







Após o fracasso dos Jogos de Atlanta, a cidade australiana de Sydney tinha a missão de realizar um grande evento. E conseguiu, justificando a famosa frase do espanhol Juan Antonio Samaranch em seu último evento à frente do Comitê Olímpico Internacional (COI): "Foram os melhores Jogos de todos os tempos".
Os que queriam esquecer Atlanta o mais rapidamente possível nem precisaram esperar muito. Na segunda edição dos Jogos em território australiano, Sydney reuniu organização, competição e emoção em grandes doses. Mesmo diante dos escândalos de corrupção no Comitê Olímpico Internacional (COI), a competição foi uma grande festa.
O mundo viu o surgimento de novas estrelas como os americanos Maurice Greene e Marion Jones - que em 2007 confessou ter competido dopada -, o nadador holandês Pieter van den Hoogenband, e o fenômeno Ian Thorpe, de apenas 17 anos de idade, que fez a festa da torcida da casa com três ouros e duas pratas nas piscinas.
Foram os últimos Jogos com Samaranch à frente do COI. Desta vez ele parecia estar certo: o evento foi rentável, com lucro de US$ 1,3 bilhão, e, apesar do fuso horário, aproximadamente 3,7 bilhões de espectadores assistiram às competições, de 15 de setembro a 1º de outubro, pela televisão - 700 milhões a mais que em Atlanta.
Sydney bateu novo recorde de participação, com 10.651 esportistas e 199 países. O número de provas chegou aos 300. Novamente, os Estados Unidos acabaram com a liderança no quadro de medalhas, com 94 conquistadas (38 de ouro, 24 de prata e 32 de bronze), seguidos de perto por Rússia (88 no total e 38 douradas), China e uma surpreendente Austrália na quarta colocação.
Para o Brasil, os Jogos não foram tão bons assim. A marca histórica de 15 medalhas - e três ouros -, obtida em Atlanta, parece ter atrapalhado os atletas do país, que ficaram com apenas seis pratas, além de igual número de bronzes. De qualquer forma, foi o segundo melhor desempenho na história do evento em quantidade de medalhas.
No judô, um jovem Thiago Camilo, de apenas 18 anos, conquistou a prata na categoria leve, enquanto Carlos Honorato também acabou em segundo, mas entre os médios. No revezamento 4x100 metros do atletismo, Vicente Lenílson, Edson Luciano, André Domingos e Claudinei Quirino faturaram uma prata com sabor de ouro, perdendo apenas para os favoritíssimos americanos.
Mantendo a tradição no vôlei de praia, Adriana Behar e Shelda foram à final feminina, mas caíram diante das australianas Natalie Cook e Kerri Pottharst por 2 sets a 0 (12-11 e 12-10). Já Adriana Samuel e Sandra Pires superaram as japonesas Takahashi e Saiki na decisão do terceiro lugar e ficaram com o bronze.
Entre os homens, Zé Marco e Ricardo perderam o ouro para os americanos Eric Fonoimoana e Dain Blanton por 2 sets a 0 (12-11 e 12-9).
Até mesmo Robert Scheidt, ouro em Atlanta, acabou com a prata na classe Laser, perdendo o primeiro lugar para o britânico Ben Ainslie na última regata. Na Star, Torben Grael e Marcelo Ferreira ficaram com o bronze.
Sem Paula e Hortência, o basquete feminino brasileiro levou o bronze ao bater a Coréia do Sul por 84 a 73. O terceiro lugar também foi a colocação final do vôlei feminino, comandado por Bernardinho, ao bater os EUA e se recuperar de uma derrota para Cuba na semifinal.
O futebol, comandado por Vanderlei Luxemburgo, decepcionou novamente. Sem jogadores acima de 23 anos, uma opção do treinador, a seleção caiu ainda nas quartas-de-final, para a futura campeã Camarões, pelo placar de 2 a 1.
