia levar o ouro, mas uma tentativa de 17m40 acabou anulada pelos juizes da prova - que alegaram que ele tinha queimado - e o soviético Jaak Uudmae fez 17m35.
As equipes masculinas de basquete e vôlei ficaram em quinto lugar, enquanto o futebol sequer se classificou. Mesmo assim, a 18ª posição no quadro de medalhas foi a melhor campanha do Brasil na história dos Jogos até então.
O grande vencedor da competição foi o nadador soviético Vladimir Salnikov, que protagonizou uma das grandes façanhas da natação mundial ao cravar 14min58s27 nos 1.500 metros livre e ser o primeiro da história a completar a prova em menos de 15 minutos. Além deste triunfo, ele ainda ficou com o ouro nos 400m, também quebrando o recorde mundial.
Na ginástica, o soviético Aleksandr Dityatin conquistou oito medalhas: três de ouro (nas argolas e no combinado individual e por equipes), quatro de prata (barras paralelas, fixa, salto sobre o cavalo e cavalo com alças) e uma de bronze (solo). Seu compatriota Nikolai Andrianov, destaque em Montreal, acabou com cinco - dois ouros, duas pratas e um bronze.
Os dois ginastas entraram para a história com seu desempenho na capital russa: enquanto Dityatin se tornou o único competidor a ganhar oito medalhas nos Jogos, Andrianov somou o maior número de premiações em mais de uma edição, com 15 obtidas entre Munique, Montreal e Moscou.
A romena Nadia Comaneci, que brilhou em Montreal, não teve igual desempenho na capital russa e se despediu dos Jogos com apenas quatro medalhas, sendo dois ouros e duas pratas.
Para surpresa de todos, os soviéticos acabaram em terceiro lugar no basquete, mesmo sem os americanos na disputa. O ouro ficou com a Iugoslávia. No atletismo, o etíope Miruts Yfter foi o grande beneficiado pelas ausências, vencendo as provas dos 5.000 metros e 10.000m. O destaque ficou por conta do duelo entre os britânicos Sebastian Coe e Steve Ovett nos 800m e 1.500m, com uma vitória para cada lado - Coe nos 1.500m e Ovett nos 800m.
MOSCOU 1980 EM NÚMEROS
Países: 80.
Atletas: 5.179, sendo 4.064 homens e 1.115 mulheres.
Esportes: 21 (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, pólo aquático e saltos ornamentais -, futebol, ginástica, handebol, hipismo, hóquei sobre grama, judô, levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei.)
Provas: 203.
Brasil: 109 atletas, sendo 94 homens e 15 mulheres. O país participou em 13 esportes (atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esportes aquáticos - natação e saltos ornamentais -, ginástica artística, judô, levantamento de peso, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei).
DESTAQUE DOS JOGOS: Vladimir Salnikov (Leningrado, URSS, hoje Rússia ,1960). O nadador venceu as provas dos 1.500 metros e 400m livre, ambas com recorde mundial, e o tempo de 14min58s27 na primeira o credenciou como o primeiro da história dos Jogos a completar a prova em tempo abaixo dos 15 minutos.
ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: O ginasta soviético Aleksandr Dityatin (São Petersburgo, URSS, hoje Rússia, 1957). Ele se tornou o primeiro atleta a conquistar oito medalhas numa mesma edição dos Jogos Olímpicos. Foram três ouros (argolas e combinado individual e por equipes), quatro pratas (barras paralelas e fixa, salto sobre o cavalo e cavalo com alças) e um bronze (solo).
QUADRO DE MEDALHAS
1º URSS. Ouro: 80; prata: 69; bronze: 46. Total: 195.
2º Alemanha Oriental. Ouro: 47; prata: 37; bronze: 42. Total: 126.
3º Bulgária. Ouro: 8; prata: 16; bronze: 17. Total: 41.
18º BRASIL. Ouro: 2 (Vela - 470 - Eduardo Penido e Marcos Soares)
(Vela - Tornado - Alex Welter e Lars Björkström)
Bronze: 2 (Atletismo - salto triplo - João do Pulo)
(Natação - revezamento 4x200m livre - Ciro Delgado, Djan
Madruga, Jorge Fernandes e Marcus Mattioli)
MOSCOU EM 1980
As cúpulas douradas do Palácio do Kremlin, a Praça Vermelha e a gigantesca rede de metrô são apenas algumas das atrações da cidade de Moscou, destino atualmente muito requisitado pelos turistas. Em 1980, contudo, a história era outra: milhares de guardas e policiais faziam com que o cenário fosse de uma cidade ocupada pelo Exército.
E foi justamente esse excesso de segurança que esfriou o clima dos Jogos, impedindo qualquer manifestação espontânea nas competições ou nas arquibancadas. Apesar de a União Soviética não ter poupado esforços para realizar um evento grandioso e impecável, os atletas não podiam, por exemplo, correr a volta olímpica após uma vitória. Além disso, todos os movimentos dos competidores fora da vila tinham de ser previamente autorizados pela Polícia. O contato com os russos também era restrito.
Talvez um dos momentos mais emocionantes tenha sido a lágrima que correu do olho de uma gigantesca figura do urso Misha, mascote dos Jogos, através da disposição de displays. O personagem era o símbolo da suposta alegria com que os moscovitas gostariam de receber os convidados.
Misha foi a primeira mascote a marcar os Jogos, embora já existissem desde a edição de 1972, com o cachorro Waldi.
No ano de 1980, a sonda "Voyager 1" confirmou a existência de Jano, uma das luas do planeta Saturno, e o Iraque atacou o Irã.
Porém, nada foi mais significativo que a invasão das tropas soviéticas ao Afeganistão, que provocou o grande boicote aos Jogos de Moscou, proposto pelo presidente americano, Jimmy Carter. Os soviéticos dariam o troco na mesma moeda quatro anos depois.
JUAN A. MEDINA
EFE REPORTAGENS