Calendário dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008

  • Roma 1960

Nos Jogos da descolonização, um campeão africano com os pés descalços

No início da década de 60, quando se percebia um aumento nas tensões internacionais - era o auge da Guerra Fria e países africanos e asiáticos viviam intenso processo de descolonização européia - , a Itália teve sua chance de sediar os Jogos Olímpicos, 52 anos depois de deixar de recebê-los devido à erupção do vulcão Vesúvio.

Sob a bênção do Papa João XXIII, 83 países foram a Roma para a primeira edição do evento, que teve provas transmitidas pela televisão ao vivo, embora apenas para a Europa. O velho continente assistiu, perplexo, à vitória do etíope Abebe Bikila, que terminou a maratona em primeiro lugar correndo descalço.

De 25 de agosto a 11 de setembro, a capital italiana viu novamente a União Soviética superar os Estados Unidos no quadro de medalhas. O bloco brilhou nas competições, que tiveram como cenário diversas construções históricas - o Arco de Constantino marcou a chegada da maratona, por exemplo.

Os soviéticos terminaram com 103 medalhas no total, sendo 43 de ouro, enquanto os americanos ficaram com 34 douradas e 71 no geral. Um dos responsáveis pelo excelente desempenho da URSS foi o ginasta Boris Shakhlin, que conquistou quatro medalhas de ouro (barras paralelas, combinado por equipe, salto sobre o cavalo e cavalo com alças), duas de prata (combinado por equipes e argolas) e uma de bronze (barra fixa).

A também soviética Larisa Latynina, que já conquistara quatro ouros em Melbourne, venceu outros três (solo e combinados individual e por equipes). Ela ainda viria a ser a esportista com mais medalhas na história dos Jogos Olímpicos.

Do lado americano, destaque para o boxeador Cassius Clay, ouro na categoria meio-pesado, e a atleta americana Wilma Rudolph, conhecida como a "Gazela Negra", que conseguiu três vitórias no atletismo (100 e 200 metros e revezamento 4x100 metros).

Roma não viu nenhuma medalha dourada do Brasil. O bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva não chegou ao pódio, embora tenha sido ovacionado pela platéia por conta de sua contribuição ao salto triplo - depois dos Jogos, Adhemar descobriu que havia competido com tuberculose..

Dos 81 atletas enviados pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Wanda dos Santos foi a única mulher, competindo na prova dos 80 metros com barreiras, sem obter classificação para as finais.

O país acabou com duas medalhas de bronze. Uma delas foi conquistada pelo basquete, que repetiu o desempenho dos Jogos de Londres mandando à quadra uma equipe comandada por estrelas como Algodão, Amaury, Wlamir Marques e Mosquito. Foram seis vitórias em oito partidas, com derrotas apenas para Estados Unidos e União Soviética - que acabariam com o ouro e a prata, respectivamente.

A outra conquista veio na natação, com Manuel dos Santos terminando em terceiro lugar na final dos 100 metros livre. Com um tempo de 55s4, ele chegou dois centésimos depois do australiano John Devit, vencedor da prova e novo recordista olímpico.

Roma marcou a segunda participação do futebol brasileiro nos Jogos. Na estréia, a equipe venceu a Grã-Bretanha por 4 a 3 e, na rodada seguinte, goleou Taiwan por 5 a 0. Precisando apenas de um empate na última rodada para passar às semifinais, o time perdeu para os donos da casa por 3 a 1 e foi eliminado.

ROMA 1960 EM NÚMEROS

Países 83.

Atletas: 5.338, sendo 4.727 homens e 611 mulheres.

Esportes: 17 (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, pólo aquático e saltos ornamentais -, futebol, ginástica, hipismo, hóquei sobre grama, levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela).

Provas: 150.

