





Os Jogos chegam à Ásia pela primeira vez, com 24 anos de atraso. Tóquio seria sede da edição de 1940, mas a competição acabou suspensa por conta da Segunda Guerra Mundial, que ainda trazia seqüelas ao povo e cultura japonesas.
Ao ser anunciada como sede, superando Detroit (Estados Unidos), Viena (Áustria) e Bruxelas (Bélgica), Tóquio se dedicou ao máximo para mostrar que o país se recuperava da Grande Guerra da melhor forma possível.
Os americanos, seguindo o que vinham fazendo com o Japão desde o fim da Segunda Guerra, arcaram com recursos para o financiamento do evento, em especial a construção de ginásios e complexos esportivos e a melhoria do transporte público da cidade. Toda a preparação, em grande estilo, fez com que os Jogos de Tóquio, de 10 a 24 de outubro, ficassem marcados como os primeiros da modernidade.
Além dos atletas, outro personagem ganhou destaque: a tecnologia. Durante a competição, os japoneses utilizaram o primeiro computador capaz de coordenar todas as provas, apontar vencedores em chegadas duvidosas, registrar tempos com centésimos e distribuir resultados das provas em poucos minutos.
As novidades favoreceram também quem não estava na cidade: graças ao trabalho dos japoneses e ao satélite Telstar, lançado ao espaço pelos Estados Unidos em 1962, a rede de televisão "NHK" transmitiu nada menos que 167 horas de competições ao vivo para Ásia, Europa e América do Norte - sendo 30% em cores.
No âmbito esportivo, a maior recompensa para o Japão foi ver o país terminar na terceira colocação geral, atrás apenas das potências União Soviética e Estados Unidos. Aliás, este duelo acabou com vitória dos soviéticos no geral, com 96 medalhas a 90. Contudo, os americanos ficaram em primeiro lugar porque faturaram medalhas de ouro (36 a 30), quesito oficial de classificação estabelecido pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
O Brasil enviou 67 atletas à competição, dos quais apenas uma mulher. O basquete masculino faturou o terceiro bronze, segundo seguido, aliando a experiência dos que haviam integrado o grupo em Roma - como Amaury e Wlamir Marques - e a disposição dos novatos, como Ubiratan. A campanha contou com apenas três derrotas em nove jogos (na estréia, para os peruanos, e contra Estados Unidos e União Soviética, primeiro e segundo colocados).
Em sua primeira participação, o vôlei brasileiro ficou em sétimo lugar, com uma equipe que tinha o hoje presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, entre seus componentes. O futebol, por sua vez, decepcionou: o Brasil não foi além de um empate em 1 a 1 com a República Árabe Unida, bateu a Coréia do Sul por 4 a 0 e encerrou sua participação perdendo para a Tchecoslováquia por 1 a 0.
A única mulher da delegação foi Aída dos Santos, que chegou sem treinador e conseguiu o quarto lugar no salto em altura, com 1m74. Ela foi auxiliada pelo peruano Roberto Abugatas, o que fez melhorar seu desempenho. O hipismo teve Nelson Pessoa Filho, pai de Rodrigo Pessoa (bronze nos Jogos de 1996, em Atlanta), que terminou em quinto lugar.
No geral, o grande vencedor foi o nadador americano Don Schollander, que quase desistiu dos Jogos por conta de maus resultados anteriores à sua preparação, mas voltou da capital japonesa com quatro ouros (100 metros e 400m livre e revezamentos 4x100m e 4x200 m livre).
A soviética Larisa Latynina também voltaria a brilhar em sua terceira edição dos Jogos. Ela conquistou dois ouros (combinado por equipes e solo) e igual número de pratas e bronzes, encerrando a carreira olímpica com nada menos que 18 medalhas - nove de ouro, cinco de prata e quatro de bronze - e escrevendo seu nome como a atleta mais premiada da história da competição.
Outros esportistas conseguiram sua terceira medalha de ouro consecutiva: o americano Al Oerter, no lançamento de disco, a australiana Dawn Fraser, nos 100m livres da natação; o soviético Vyacheslav Ivanov, na prova do skiff simples do remo, e o alemão Hans-Günter Winkler, nos saltos por equipe do hipismo.
