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Melancolia marca campanha do Brasil na Copa do Mundo
Sex, 07 Jul - 22h49
Por Marcelo Marcondes/Yahoo! Esportes
E eis que o hexacampeonato, tão certo, tão planejado e cantado, não veio. Alguns já comparam essa decepção do povo brasileiro às de 98 e de 50. Roberto Carlos já se compara - sem querer ser comparado - ao goleiro Barbosa, culpado por muitos pelo Maracanazo de 1950.
Começamos mal, é verdade. Os aficionados pelo bom futebol mundo afora se sentaram, no dia 13 de junho, compenetrados para assistir à partida da melhor equipe do mundo; detentora da taça e cujo camisa 10 fora escolhido como o melhor jogador do planeta. Diante duma Croácia assustada, o Brasil iniciava sua 'caminhada ao hexa'. Mas o time canarinho pouco mostrou nos 90 minutos. Os imbatíveis e mágicos brasileiros demonstravam apatia. Ronaldo, o Fenômeno, arrastava-se em campo. Ronaldinho, o Gaúcho, não fez jus ao título de melhor do mundo; não foi Ronaldinho, o "catalão". Não jogou o futebol alegre, abusado e malabárico que exibe no Barcelona. Os croatas pareciam satisfeitos com o empate e, no finalzinho do primeiro tempo, Kaká acertou um belo chute no ângulo esquerdo do goleiro Pletikosa. Fim de papo. Não houve maiores disputas e as tentativas brasileiras de marcar o segundo gol foram pífias.
O mundo inteiro começara a desconfiar que havia algo de errado com aquele time. Seu reflexo mais fiel foi a atuação de Ronaldo - lento, sem a agilidade e as explosivas arrancadas de outros tempos. Para Parreira e Zagallo, no entanto, a seleção deveria continuar incólume. Cinco dias depois, contra a Austrália, a mesma formação do jogo anterior.
Após um começo de jogo mais movimentado, a seleção sentiu a força da marcação, da defesa e, por vezes, da truculência australiana. Pouco a pouco os canarinhos foram voltando ao ritmo de jogo da partida anterior, cadenciado, sem objetividades. A zaga continuava bem, sem comprometer. Os laterais seguiam imóveis, como estátuas de algo que um dia foram. Moldes rígidos de Cafu, campeão intercontinental, e de Roberto Carlos, dos imbatíveis Palmeiras-94 e Real Madrid-96. Parreira ficava parado ao lado do campo. No começo do segundo tempo, porém, Adriano abre o marcador para o Brasil com um belo chute da entrada da área. Eis que, aos 27 do segundo tempo, Parreira decide mudar o time; saem Émerson e Ronaldo, entram Gilberto Silva e Robinho. O volante do Arsenal entra em campo um tanto perdido. Já o ponta mostra disposição e dá maior movimentação ao time, assim como ocorrera no jogo contra a Croácia, no qual entrou aos 24 do segundo tempo. O ataque torna-se mais dinâmico, mas Adriano, cansado, já não conseguia finalizar. Aos 43 minutos, entra Fred no time. Emocionado, demonstrando vontade, o jovem atacante do Lyon mal entra e já cria jogada com Robinho; recebe a bola de Ronaldinho na entrada da área adversária, passa para Robinho em profundidade à direita. O ponta chuta forte, cruzado. O goleiro australiano espalma a bola e o rebote sobra para ele, Fred, completar para o fundo da rede. O que se seguiu foi um puro momento de êxtase, diria até único da Copa para o Brasil. O atacante corre para comemorar com os companheiros de equipe e com o banco, leva as duas mãos à cabeça, não acredita naquilo. Era isso que estava faltando à seleção, essa alegria, essa euforia que tão bem representa o sentimento de um gol.
Apesar do desempenho medíocre do time em seu segundo jogo, havia uma centelha de esperança, algo que dizia no fundo dos brasileiros: ainda podemos mostrar que somos um time com um futebol alegre, um futebol 'moleque', como alguns gostam de chamar. No jogo seguinte, contra o Japão, muitas mudanças. Entraram os laterais Gilberto e Cicinho, além de Robinho, Gilberto Silva e o tão aguardado Juninho, o pernambucano. Quem estava no Westfalensatdion de Dortmund pôde ver um Brasil diferente; a movimentação nas laterais era maior, o meio-campo estava mais fluido, o ataque mais objetivo e Ronaldo, apelidado 'o gordo', já se movimentava em campo com maior facilidade e marcou dois gols. O resultado: Brasil 4 x 1 no Japão, sendo que a seleção chutou 14 vezes a gol, contra 6, nos dois jogos anteriores. Está certo que o adversário era mais fraco e estava mais amedrontado do que croatas e australianos. Mas, de qualquer jeito, neste jogo o Brasil mostrou aquilo que poderia ser na Copa.
