Cobertura completa sobre os Jogos Olímpicos de Pequim 2008

Carrasca cubana relembra 'barraco' com brasileiras e quer fazer as pazes

gazeta_press - Sex, 21 Ago - 09h37

Andar acanhado, olhar tímido, voz baixa. Maior contratação do voleibol brasileiro para a temporada 2009/2010, Regla Bell nem de longe demonstra o jeito intimidador que virou marca registrada das carrascas cubanas durante a década de 1990. No esforço para se integrar às companheiras de São Caetano/Blausiegel, a atacante mais lembra uma juvenil que ainda busca entender o ambiente no qual acabou de chegar que uma das jogadoras mais vitoriosas da história da modalidade.

Só de medalhas de ouro olímpicas, são três. Títulos mundiais, dois. O desapego ao aspecto material, porém, começa com o próprio destino das condecorações nos Jogos, ao estilo comunista: uma delas está na casa da mãe, em Cuba, enquanto as outras duas ficam expostas em um museu na Ilha. "Não sinto saudade nem vontade de tocá-las. Se minha mãe está com elas, já fico tranquila", garante.

Além das medalhas, Regla Bell traz do passado a lembrança de uma rivalidade que virou caso de polícia: com jogadoras de temperamento forte, Brasil e Cuba travaram embates explosivos, dentro e fora das quadras. Ignorando qualquer tipo de fair play ou espírito esportivo, as duas seleções se acostumaram a trocar provocações e nas Olimpíadas de Atlanta protagonizaram um 'barraco' que envolveu xingamentos, bate-boca entre treinadores, dedos na cara, unhadas, puxões de cabelo, socos e chutes.

[imagem=7155#alinhamento=dir#credito=285#legenda=Regla Bell participou das batalhas com a seleção brasileira na década de 1990]

Treze anos depois, a atleta classifica o incidente nos Estados Unidos como o momento mais tenso da longa carreira. Apesar de as próprias brasileiras admitirem que Bell era uma das mais tranquilas da geração que contava ainda com Regla Torres, Magaly Carvajal e Mireya Luis, a nova jogadora do São Caetano é constantemente questionada sobre o tema. "Em todas as entrevistas aqui, me perguntam sobre Atlanta", brinca a atleta. "Mas isso não me incomoda", assegura.

Regla só se incomoda quando é confundida com a xará Torres. Tão boa de briga quanto dentro da quadra, a meio-de-rede era uma das primeiras a se apresentar no momento de provocar as brasileiras. Após o ponto que sacramentou a eliminação da equipe de Bernardinho em Atlanta, Regla Torres não desperdiçou a chance de gritar na cara das sul-americanas, fazendo Ana Moser quase perder a cabeça e iniciando uma confusão generalizada, que se estendeu até o vestiário.

Os nomes iguais, porém, provocaram confusão e até hoje Bell é apontada como aquela que iniciou todo o 'barraco'. "Em momento nenhum estive metida na briga. Eu, na verdade, estava afastando minhas companheiras", apressa-se a esclarecer a atacante, embasada pelas imagens da TV. Apesar do discurso pacifista, ela não resiste a uma pequena ironia quando instigada a falar sobre aquele dia. "O jogo acabou e acho que o Brasil não superou que a gente ganhou", afirma.

Nesta entrevista à GE.Net, Regla Bell, entretanto, deixou clara a sua vontade de rever Hilma, Marcia Fu e Ana Moser para fazer as pazes. Ela falou ainda de sua relação com Cuba e manifestou esperança no futuro da Ilha após ascensão de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos. Admitiu que aquele time realmente passava uma imagem de arrogância e antipatia, mas disse não temer a reação dos torcedores no Brasil, onde garante estar se adaptando muito bem, apesar de ainda não conseguir andar sozinha. "Com muito esforço, guardo o nome das ruas", brinca a atleta, que a cada dia é buscada em casa por um membro do time para comparecer aos treinos.

GE.Net - O que você está achando dos seus primeiros dias no Brasil? É muito diferente do que você esperava ou a adaptação está sendo fácil?
Bell -
Minha vida está muito boa, estou me adaptando muito bem. Eu pensava que seria mais ou menos assim mesmo, nunca achei que seria difícil para me acostumar. O Brasil é bem parecido com Cuba, principalmente no clima. Na região das ilhas (Canárias) da Espanha onde eu jogava (no Las Palmas Cantur), também faz calor e um pouco de frio. Estou vivendo com meu marido e minha filha. Eles também estão gostando muito, inclusive já saíram para caminhar bastante perto da nossa casa. Mas eu ainda não consigo chegar sozinha nos treinamentos.