DESTAQUE DOS JOGOS

Abebe Bikila (Jato, Etiópia, 1932-1973). O atleta etíope, integrante da guarda imperial de seu país, foi o primeiro da África negra a conquistar um ouro em Jogos Olímpicos, na maratona. Em Roma, ele correu descalço e estabeleceu um novo recorde mundial, de 2h15min16, chegando com 200 metros de vantagem em relação ao marroquino Rhadi Ben Abdesselem, segundo colocado. prova foi disputada entre a tarde e a noite para evitar o calor de 40 graus que assolava a capital italiana, com soldados carregando tochas.

A vitória do atleta foi muito significativa porque, pela primeira vez, a África negra enviou um campeão ao pódio no atletismo de longa distância, iniciando de vez uma tradição que permanece até hoje. Bikila utilizou-se de uma estratégia interessante para vencer: antes do início da competição, fez o percurso da maratona de táxi, anotando pontos importantes da prova. Durante esse estudo, notou que o obelisco de Axum, monumento retirado de seu país e levado à Itália, se situava a 1,5 quilômetro da linha de chegada, e decidiu que a partir dali apertaria o passo para vencer a prova.

ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS

Boris Shakhlin (Ishim, URSS, hoje Rússia, 1932). O ginasta soviético conquistou quatro medalhas de ouro (barras paralelas, combinado individual, salto sobre o cavalo e cavalo com alças), duas de prata (combinado por equipes e argolas) e um bronze (barra fixa). Foi seu melhor desempenho nos três Jogos de que participou.

QUADRO DE MEDALHAS

1º URSS. Ouro: 43; prata: 29; bronze: 31. Total: 103.

2º EUA Ouro: 34; prata: 21; bronze: 16. Total: 71.

3º Itália. Ouro: 13; prata: 10; bronze: 13. Total: 36.

39º BRASIL. Bronze: 2 (Natação - 100m livre - Manuel dos Santos Júnior)

(Basquete masculino - Amaury Antônio Passos, Antônio

Salvador Sucar, Carlos Domingos Massoni - Mosquito -,

Carmo de Souza - Rosa Branca -, Edson Bispo dos Santos,

Fernando Pereira de Freitas, Jathyr Eduardo Schall, Moysés

Blás, Waldemar Blatskauskas, Waldir Geraldo Boccardo,

Wlamir Marques e Zenny de Azevedo - Algodão. Técnico:

Togo Renan Soares - Kanela).

ROMA EM 1960

O mundo vivia a grande "descolonização". Mais de dez países obtiveram sua independência, especialmente na África, e 1960 foi o ano do Grande Terremoto do Chile, em Valdivia, o maior registrado na história moderna. O tremor modificou a geografia de aproximadamente 1.000 quilômetros de costa e foi seguido de um maremoto cuja onda cruzou o Pacífico até o Japão, extinguindo diversos povoados litorâneos.

A Igreja era contra a disputa dos Jogos por considerá-los uma herança pagã, mas a benção do popular Papa João XXIII aos atletas na Praça São Pedro foi um sinal de que os ânimos se acalmariam. Em Cuba, Fidel Castro iniciava um mandato que só terminaria realmente este ano.

A Guerra Fria viveu a época da chamada corrida espacial, com EUA e URSS enviando satélites e disputando quem primeiro chegaria à Lua - privilégio que acabou sendo conquistado pelos americanos.

Roma queria sediar os Jogos em grande estilo, e gastou muito dinheiro para isso. Um orçamento de US$ 30 milhões, quantia astronômica para a época, adquirida com a loteria esportiva, foi destinado à realização das obras necessárias para receber a competição.

A Cidade Eterna teve algumas construções históricas como palco de competições: as Termas de Caracala receberam a ginástica, enquanto o Arco de Constantino foi o marco de chegada da maratona. A magia e história da cidade deixaram deslumbradas as delegações. E a cidade, que acolheu a causa após certa resistência, sediou mais uma edição dos Jogos considerada modelo de organização.

A televisão levou toda a emoção dos Jogos aos espectadores que não estavam em Roma. A Europa acompanhou as provas ao vivo pela primeira vez, enquanto Estados Unidos e Japão puderam assistir às competições em videoteipes.

JUAN A. MEDINA

EFE REPORTAGENS

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