O time de Parreira, primeiro no grupo F, iria enfrentar o 2º do E, o grupo da Itália. O adversário foi Gana, uma equipe africana rápida e com um meio-campo talentoso. O cérebro do time, o meia do Chelsea (ING) Michael Essien, não jogou. A seleção começou esse jogo do jeito que os brasileiros queriam, foi para cima do adversário. Logo aos 5 minutos do primeiro tempo, Ronaldo abriu o marcador em jogada que lembrou os tempos fenomenais do craque. Depois de dar uma bela pedalada na frente do goleiro africano, o camisa 9 fez se 15º gol em Copas e virou o mais novo recordista de gols na competição. No final do primeiro tempo, Adriano fez o segundo gol para o Brasil em jogada irregular. No 2º tempo, porém, a equipe voltou à morosidade dos primeiros jogos e os africanos criaram mais e mais chances. Mas a pontaria dos 'Estrelas Negras' foi sofrível, e, embora tenham chegado a dar sufoco para a seleção, não fizeram um gol sequer. O volante Zé Roberto, que já havia sido o melhor jogador brasileiro em campo no jogo contra a Austrália, contra os ganeses voltou a demonstrar raça e determinação em campo. Aos 39 minutos do segundo tempo, ele deixou sua marca na Copa, ao fazer um belo gol driblando o goleiro Kingston. Goleamos, mas passamos sufoco de uma equipe fraca, certamente inferior ao Brasil.
Um dia depois, o Brasil conhecia seu próximo adversário: os 'Azuis', os franceses, algozes em 1986 e 1998. Grande parte da imprensa fez questão de tratar o jogo como revanche. Carlos Alberto Parreira escalou o Brasil só com um atacante fixo: o supercriticado Ronaldo. E o fato foi que entramos em campo no dia 1º de julho em Frankfurt assim como nossos adversários da 1ª fase entraram para jogar contra a seleção canarinho: com medo. E esse medo só foi aumentando à medida que o tempo passava. Foi paralisando os jogadores malabaristas e o cérebro do técnico Parreira. Ronaldinho sumiu em campo; Ronaldo, marcado por Sagnol, pouco fez; e os laterais continuavam os mesmos, senão piores. O meio de campo e o ataque caíram muito com a eficaz marcação francesa. Até a defesa, arrumada, não funcionou direito.
Parreira, percebendo tudo aquilo, nada fez. Ele já afirmara anteriormente que Zidane não teria marcação especial no jogo contra o Brasil e cumpriu a sua palavra. No finalzinho do primeiro tempo e no começo do segundo, Zizou cobra duas faltas próximas à área brasileira que sobram para seus companheiros, que levam perigo à meta de Dida. O francês já mostrara toda sua genialidade quatro dias antes, no jogo contra a Espanha. Perante o Brasil não seria diferente; a liberdade dada ao 'maestro' francês foi aproveitada pelo mesmo de maneira muito eficiente. E, aos 12 minutos da segunda etapa, após cobrança de falta de Zidane pela esquerda, o atacante Henry entrou na área livre leve e solto para abrir o marcador, observado pelo engessado Roberto Carlos. A partir daí as coisas começaram a degringolar. Aos 16 minutos do segundo tempo, Ribery se livrou facilmente da marcação de Lúcio e cruzou para a área; Zidane furou e Juan desviou a bola que tirou Dida da jogada e, por sorte, não entrou no gol. Parreira tentou uma substituição: tirou Juninho, para a entrada de Adriano. Voltamos ao esquema original. O que se viu nos minutos seguintes de jogo foi um Brasil sem rumo, sem objetivo, com onze jogadores vagando a esmo em campo. Finalmente, faltando 15 minutos para a eliminação, o técnico brasileiro tirou Cafu e colocou Cicinho. A mudança que todos queriam, a entrada de Robinho, só foi acontecer aos 34 minutos do segundo tempo. E aí as esperanças recaíram sobre um jovem de 22 anos, que, sem saber como motivar e encorajar o resto da equipe, não pôde fazer muito. Tá certo que ele recebeu uma bola na área de Ronaldinho dois minutos depois, mas, talvez nervoso, chutou para fora, à direita do gol de Barthez.
Aos 44 minutos, aí sim, uma chance real; uma falta em cima de Ronaldo, quase na meia lua da área francesa. A responsabilidade, dessa vez, estava com o melhor do mundo. Ronaldinho, o camisa 10, o mágico, foi para a cobrança. E aí, a decepção final: bola por cima do gol, pra fora. E com ela foi-se o último fio de esperança do hexacampeonato.