






Os Jogos de Seul serão recordados como palco da maior decepção do esporte olímpico: o doping do atleta canadense Ben Johnson, que venceu os 100 metros rasos com a impressionante marca de 9s79 e acabou tendo sua farsa descoberta. Pelo feminino, suspeitas semelhantes sempre pairaram sobre o desempenho da americana Florence Grittith-Joyner, ouro nos 100 e 200 metros rasos.
Após boicotes de Estados Unidos e União Soviética aos Jogos de Moscou e Los Angeles, respectivamente, as duas potências voltaram a se encontrar em Seul, na Coréia do Sul, com a volta do evento ao continente asiático. Os soviéticos competiam pela última vez em conjunto - após a queda do muro de Berlim, em 1989, e a separação da URSS, em 1991, as repúblicas passariam a competir individualmente.
Em sua última participação nos Jogos, a União Soviética superou os americanos mais uma vez: foram 55 medalhas de ouro contra 36 dos Estados Unidos, que amargaram a terceira colocação - a Alemanha Oriental, segunda colocada, obteve 37 primeiros lugares no que também seria sua despedida da competição como nação.
Desta vez, a ausência foi de Cuba. A ilha se solidarizou com a causa da Coréia do Norte, que pretendeu, sem sucesso, sediar os Jogos em conjunto com a Coréia do Sul, e não mandou representantes em sinal de protesto. Além dos dois países, Etiópia, Nicarágua e Albânia aderiram ao "miniboicote", que passou quase despercebido.
Foi batido o recorde de atletas, com 9.581 competidores representando 160 países e desfilando na cerimônia de abertura do evento, realizado de 17 de setembro a 2 de outubro.
Contudo, o fato mais marcante em Seul foi mesmo o doping do atleta canadense Ben Johnson. Ele utilizou o anabolizante estanozolol para melhorar a massa muscular e a capacidade respiratória, o que lhe rendeu o novo recorde mundial. A fraude foi descoberta num exame e a medalha de ouro acabou com Carl Lewis, que terminou a prova em 9s92.
A prata ficou com o britânico Linford Christie - que também foi suspeito por doping, mas que acabou absolvido -, enquanto o americano Calvin Smith herdou o bronze. Se a trama de Johnson não tivesse sido descoberta, a prova continuaria a ser conhecida como a "corrida do século". O canadense acabou banido do esporte por dois anos.
Embora o escândalo de Johnson tenha manchado os Jogos, outros atletas se destacaram. Christa Luding-Rothenburger, que competiu pela Alemanha Oriental, se tornou a primeira atleta a conquistar medalhas nos Jogos de Verão e Inverno no mesmo ano, faturando a prata no ciclismo em Seul e na patinação de velocidade em Calgary, no Canadá.
No tênis feminino, Steffi Graf faturou o ouro para a Alemanha Ocidental na chave de simples, enquanto o americano Greg Louganis foi bicampeão nas provas de trampolim e plataforma.
Apenas uma coadjuvante em sua Los Angeles natal quatro anos antes, Florence Griffith-Joyner (agora com o sobrenome de Al Joyner, campeão do salto triplo em 1984 e seu técnico - marido) dominou as provas dos 100 metros e 200m rasos, com direito a novo recorde mundial neste último, e ajudou seu país a vencer o revezamento 4x100m. Ela ainda levou a prata no revezamento 4x400m.
A delegação brasileira voltou da Coréia do Sul com seis medalhas. A única dourada veio nos tatames, com o judoca Aurélio Miguel vencendo cinco lutas na categoria meio pesado.
No futebol, o Brasil aproveitou novamente a liberação de profissionais pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que decidiu permitir a participação apenas daqueles que nunca haviam disputado Copas do Mundo. Esta geração formava uma equipe de respeito, com craques como o goleiro Taffarel, o volante Mazinho e os atacantes Bebeto e Romário, este iniciando sua carreira de sucesso na Europa após se transferir do Vasco ao PSV Eindhoven, da Holanda. Mas a equipe comandada pelo técnico Carlos Alberto Silva seria derrotada na final para a URSS por 2 a 1, com a decisão saindo apenas na prorrogação.
Na vela, o Brasil conquistou duas medalhas de bronze: na classe Star, com Torben Grael e Nelson de Barros Falcão, e na Tornado, obtida por Lars Grael e Clínio Freitas.
Joaquim Cruz, detentor do recorde olímpico desde Los Angeles, disputou novamente os 800 metros e ficou apenas com a prata, enquanto Róbson Caetano conquistou o bronze nos 200m, com o tempo de 20s4, e ficou em quinto lugar nos 100m, marcando 10s11.
A equipe masculina de basquete obteve o quinto lugar, enquanto a seleção feminina de vôlei ficou em sexto e a masculina, em quarto.
Outro atleta que se destacou foi o soviético Serguei Bubka, que conseguiu 5m90 no salto com vara e estabeleceu um novo recorde olímpico. Ainda, nos 200 metros, o americano Joe Deloach superou Carl Lewis, enquanto André Phillips bateu o grande favorito Edwin Moses nos 400m com barreiras.
O Quênia obteve excelente desempenho nas provas de média e longa distância: Paul Ereng surpreendeu Joaquim Cruz nos 800m, Peter Rono venceu os 1.500m, Julius Kariuki, os 3.000m com obstáculos e John Ngugi, os 5.000m.