Tóquio viu também outra vitória e recorde mundial do etíope Abebe Bikila na maratona, mas desta vez calçando sapatilhas por imposição da organização. O detalhe é que ele havia se submetido a uma cirurgia para a retirada do apêndice menos de cinco semanas antes da prova.
TÓQUIO 1964 EM NÚMEROS
Países: 93.
Atletas: 5.151, sendo 4.473 homens e 678 mulheres.
Esportes: 19 (atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, esportes aquáticos - natação, pólo aquático e saltos ornamentais - futebol, ginástica, hipismo, hóquei sobre grama, iatismo, judô, levantamento de peso, lutas, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vôlei).
Provas: 163.
Brasil: 68 atletas, sendo 67 homens e uma mulher. O país participou em dez esportes (atletismo, basquete, boxe, futebol, hipismo, judô, esportes aquáticos - natação e pólo aquático -, pentatlo moderno, vela e vôlei).
DESTAQUE DOS JOGOS: Larisa Latynina (Kherson, URSS, hoje Ucrânia, 1934). Em sua última participação nos Jogos, a ginasta soviética conquistou dois ouros (combinado por equipes e solo) e igual número de segundo e terceiro lugares. Ela deixou as disputas olímpicas com 18 medalhas - nove de ouro, cinco de prata e quatro de bronze -, conquistadas nesta e nas edições de 1956 e 1960, escrevendo seu nome como a atleta mais premiada da história.
ESPORTISTA COM MAIS MEDALHAS: Don Schollander (Charlotte, EUA, 1946). O nadador americano quase desistiu dos Jogos por conta de maus resultados anteriores à sua preparação, mas deixou a capital japonesa com quatro ouros (100 metros e 400 livre e revezamentos 4x100m e 4 x 200 m livre).
QUADRO DE MEDALHAS
1º EUA. Ouro: 36; prata: 26; bronze: 28. Total: 90.
2º URSS. Ouro: 30; prata: 31; bronze: 35. Total: 96.
3º Japão. Ouro: 16; prata: 5; bronze: 8. Total: 29.
35º BRASIL. Bronze 1 (Basquete masculino - Amaury Antônio Passos, Antônio Salvador Sucar, Carlos Domingos Massoni - Mosquito -, Carmo de Souza - Rosa Branca -, Edson Bispo dos Santos, Freidrich Wilhelm Braun - Fritz -, Jatyr Eduardo Schall, José Edvar Simões, Sérgio Toledo Machado - Sérgio Macarrão, Ubiratan Pereira Maciel, Vitor Mirshauswka e Wlamir Marques (128). Técnico: Renato Brito Cunha.
TÓQUIO EM 1964
Em 1964, Tóquio era uma cidade que ensaiava os primeiros passos para se tornar a grande capital da Ásia. A população da Terra do Sol Nascente tinha consciência do fiasco por não ter sediado o evento em 1940 e abraçou energicamente a missão de ser palco dos primeiros Jogos Olímpicos realizados na Ásia.
O Japão, que já tinha a maior renda per capita do continente asiático no ano de realização dos Jogos - com a economia crescendo em 10% ao ano - investiu US$ 3 bilhões para sediar o evento. A cidade foi arrumada para a ocasião e o povo foi instruído pelo governo a sempre sorrir aos turistas.
Não foram a Tóquio as delegações da África do Sul, excluída em razão do apartheid - vale lembrar que o país levara a Roma uma delegação composta apenas por brancos -; China, pela invasão a Taiwan; Indonésia, por boicotar Israel nos Jogos Asiáticos; e a Coréia do Norte, rival dos japoneses.
Os japoneses lembraram os horrores da guerra num emocionante ato na cerimônia de abertura: o responsável por acender a pira olímpica foi o jovem Yoshinori Sakai, nascido no dia 6 de agosto de 1945 em Hiroshima - data e local da explosão da primeira bomba atômica lançada sobre um alvo de guerra.