GE.Net - Depois de jogar contra a Fofão várias vezes na década de 1990, agora ela vai levantar as bolas para você cortar. Como está sendo esse reencontro?
Bell -
Para mim, é um orgulho. Já tinha visto ela jogar na Espanha há dois anos. Ela me trata muito bem e a coisa está evoluindo bem. Eu me entendo bem com todas as jogadoras, principalmente com a Fofão e com a Ana Maria. Joguei na Espanha e convivi com jogadoras brasileiras, então entendo bem o português. Não tenho problemas para ouvir, mas para falar, acho muito difícil (sorri e balança a cabeça negativamente).

GE.Net - Morando aqui e treinando com a Fofão, certamente você deve estar se lembrando dos jogos históricos entre Cuba e Brasil na década de 1990...
Bell -
Sim... Não é que tenha me lembrado, aquilo foi uma etapa de uma Olimpíada. Mas isso ficou para trás. Não tem nada de rancor nem nada. Me lembro da vitória do meu país, mas do que aconteceu naquela confusão, não.

GE.Net - Cuba e Brasil construíram uma rivalidade muito grande nessa época. Como era o clima no vestiário de vocês antes de enfrentar as brasileiras?
Bell -
A gente entrava sempre com o pensamento de vencer, com força e concentração máximas. Sabíamos que o Brasil era um rival forte e que tinha o mesmo temperamento que a gente. Nos programávamos para jogar quase à perfeição.

GE.Net - Então, vamos falar um pouco sobre esse assunto. Depois de 13 anos daquela briga, quais são suas principais recordações?
Bell -
O jogo acabou e acho que o Brasil não superou que a gente ganhou. Claramente, a Mireya e a Regla começaram a fazer sinais feios e coisas feias. Então, houve a confusão toda.

[imagem=7156#alinhamento=esq#credito=454#legenda=Enfurecida, brasileira Márcia Fu põe o dedo na cara das cubanas após perder semifinal]

GE.Net - Algumas notícias da época relatam que você foi uma das causadoras do tumulto. É verdade ou houve uma confusão com sua xará Regla Torres?
Bell -
Houve uma confusão, porque eu na verdade estava afastando minhas companheiras para tentar evitar a confusão, mas em nenhum momento eu estava metida na briga. A gente já tinha ganhado mesmo, então não tinha motivo nenhum para brigar.

GE.Net - Dizem que a briga mesmo aconteceu dentro dos vestiários...
Bell -
Sim, a confusão começou de novo na saída da quadra, porque o corredor para chegar aos dois vestiários era o mesmo. Mas... (4 segundos de silêncio) foi muito feio, muito feio. Inclusive até os treinadores discutiram com palavras muito fortes. O Bernardinho com o Eugênio (Lafita, técnico) e com o (Antônio) Perdomo (auxiliar).

GE.Net - No dia seguinte, as brasileiras foram treinar para disputar a medalha de bronze com cara de choro. A Ana Paula, inclusive, reclamou de "chutes, murros e arranhões" e quase chorou novamente durante a entrevista. Como foi o dia seguinte de vocês?
Bell -
Nosso dia seguinte foi normal. O jogo contra o Brasil foi quase uma final, mas ainda tínhamos que nos preparar para a decisão (contra a China). Depois, na Vila Olímpica, percebemos que as brasileiras estavam um pouco tristes, um pouco chorosas. Elas sentiram de verdade a derrota.

GE.Net - Vocês sabiam que tinham a capacidade de irritar a desestabilizar as brasileiras emocionalmente. A seleção cubana usava isso como arma durante os jogos?
Bell -
Não, não, não. Em nenhum momento, em nenhum momento. A gente sabia que o Brasil também viria forte, que lutaria em todos os momentos, que seria um rival forte para nós. As brasileiras tinham o mesmo caráter e a mesma forma de jogar que a gente, com o mesmo sangue nas veias. Sabíamos que seria um jogo bem difícil por causa do nível das duas equipes.

GE.Net - Na primeira fase das Olimpíadas de Atlanta, Cuba perdeu para o Brasil (3 a 0) e para a Rússia (3 a 1). O que aconteceu nesses dois jogos?
Bell -
Perdemos por pontos decisivos. Foram jogos bem difíceis, que qualquer um podia ganhar e nós acabamos perdendo. Na segunda chance, nos propusemos a mudar e corrigir as falhas que tivemos.