Nas piscinas, só deu Matt Biondi. O americano ganhou sete medalhas: cinco de ouro (50 metros e 100m livre, além dos revezamentos 4x100m e 4x200m livre e 4x100m medley), uma prata (100m borboleta) e um bronze (200m livre). Entre as mulheres, destaque para Kristin Otto, da Alemanha Oriental, e suas seis medalhas de ouro: 50m e 100m livre, 100 m costas, 100 m borboleta e revezamentos 4x100m livre e medley.
Nos 100m borboleta masculino, Biondi foi superado por Anthony Nesty, do Suriname - primeiro nadador negro a vencer uma prova na história dos Jogos.
A ginástica, mais uma vez, foi dominada pelos soviéticos. Vladimir Artemov, com quatro ouros e uma prata, e Elena Shushunova, respectivamente com três e uma, foram os destaques. A URSS também faturou o ouro no basquete masculino, com os EUA amargando o bronze.
SEUL 1988 EM NÚMEROS
Países: 159.
Atletas: 8.391, sendo 6.197 homens e 2.194 mulheres.
Esportes: 23 (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, nado sincronizado, pólo aquático e saltos ornamentais -, futebol, ginástica, handebol, hipismo, hóquei sobre grama, judô, levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, remo, tiro com arco, tiro esportivo, tênis, tênis de mesa, vela e vôlei).
Provas: 237.
Brasil: 170 atletas, sendo 135 homens e 35 mulheres. O país participou de 19 esportes (atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, nado sincronizado e saltos ornamentais -, futebol, ginástica - artística -, hipismo, judô, levantamento de peso, lutas, remo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei).
DESTAQUE DOS JOGOS: Florence Griffith-Joyner (Los Angeles, EUA, 1959-1998). Quatro anos depois de uma atuação apenas discreta em sua Los Angeles natal, Florence Griffith chegou a Seul casada com Al Joyner, campeão do salto triplo em 1984 e agora seu técnico. Graças às suas orientações, ela dominou as provas dos 100 metros e 200m, com direito a novo recorde mundial neste último, e ajudou seu país a vencer o revezamento 4x100m. Ela ainda levou a prata no revezamento 4x400m.
ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: Matt Biondi (Palo Alto, EUA, 1965). O nadador americano não deu chance aos adversários e ganhou sete medalhas em Seul: cinco de ouro (50 metros e 100m livre, além dos revezamentos 4x100m e 4x200m livre e 4x100m medley), uma prata (100m borboleta) e um bronze (200m livre).
QUADRO DE MEDALHAS
1º URSS. Ouro: 55; prata: 31; bronze: 46. Total:132.
2º Alemanha Oriental. Ouro: 37; prata: 35; bronze: 30. Total: 99.
3º EUA. Ouro: 36; prata: 31; bronze: 27. Total: 94.
24º BRASIL. Ouro: 1 (Judô - meio-pesado - Aurélio Miguel)
Prata: 2 (Atletismo - 800m masculino - Joaquim Cruz)
(Futebol - Ademir Roque Kaeser, Aloísio Pires Alves, Jorge Luiz
Andrade Silva - Andrade -, André Cruz, João Batista Viana
Santos - Batista -, José Roberto Gama Oliveira -Bebeto -,
Hamilton de Souza - Careca -, Edmar Bernardes dos Santos,
Geovani Silva, Sérgio Donizetti Luiz - João Paulo -, Jorge de Amorim Campos - Jorginho -, Luís Carlos Winck, Iomar do Nascimento - Mazinho -, Mílton Luiz de Souza Filho, José Ferreira Neto - Neto -, Romário de Souza Faria - Romário - , Claudio André Taffarel - Taffarel - e José Carlos C. Araújo - Zé Carlos. Técnico: Carlos Alberto Silva.).
Bronze: 3 (Atletismo - 200 metros - Robson Caetano)
(Vela - Star - Nelson Falcão e Torben Grael)
(Vela - Tornado - Clínio Freitas e Lars Grael)
SEUL EM 1988
Reconstruída quase que totalmente após a Segunda Guerra Mundial, Seul é o centro econômico e político da Coréia do Sul, onde a cultura ancestral do país e edifícios de design de ponta convivem pacificamente. Dividida em duas zonas pelo rio Han, a capital sul-coreana oferece autênticas maravilhas arquitetônicas antigas, fruto da dinastia Joseon.
Em 1988, quando abriu as portas para receber a família olímpica, a cidade era regida pelo lema "harmonia e progresso". O processo de modernização da economia, iniciado na década de 1970, trouxe um crescimento da produção nacional em até 8% ao ano.
No ano dos Jogos, as exportações rendiam mais de US$ 60 bilhões ao país, que acabara de realizar as primeiras eleições livres e democráticas para a escolha de um novo presidente após ser governado por sucessivas ditaduras militares desde 1948.
Diante do enfraquecimento da União Soviética e a abertura originada por Gorbatchov, o mundo socialista começava a ruir, com a Guerra Fria dando lugar a uma nova configuração mundial.
Embora a convivência entre americanos e soviéticos voltasse a ser pacífica oito anos depois de não se encontrarem nos Jogos, o clima entre as duas Coréias era muito tenso - o que gerou o "miniboicote".
Em 1988, a organização de defesa do meio ambiente Greenpeace alertava para os riscos de degradação ambiental da Antártica, enquanto Iraque e Irã encerravam um conflito iniciado no ano dos Jogos de Moscou. Ainda assim, o espírito esportivo parece ressurgir de forma notável.