Na natação, Fernando Scherer, Gustavo Borges, Carlos Jayme e Edvaldo Valério mantiveram a tradição brasileira com o bronze no revezamento 4x100m livre.
A última medalha, de bronze veio na prova dos saltos por equipe do hipismo, em momento de grande decepção para o esporte brasileiro: o cavaleiro Rodrigo Pessoa, melhor do mundo à época, só precisava zerar o percurso para garantir a vitória, mas o cavalo Baloubet du Rouet refugou, recusando-se a saltar, e a equipe acabou em terceiro. Completaram o time Álvaro Miranda Neto, o Doda, André Johannpeter e Luiz Felipe de Azevedo.
O grande destaque destes Jogos foi a americana Marion Jones, que fez história ao obter cinco medalhas numa mesma edição - algo que nem mesmo lendas como Jesse Owens conseguiram. Em sua primeira participação olímpica, ela ficou com o ouro nos 100 metros e 200m livre e revezamento 4x400m livre, além do bronze no salto em distância e no revezamento 4x100m livre. Sete anos depois, em outubro de 2007, ela confessou que atuou dopada e perdeu todas as medalhas.
Outros grandes nomes foram o da aborígine australiana Cathy Freeman, ouro nos 400 metros, e dos americanos Maurice Greene, ouro nos 100m e revezamento 4x100m - que devolveu aos EUA o reinado da velocidade 12 anos depois - e Michael Johnson, primeiro lugar nos 100m. Greene e Johnson não protagonizaram o esperado duelo nos 200m porque ambos se machucaram nas eliminatórias.
Quem brilhou nas piscinas foi Ian Thorpe, ganhando três ouros (400 metros livre, incluindo novo recorde mundial, e revezamentos 4x200m e 4x100m livre) e duas pratas (revezamento 4x100m medley e 200m livre). O holandês Pieter Van den Hoogenband obteve o primeiro lugar nos 100m e 200m livres e ficou com o bronze nos 50mlivre e revezamento 4x200m livre.
Inge de Brujin, compatriota de Van den Hoogenband, não ficou atrás. Com 27 anos e o entusiasmo de uma principiante, ela melhorou seus próprios recordes mundiais nos 50 metros livre (24s23), 100m livre (53s77) e 100m borboleta (56s61), vencendo em todas estas provas.
O boxeador cubano Félix Savón alcançou seu terceiro ouro olímpico na categoria peso pesado, enquanto a alemã Birgit Fischer entrou para a história ao conquistar duas medalhas de ouro na canoagem e ser a primeira mulher a obter premiações com diferença de 20 anos - a primeira havia sido em Moscou. No remo, o britânico Steven Redgrave tornou-se o primeiro pentacampeão olímpico da modalidade.
Entre as decepções, o ucraniano Serguei Bubka voltou para casa sem tentativas válidas no salto em altura, e o russo Alexander Popov perdeu a chance de ser tricampeão olímpico nos 100 metros livre ao perder o ouro para Van den Hoogenband.
SYDNEY 2000 EM NÚMEROS
Países: 199, com quatro competidores individuais.
Atletas: 10.651, sendo 6.582 homens e 4.069 mulheres.
28 esportes (atletismo, badminton, basquete, beisebol, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, nado sincronizado, pólo aquático e saltos ornamentais -, futebol, ginástica, handebol, hipismo, hóquei sobre grama, judô,
levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, remo, softbol, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, tiro com arco, triatlo, vela e vôlei)
Provas: 300.
Brasil: 201 atletas, sendo 111 homens e 94 mulheres. O país participou de 20 esportes (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, natação sincronizada e saltos ornamentais -, futebol, ginástica - artística e rítmica -, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, taekwondo, tênis, tênis de mesa, triatlo, vela e vôlei - vôlei e vôlei de praia).
DESTAQUE DOS JOGOS: Ian Thorpe (Sydney, Austrália, 1982). O nadador australiano, de 17 anos, ganhou três medalhas de ouro (400 metros livre, incluindo novo recorde mundial, e revezamentos 4x200m e 4x100m livre) e duas de prata (revezamento 4x100m medley e 200m livre).
ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: Ian Thorpe (Sydney, Austrália, 1982). O nadador australiano, de 17 anos, ganhou três ouros (400 metros livre, incluindo novo recorde mundial, e revezamentos 4x200m e 4x100m livre) e duas pratas (revezamento 4x100m medley e 200m livre). A atleta americana Marion Jones também ganhou cinco medalhas, mas sete anos depois confessou que atuou dopada e as perdeu por decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI).
QUADRO DE MEDALHAS
1º EUA. Ouro: 38; prata: 24; bronze: 32. Total: 94.
2º Rússia. Ouro: 32; prata: 28; bronze: 28. Total: 88.
3º China. Ouro: 28; prata: 16; bronze: 15. Total: 59.
52º BRASIL. Prata: 6 (Atletismo - revezamento 4x100m - André Domingos, Claudinei
Quirino, Edson Luciano Ribeiro e Vicente Lenilson)
(Judô - leve - Tiago Camilo)
(Judô - médio - Carlos Honorato)
(Vela - Laser - Robert Scheidt)
(Vôlei de praia feminino - Adriana Behar e Shelda)
(Vôlei de Praia masculino - Ricardo e Zé Marco)
Bronze: 6 (Basquete feminino - Adriana Aparecida dos Santos, Adriana
Moisés Pinto - Adrianinha -, Alessandra dos Santos de Oliveira,
Cíntia Silva dos Santos - Cíntia Tuiú -, Cláudia Maria das Neves
- Claudinha -, Helen Cristina dos Santos Luz, Ilisaine Karen
David - Zaine -, Janeth dos Santos Arcain, Kelly Silva dos
Santos, Lilian Cristina Gonçalves, Marta de Souza Sobral e Silvia
Andréa dos Santos Luz - Silvinha. Técnico: Miguel Ângelo da
Luz).
(Hipismo - saltos por equipe - Álvaro Affonso de Miranda Neto -
Doda -, André Johannpeter, Luiz Felipe Azevedo e Rodrigo
Pessoa).
(Natação - revezamento 4x100m livre - Carlos Jayme, Edvaldo
Valério, Fernando Scherer - Xuxa - e Gustavo Borges)
(Vela - Star - Marcelo Ferreira e Torben Grael).
(Vôlei feminino - Elisângela Oliveira, Érika Coimbra, Hélia
Rogério de Souza - Fofão -, Janina Conceição, Karin Rodrigues,
Kátia Lopes, Kely Fraga, Leila Gomes de Barros, Raquel Silva,
Ricarda Lima, Virna Dias e Walewska Oliveira).
(Vôlei de Praia feminino - Adriana Samuel e Sandra Pires)
SYDNEY EM 2000
Na virada do século XX ao XXI, Sydney recebeu a missão de organizar os Jogos Olímpicos de ano 2000. Era a segunda vez que o evento ocorreria na Austrália e o mundo do esporte esperava um esforço maior após a edição de 1956, em Melbourne. Os australianos não decepcionaram: as lembranças ruins de Atlanta passaram rapidamente, tornando Sydney um exemplo de organização. O sistema de transporte para os atletas, bastante eficiente.
Os quase quatro milhões de habitantes da cidade receberam muito bem o evento - o único incômodo foi o calor registrado durante os Jogos.
Ao redor do mundo, o republicano George W. Bush foi eleito à Presidência dos Estados Unidos ao derrotar o democrata Al Gore numa duvidosa contagem de votos na Flórida. O Timor-Leste, que acabara de se tornar independente da Indonésia, iniciava um projeto de construção de uma nova nação com o brasileiro Sergio Vieira de Mello à frente, designado pela própria Organização das Nações Unidas (ONU). Vieira de Mello morreu em 2003, no Iraque, vítima de um atentado após a guerra que tirou Saddam Hussein do poder e levou as tropas americanas ao país.
JUAN A. MEDINA.
EFE REPORTAGENS.