





Os Jogos Olímpicos de 1972, de 26 de agosto a 11 de setembro, começaram quebrando marcas de provas (195), atletas (7.174) e países participantes (121). A competição, chamada de "Jogos da Alegria", correu bem por dez dias. Até que um fato chocou todo o mundo.
Às 4h30 da manhã do dia 5 de setembro, oito membros do grupo palestino Setembro Negro invadiram a vila olímpica e tomaram 11 atletas de Israel como reféns, matando dois deles imediatamente. Seu objetivo era forçar a libertação de árabes presos em território israelense.
A Polícia conseguiu negociar a saída dos terroristas da vila e todos foram embarcados em helicópteros rumo ao aeroporto de Munique, de onde iriam de avião ao Egito. Na chegada ao terminal, contudo, os policiais tentaram libertar os reféns à força e a ação não terminou bem, com 18 mortos: todos os reféns, além de cinco terroristas, um policial e um piloto do helicóptero.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) realizou um memorial em homenagem aos mortos no Estádio de Munique, num ato que não contou com os representantes dos países árabes, os soviéticos e grande parte dos americanos.
Avery Brundage, presidente do COI, decidiu continuar os Jogos mesmo em meio ao clima de desânimo e tristeza que tomou conta da cidade e das delegações. Bastante abalado pelo acontecimento, ele acabaria deixando o cargo e dando lugar ao inglês Lord Killanin.
Ao mesmo tempo em que é lembrada pela maior tristeza da história dos Jogos Olímpicos, Munique se destacou pela façanha do nadador americano Mark Spitz, que venceu e bateu recordes mundiais em nada menos que sete provas - 100 metros e 400m livre, 100m e 200m borboleta e revezamentos 4x100m e 4x200m livre e 4x100m medley.
A grandiosa atuação de Spitz abafou outras participações merecedoras de destaque: a do atleta soviético Valery Borzov, ouro nos 100 metros e 200m, do finlandês Lasse Viren, primeiro colocado e recordista mundial nos 5.000m e 10.000m, e de Ulrike Meyfarth, da Alemanha Ocidental, que venceu o salto em altura feminino com apenas 16 anos e se tornou a participante de atletismo mais jovem a conseguir tal feito numa competição individual.
Também brilharam os nadadores Roland Matthes, da Alemanha Oriental, que levou o ouro nos 100 metros e 200m costas, e o australiano Shane Gould, que conquistou os 200m e 400m livres e 200m medley. Na ginástica, quem dominou foi a soviética Olga Korbut, vencedora na trave de equilíbrio, no solo e combinado por equipes, e prata nas paralelas.
Para o Brasil, foram apenas dois bronzes: Nelson Prudêncio voltou ao pódio no salto triplo, com uma marca de 17m05, e o judoca japonês naturalizado brasileiro Chiaki Ishii ficou em terceiro na categoria meio pesado.
Reinaldo Conrad e Burkhard Cordes quase repetiram o bronze da Cidade do México, mas terminaram em quarto na classe Flying Dutchmann de vela. Na Star, Jan Willen Aten e Joerg Bruder também ficaram logo atrás dos terceiros colocados. Outras quartas colocações foram obtidas nos revezamentos 4x100 metros e 4x400m livre, com a equipe formada por José Roberto Diniz Aranha, Paulo Becskehazy, Paulo Zanetti e Ruy Tadeu A. de Oliveira.
Os Jogos de Munique tiveram, ainda, a estréia do handebol masculino como esporte oficial, em ginásio (em 1936, a competição era disputada em campos de futebol e com 11 jogadores).
Uma grande polêmica da competição ocorreu na final do torneio de basquete masculino, entre os rivais Estados Unidos e União Soviética. O tempo regulamentar terminou com vantagem americana de 50 a 49, mas os soviéticos protestaram porque haviam pedido tempo a três segundos do fim. O árbitro brasileiro Renato Righetto interrompeu o lance e, ao lado do búlgaro Artenik Arabadjan, concluiu que ainda havia um segundo de jogo. Após a parada, a bola foi reposta e o tempo acabou, dando a vitória aos americanos. Mas o inglês William Jones, secretário-geral da Federação Internacional de Basquete (Fiba), invadiu a quadra e mandou que o tempo voltasse para três segundos, apesar de não ter nenhuma autoridade para tanto.