Reprodução
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            RELEMBRE O 'BARRACO' EM ATLANTA

Duas principais seleções da época, Brasil e Cuba fizeram uma semifinal olímpica tensa e marcada por provocações. Ao término da partida, Regla Torres e Mireya Luis não se conformaram em comemorar a vitória por 3 a 2 apenas com suas próprias companheiras e "desabafaram" zombando das brasileiras.

Irritada com a atitude das caribenhas, Ana Moser se dirigiu à rede com o dedo em riste. Também para tirar satisfações, Marcia Fu invadiu a quadra adversária. Uma briga maior só foi evitada porque técnicos, juízes e dirigentes intervieram para separar as atletas. Enquanto as brasileiras choravam, as cubanas pulavam de alegria sob as vaias da torcida - Raiza O'Farrill (foto) chegou a ser flagrada fazendo gestos obscenos para o público.

Para piorar, os times voltaram a se encontrar no pequeno corredor de acesso aos vestiários, onde o desentendimento chegou às agressões físicas, já que apenas dois seguranças não foram suficientes para segurar as enfurecidas atletas. Bernardinho e o técnico cubano, Eugenio Lafita, além do assistente Antônio Perdomo, também não conseguiram manter a calma e discutiram rispidamente.

"Eu dei sim, dei empurrão, joguei toalha na cara delas porque acho também que a gente não merece sair por baixo. Me deram um arranhão, mas eu devolvi um pontapé", admitiu Marcia Fu no dia seguinte ao 'barraco'. Com os ânimos acalmados, as duas equipes venceram seus compromissos finais nos EUA: no tie-break, o Brasil passou pela Rússia e ficou com o bronze, enquanto as cubanas derrotaram a China por 3 a 1 e garantiram o ouro.

                                         RAIO-X
Nome: Regla Maritza Bell Mackenzie
Posição: Atacante
Data de Nascimento: 06/07/1970
Local de Nascimento: Havana (Cuba)
Altura: 1,84m
Peso: 80kg
Clube: São Caetano/Blausiegel
Principais Conquistas
Tricampeã Olímpica
- Barcelona-1992, Atlanta-1996, Sidney-2000
Bicampeã Mundial
- Brasil-1994 e Japão-1998
Bicampeã Pan-americana
- Havana-1991 e Mar del Plata-1995
Campeã do Grand Prix-1993
GE.Net - Há quem diga que a derrota para as russas foi de propósito para enfrentar o Brasil na semifinal...
Bell -
Não, não foi de propósito. Elas jogaram melhor do que nós nessa partida e nos venceram.

GE.Net - Em 1994, Cuba venceu o Brasil por 3 sets a 0 em São Paulo, na decisão do Mundial. Você esperava uma vitória tão tranquila?
Bell -
Não foi fácil, mas entramos taticamente decididas a fazer o que a comissão técnica pediu e deu certo. Foi 3 a 0, mas não foi fácil. A todo momento, tinha a pressão de não falhar e fazer as coisas bem feitas. Deu certo

GE.Net - Nos anos 1990, Cuba parecia imbatível, principalmente nas competições mais importantes, como o Mundial e a Olimpíada. Qual era a principal qualidade e o grande defeito daquele time?
Bell -
Foi uma etapa de muito sacrifício. Mesmo sendo tão jovens, não podíamos sair para desfrutar, porque precisávamos estudar e treinar, estudar e treinar. Tínhamos que descansar para poder render 7, 8 horas diárias. Foi um sacrifício, com muito treinamento. Não me arrependo, porque os frutos disso foram três medalhas olímpicas e dois Mundiais. Perdi uma parte da minha juventude, mas não me arrependo do sacrifício para conseguir os frutos. Nossa defesa era um pouco defeituosa, mas tínhamos o bloqueio e o ataque tão fortes que compensava.

GE.Net - Nessa época, os torcedores brasileiros odiavam as jogadoras cubanas - a atleta interrompe a pergunta e diz:
Bell -
Nessa época, eles nos odiavam quando estávamos jogando, mas depois nos aplaudiam da mesma forma (ergue os braços e bate palmas). Na hora do jogo, eles nos xingavam para defender o Brasil, é claro. Mas depois, os dois times eram elogiados. Agora que estou aqui, tem um carinho e uma admiração muito grande. Não tenho nenhum tipo de medo nesse sentido jogando no Brasil.

