6 de Julho de 2006, 07:25
Talvez seja o momento de aprender -- ou reaprender, conforme o caso -- a perder. O mundo da bola não gira (ou não gira mais, se o internauta preferir) em torno do umbigo brasileiro.
É preciso dizer que também cresci bem (ou mal?) acostumado: minha primeira Copa como torcedor foi a de 1970. A melhor de todas as Copas, vencida pelo melhor time de todos os tempos -- as enquetes não se cansam de apontar o que a memória registrou como um momento sublime na história do futebol.
Quatro anos depois, o primeiro fracasso brasileiro na Alemanha soou a mim, ainda garoto, incompreensível. Não éramos os melhores, os únicos tricampeões do mundo? Os adversários não se borravam apenas de ver a camisa amarela do outro lado? Como é que o Cruyjff tinha a audácia de fazer gol no Leão? (Será que foi porque o Brasil jogou de azul?)
Em último caso, o João Havelange, então presidente da FIFA, não poderia entrar em campo para melar tudo? Munique não estava à nossa espera? Não faltavam dois jogos para o tetra?
Mais tarde, lendo e revendo o que ocorreu em 1974, a derrota adquiriu contornos límpidos, incontestáveis. Com um estilo de jogo ultrapassado, era difícil mesmo que o Brasil de Zagallo fizesse frente à revolução tática holandesa -- algo nunca mais visto em lugar nenhum, seleção ou clube, talvez por culpa da vitória alemã na final.
Havíamos parado no tempo, em diversos aspectos. Os adversários aproveitaram para tomar a dianteira.
Depois, vieram 1978, 1982, 1986 e 1990. Diferentes tipos de frustração, cada qual a ensinar algo de específico que a organização de nosso futebol, dentro e fora do gramado, não parece ter aprendido.
Há quem acredite que o pragmatismo de 1994 foi gerado a partir dessas lições. Sob o impacto de 2006, pilotado pela mesma cúpula de 12 anos atrás, já não faço parte dessa turma. Valorizo mais o talento e a estrela de Romário, Bebeto, Aldair, Márcio Santos, Taffarel.
Alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro e entender o mundo sob a perspectiva dele, mesmo que não se concorde com ela. Quem comanda o futebol brasileiro há algumas décadas parece às vezes bloquear essa operação mental.
Exemplos de reveladores cacoetes de raciocínio que se tornaram freqüentes na boca de dirigentes (e de alguns jogadores) nos últimos anos: "os outros é que devem aprender conosco, porque somos pentacampeões"; "o Brasil joga do mesmo jeito contra qualquer adversário, eles é que precisam se adaptar a nós"; "jogamos mal porque o adversário não quis jogo"; "quando o adversário quer jogo, impomos nosso melhor futebol".
A história recente de triunfos fez com esse discurso adquirisse o status de lei. É apenas discurso.
É por essas e por outras que a Copa vai terminando e tanta gente, vinda de diversos países, coincide na avaliação de que o Brasil foi vítima de sua arrogância (e tudo o que ela traz a reboque), confundindo o fato de ser o melhor celeiro de jogadores do mundo com a ilusão de que isso nos torna automaticamente imbatíveis.
Como se o destino fosse um mordomo a nosso serviço.
Como se Deus fosse mesmo brasileiro.
Os quatro anos que nos separam de 2010 equivalem a um curso de graduação. Dá para aprender um bocadinho nesse tempo.
O pré-requisito inicial é a humildade de admitir que sempre há o que aprender.
Comentários
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Brilhante, Rizzo.
Mas tenho sérias desconfianças quanto à honestidade dos dirigentes da CBF. Não sei se ganhar as competições é a única meta, vendo escalações estagnadas, sempre penso que há muito mais em jogo que o "bom futebol" dos atletas selecionados. Só não concordo contigo sobre a decepção de 1978, é um tanto diferente. Aquela copa era da Holanda, poderia ter sido conquistada pelo Brasil, mas foi comprada pela Argentina. Em tempo: posso debater algum assunto que não faça parte do blog, com você, por e-mail? Obrigado. Abraço. Comentado por joaolevada em Fri, July 07, 2006, 10:15 am BRT |
Concordo com você rizzo,o cafu chegou a afirmar que parecia que eles resolveriam contra a frança de uma hora para a outra,a seleção ficou a espera do talento individual de alguem para resolver...eu escutei isso também na copa de 98...um pouco de humildade e jogar como conjnto faria muito bema nossa seleção(primeiro joguem como um time,esquema tatico e esforço conjunto,dae o talento individual pode resolverse o coletivo falhar).
Comentado por bruno_ferreirag em Fri, July 07, 2006, 10:58 am BRT |
Rizzo, no meu entender o aprendizado seria: Para cada jogo um esquema, para cada adversário uma estratégia, pois se o discurso em voga é que no futebol não tem mais ninguém bobo, que tal traçar momentos distintos?
Aqui no Brasil assistimos treinos em campos reduzidos e uma busca frenética para a posse de bola. Pois então, em que parte dos jogos vimos esse esquema? Nenhum amigo. Agora surgem notícias de que não havia uma equipe e sim jogadores espetaculares. Foi o próprio treinador que falou sobre isso! Voltaram alguns fantasmas como a possível venda da copa de 1998 com patrocínio da nike, preocupações sobre recordes e estado de saúde do nosso centroavante. Pelo menos uma crônica do Armando Nogueira me chamou atenção: Para defunto ruím, nenhum choro. Em resumo: quer ganhar copa, faça uma equipe. Abração. Comentado por andre_arrieta em Fri, July 07, 2006, 3:14 pm BRT |
Oi, João. Ah, Copa de 1978... Você está certo. De qualquer maneira, se naquela partida em Rosário o Brasil conseguisse bater a Argentina (empate em 0 a 0), não haveria Peru que salvasse os donos da casa. A propósito, aquele jogo foi cercado de circunstâncias parecidas com Alemanha x Itália em 2006. Só que a Itália mandou ver. E fique à vontade para me escrever, claro.
Comentado por sergiorizzobr em Fri, July 07, 2006, 6:30 pm BRT |
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