Os soviéticos saíram novamente com a bola e Belov, debaixo da tabela, recebeu passe longo e encestou, dando a vitória à URSS por 51 a 50. Revoltados, os americanos não compareceram à cerimônia de premiação e ainda perderam duas vezes em recursos decididos por um tribunal da Fiba.
MUNIQUE 1972 EM NÚMEROS
Países: 121 países.
Atletas: 7.134, sendo 6.075 homens e 1.059 mulheres.
Esportes: 22 (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, pólo aquático e saltos ornamentais -, esqui aquático - exibição, futebol, ginástica, handebol, hipismo, hóquei sobre grama, judô, levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei).
Provas: 195.
Brasil: 89 atletas, sendo 84 homens e cinco mulheres. O país participou em 13 esportes (atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esportes aquáticos - natação -, futebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei).
DESTAQUE DOS JOGOS: Mark Spitz (Modesto, EUA, 1950). O americano, considerado o melhor nadador de todos os tempos, venceu e bateu recordes mundiais em nada menos que sete provas nas piscinas de Munique - 100 metros e 400m livre, 100m e 200m borboleta e revezamentos 4x100m e 4x200m livre e 4x100m medley. Destes ouros, os dos 100m borboleta e do revezamento 4x200m foram conquistados em um intervalo de menos de uma hora. Sua façanha permanece imbatível.
ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: Mark Spitz (Modesto, EUA, 1950). O nadador americano não deu chance a ninguém, levando sete medalhas de ouro em apenas cinco dias: no primeiro, venceu os 200 metros borboleta e o revezamento 4x100m livre, e, no seguinte, os 200m livre. Após um dia de descanso, ganhou os 100m borboleta e o revezamento 4x200m livre, para fechar a quinta jornada com conquistas nos 100m livre e revezamento 4x100m medley.
QUADRO DE MEDALHAS
1º URSS. Ouro: 50; prata: 27; bronze: 22. Total: 99.
2º EUA. Ouro: 33; prata: 31; bronze: 30. Total: 94.
3º Alemanha Oriental. Ouro: 20; prata: 23; bronze: 23. Total: 66.
41º BRASIL. Bronze: 2 (Atletismo - salto triplo - Nelson Prudêncio)
(Judô - meio-pesado - Chiaki Ishii)
MUNIQUE EM 1972
Munique era conhecida como a cidade da cerveja, mas a partir de 1972 acabou eternamente lembrada como a cidade do massacre cometido pelo grupo palestino Setembro Negro, que seqüestrou e matou 11 atletas da delegação de Israel. Apesar disso, o profissionalismo ficou evidente na recepção dos alemães aos atletas e à imprensa, com direito a computador mostrando todos os resultados destes e dos Jogos passados.
Antes da competição, países da África negra, a Iugoslávia e os atletas negros americanos não queriam competir em Munique caso a Rodésia - atual Zimbábue - participasse. A balança se inclinou para o lado da maioria e o COI decidiu pela suspensão do país, que praticava o apartheid.
As provas foram disputadas no Reichsportfield, maior complexo esportivo visto até então e construído especialmente para estes Jogos. Ainda assim, as competições foram marcadas pela falta de esportividade, com brigas, declarações polêmicas e protestos em muitos esportes - sendo o principal deles na final do basquete masculino.
Munique também apresentou o primeiro mascote com um nome: o cachorro Waldi. A cidade, localizada ao pé dos Alpes e cortada pelo rio Isar, surgia como uma metrópole que era centro econômico não só da Alemanha, mas também de uma Europa em pleno desenvolvimento.
Fora da esfera olímpica, os Estados Unidos começavam a ensaiar sua retirada do Vietnã no ano em que seu presidente, Richard Nixon, realizou uma visita oficial à China e à União Soviética, quebrando o protocolo da Guerra Fria. Em janeiro ocorreu o chamado Domingo Sangrento, confronto entre tropas britânicas e manifestantes da Irlanda na cidade norte-irlandesa de Derry que deixou 13 mortos - seis menores.
JUAN A. MEDINA.
EFE REPORTAGENS.