GE.Net - Você acha que, pela personalidade explosiva e pelas brigas, a seleção cubana passava uma imagem de antipatia e arrogância?
Bell -
Acho que sim, devido ao caráter que cada uma de nós tinha, principalmente para festejar. Quando as outras jogadoras vinham falar conosco, as russas, por exemplo, no começo elas pensavam que éramos um pouco chatas, mas depois que conversávamos, era diferente, inclusive com a Ana Moser, a Hilma e a Márcia Fu, que também tinham um caráter bem parecido ao nosso. Depois que conversávamos, era diferente.

GE.Net - Depois da confusão em Atlanta, Brasil e Cuba se enfrentaram na fase final do Grand Prix de 1996. Desta vez, vocês perderam e também teve briga...
Bell -
Esse encontro também não foi muito bom. A Regla Torres voltou a discutir e eu tentei separar, mas nós duas fomos suspensas da fase final. Mas esse é o histórico de Brasil e Cuba (risos)...

GE.Net - Depois de tantas discussões, você tem vontade de reencontrar as jogadoras que atuavam na seleção brasileira naquela época?
Bell -
Aí, sim! Eu gostaria de encontrar a Márcia Fu, a Hilma e inclusive a Ana Moser, poder vê-la, conversar e cumprimentá-la. Eu gostaria, sim.

GE.Net - Você parou de defender a seleção cubana depois das Olimpíadas de Sidney, em 2000. Por que tomou essa decisão e como foi sua saída do país?
Bell -
Terminei meu ciclo com a equipe nacional e quis dar à luz. Tive minha filha em 2002 e depois me liberaram para jogar no exterior. Quando ela tinha seis meses, saí para jogar. Minha saída não foi definitiva e volto para Cuba sempre para ver minha mãe e minha família. Me liberaram por ter defendido a seleção por tanto tempo. Não são todas que podem sair. Eles questionam cada caso, analisam e tomam uma decisão. Tem que ter os méritos para poder sair da seleção e jogar no exterior. Eu joguei três Olimpíadas e demorei muitíssimo para conseguir sair, mas graças a Deus me sinto forte ainda e consigo jogar.

GE.Net - Tem alguns atletas cubanos que aproveitam as viagens ao exterior para desertar e pedir asilo no exterior. Nos anos em que você defendia a seleção, era difícil conseguir autorização para sair do país?
Bell -
Era muito difícil, era muito difícil. Tinha que ter uma reunião com os dirigentes da cúpula para que nos deixassem sair. Não era fácil. Houve alguns casos de deserção depois que eu me retirei da seleção, mas como eu estava bem, não pensava em jogar no exterior, só depois que tive esse desejo. Ninguém da minha época pensava em sair e deixar a equipe nacional.

GE.Net - Como era deixar a realidade cubana para atuar nos Estados Unidos e na Europa?
Bell -
Era tudo muito diferente. Na primeira vez que saí de Cuba, por exemplo, tinha só 14 anos e fui para a Mongólia disputar o Mundial Juvenil. Era tudo totalmente diferente, tive que sair do calor total para o frio. Foi um choque. Inclusive, chorava por estar longe da minha mãe e dos meus irmãos (a jogadora tem duas irmãs e quatro irmãos). Mas depois fui me adaptando e consegui melhorar, porque antes chorava muito.

GE.Net - Você defendeu a seleção cubana entre 1989 e 2000. Como conseguiu se manter em alto nível por tanto tempo?
Bell -
Precisa de muito sacrifício, treinamento, dedicação e tem que gostar do esporte, que é o principal. Eu e minhas companheiras de seleção estivemos sempre juntas entre 1989 e 2000. Depois, o time caiu muito, porque éramos sempre as mesmas que jogávamos todas as competições. Não tinha uma base atrás de nós. Como saímos quase todas em 2000, teve uma mudança muito brusca de atletas experientes para jogadoras muito jovens.

[imagem=7157#alinhamento=esq#credito=285#legenda=Bell planeja jogar até os 41 anos e encerrar a carreira no Brasil]

GE.Net - Você ainda mantém contato com as jogadoras da sua geração, como a Regla Torres, a Mireya Luis e a Magaly Carvajal?
Bell -
Já faz um ano que não vou a Cuba. Mas quando volto, tenho contato com todas elas: Mireya, Marlen Costa, Regla Torres. Todas estão em Cuba, menos a Mireya, que está no Comitê Olímpico Internacional (COI). A Regla é segunda assistente técnica da seleção e as outras trabalham com crianças em escolas.

GE.Net - O que você acha da seleção cubana atual?
Bell -
É um time muito jovem, que tem seus altos e baixos, mas que está no caminho das vitórias. Em Atenas, elas terminaram no terceiro lugar e acho que jogaram muito bem por serem tão jovens e não terem uma continuidade de jogos. Foram muito bem.

GE.Net - No São Caetano, você vai jogar com a Mari e a Sheilla, duas atletas da seleção. Você conhece o time atual do Brasil?
Bell -
Sim. Acho que esse time ainda vai dar muito o que falar no futuro. O Brasil vem subindo, já foi campeão olímpico e tem uma equipe bem equilibrada, com jogadoras altas e fortes.

GE.Net - Para quem tem três medalhas de ouro olímpicas, como foi ver de longe as duas últimas edições dos Jogos?
Bell -
Em 2004, eu treinei uma temporada com a seleção quando retornei a Cuba e tentei voltar, mas os dirigentes não permitiram. Eu queria estar com a seleção em Atenas para ajudar no que fosse, mas não foi possível. Senti que poderia estar lá e contribuir com a seleção.

GE.Net - Não deixaram você voltar à seleção por que atuava fora do país?
Bell -
Claro, claro. Teve uma certa falha de comunicação... não sei o que aconteceu. Treinei com a equipe, mas não fui convocada para a seleção. Agora, não tenho mais vontade.

GE.Net - Mesmo sendo uma ilha com cerca de 11 milhões de habitantes, Cuba foi uma das maiores potências olímpicas e chegou a rivalizar com Estados Unidos e União Soviética. Isso é consequência do investimento do Estado no esporte?
Bell -
Sim, sim. O esporte em Cuba é um principio que se treina desde pequeno. Com nove anos, já tem escolas de preparação que as crianças frequentam para ir aprendendo o que é o esporte. Em Cuba, tem formação, tem base para chegar a ser um esportista. Por isso, temos tantos atletas bons. Comigo, foi assim. Pelo meu tamanho e pelas minhas qualidades, me escolheram para uma escola de esporte. Foi como eu comecei, com oito anos.

[imagem=7158#alinhamento=dir#credito=285#legenda=Atacante cubana deixou para trás o visual com longos cabelos no estilo rastafári]

GE.Net - Na década de 1990, Cuba enfrentou uma situação sócio-econômica muito difícil após o final da União Soviética e vários habitantes tentaram deixar o país de qualquer maneira para entrar nos Estados Unidos pelo litoral. Alguém da sua família tentou fazer a travessia?
Bell -
Da minha família, graças a Deus, não. Algum tempo depois, em 1998, meu irmão saiu, mas ele tinha um contrato de trabalho e vive nos Estados Unidos até hoje. Teve uma época que as coisas em Cuba estavam muito difíceis. Teve um período especial muito longo e as pessoas saiam no que fosse pelo mar para tentar entrar nos Estados Unidos.

GE.Net - Você vive no exterior desde 2002, mas deve seguir acompanhando a situação política em Cuba. O Fidel Castro está idoso e debilitado e já até foi substituído pelo irmão Raúl como chefe de estado. Você acha que pode haver alguma mudança benéfica para o povo com essa troca de comando?
Bell -
Eu espero que sim. Quero ressaltar que os esportistas cubanos não devem se meter na política, mas espero que melhore agora com a relação do (presidente dos Estados Unidos, Barack) Obama com Cuba. Espero que a relação dos Estados Unidos com Cuba melhore.

GE.Net - Você completou 39 anos em julho. Já está pensando em se aposentar?
Bell -
Ainda não penso em parar, mas sei que não falta muito, talvez uns dois anos. Penso em encerrar a carreira aqui no Brasil. Quero terminar da melhor forma. Vai ser difícil parar, porque estou há muitos anos dedicada ao esporte, mas tenho que terminar um dia.

GE.Net - Você disse que mora com seu marido e sua filha. A menina leva jeito para o vôlei?
Bell -
Eu acho que sim, ela gosta de vôlei. Ainda não joga, mas gosta muito. Eu queria muito colocá-la em uma escola para que fosse se desenvolvendo. Apesar de ter sete anos, ela é muito grande. Parece que já tem 10 anos.

GE.Net - Depois de encerrar sua carreira, você pretende voltar a morar em Cuba?
Bell -
Não sei, não sei ainda.

GE.Net - Qual foi a maior conquista e o momento mais tenso de toda a sua carreira?
Bell -
A maior conquista foi que com só 17 anos fui campeã olímpica em Barcelona. Foi quando percebi que, mesmo sendo tão jovem, podia ser campeã. Quando aconteceu, eu não acreditava. Foi o momento mais lindo. Depois, vieram as outras medalhas, mas a primeira foi a mais bonita. O momento mais tenso foi a discussão com as brasileiras. Foi muito tenso.

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