Márcio Bernardes
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27 de Junho de 2006, 10:39

(Dortmund, BR Press)- Pela quarta-vez nesta Copa, a seleção brasileira entra em campo como favorita indiscutível, nesta terça (27/06). Não há nenhum parâmetro de comparação entre os dois times. Cabe ao Brasil a iniciativa de jogo contra Gana e é assim que deveremos jogar. Partindo para cima do adversário, que vai começar cauteloso, fechado e tentando os contra-ataques.


   Fala-se da irresponsabilidade tática de Gana. Seus jogadores não guardam posição e não têm disciplina. Esta é uma meia verdade. O sérvio-montenegrino Ratomir Dujkovic se tornou o quarto técnico de Gana nas eliminatórias. Mas esta instabilidade se devia a maus resultados de um país que tem tradição de revelar bons jogadores para a Europa.

   A grande estrela é o capitão Appiah, do Fenerbahce. E outro bom jogador que o Brasil deverá tomar cuidado é o baixinho atacante Matthew Amoah.

   Nos oito jogos das oitavas de final entendo que Alemanha e Brasil ficaram com os adversários mais fracos. Os anfitriões já cumpriram seu papel. Falta agora o Brasil.

Sem supresas, por favor

   Não é que haja pedantismo e falta de humildade em afirmar, categoricamente, que somos favoritos e qualquer resultado que não uma vitória brasileira -- aliás, com tranqüilidade --, será considerada uma grande surpresa.

   Se Gana vencer a partida de Dortmund a tragédia futebolística será parecida com Sarriá, Guadalajara e Turim. Estou me referindo às prematuras e injustas desclassificações contra Itália, França e Argentina. Nessas três Copas anteriores, como agora, a seleção brasileira era imensamente favorita.

   A palestra de Parreira deverá conter mais psicologia do que tática. Até porque somos muito melhores que os ganeses. Por isto, vamos precisar de 50% da nossa qualidade para chegarmos as quartas de final.

   Esta é a mais pura realidade.


QUENTINHAS

Pior jogo

   Fica a critério do torcedor escolher o pior jogo deste Mundial: Angola x Irã, na primeira fase, ou Itália x Austrália, cuja vitória italiana aconteceu com a marcação de um pênalti de forma equivocada no final do jogo.

A qualidade técnica foi do mais baixo nível. Não foi fácil suportar 90 minutos de um jogo que quase vai para a prorrogação.

Vibração

   Um detalhe pouco explorado pela imprensa local, mas que foi bem observado pelos mais atentos jornalistas: no segundo gol da Alemanha sobre a Suécia todos vibraram; os reservas, o estádio inteiro e o país.

Apenas um alemão ficou parado, estático, sem sorrir e comemorar: era o goleiro Olivier Kahn, transformado em reserva de uma hora para outra.

Goleiros brigados

   Aliás, dois países têm problemas de relacionamento entre aqueles que disputam o gol titular. Além da Alemanha, também a França desistiu de reconciliar Fabian Barthez e Gregory Coupet. Os dois não se falam, da mesma forma que Jens Lehmann e Olivier Kahn nem se cumprimentam.

A disputa profissional extrapolou o bom senso.

Pontualidade

   Um detalhe que pode ser observado pelo torcedor brasileiro na Copa da Alemanha: todos os jogos começam pontualmente no horário e o segundo tempo tem início exatamente 15 minutos após o intervalo.

No Brasil não há nenhum respeito com o horário dos jogos, sendo que, em alguns deles, repórteres das emissoras de televisão é quem determinam quando o juiz pode iniciar uma partida.


   Sobre esse assunto conversei com Ricardo Teixeira e Marco Polo del Nero. Eles concordam que respeitar o horário também é uma questão de cidadania. Mas se mostram impotentes diante de alguns abusos.

Tanto no Brasileiro quanto no Paulista, as equipes que infringem este tipo de norma pagam multas pesadas. Mas não adianta nada.

Sonho de Ceni

   Rogério Ceni já se dá por feliz. Jogou alguns minutos de uma Copa do Mundo e agradece a homenagem de Carlos Alberto Parreira.

Contra Gana as coisas voltam aos seus devidos lugares, com Dida titular no gol do Brasil. Se aconteceu mesmo esta consideração do treinador, outros jogadores esperam a mesma atitude.

Copa é cultura 3


 
   Algumas coisas são inesquecíveis na passagem da seleção brasileira por Weggis, Lucerna, Basiléia, Genebra, Königstein, Dortmund e Bergisch Gladbach. A beleza geográfica e cultural de cada lugar mostra características peculiares e que nos enriquecem de conhecimentos.

É uma das partes boas de uma cobertura muito desgastante.


Volta de Varig?

   Alguns jornalistas brasileiros estão voltando nesta semana, antes do final da competição. É que vamos entrar nas quartas de final, são apenas quatro jogos e obviamente as empresas estão reduzindo suas equipes.

Outro problema é tentar acomodar o pessoal que tem bilhete da Varig em algum vôo da companhia que sai aqui da Europa.


FRASES


 
 
   “O Ronaldinho é o mais simpático de todos os jogadores brasileiros”.Karl Friedirch, funcionário do Castelo Lerbach, onde está concentrada a delegação brasileira.

 

   “Sonhamos em ir mais longe neste Mundial”. Torcedor mexicano, decepcionado com a eliminação para a Argentina.

    “Tenham calma; o balanço final da Copa será muito positivo”. Joseph Blatter, afirmando e torcendo para que o nível técnico melhore. Mas está difícil!

   “A Copa do Mundo somente não será no Brasil se os brasileiros não quiserem”. Ricardo Teixeira, presidente da CBF, transferindo para todo país a responsabilidade de promoção do evento em 2014.


   “Não sei o que acontece com a nossa seleção. Esperava muito mais da França”. Michel Platini, vice-presidente da Fifa.

    “Agora podemos sonhar um pouco mais”. Luiz Felipe Scolari, que, até a vitória sobre a Holanda, fazia um discurso mais humilde.


   “Esse russo é uma banana”. Marco Van Basten, técnico holandês, no embarque da sua delegação, que volta desclassificada.


TOQUE FINAL


 
Footbaussie

   A Austrália vive um entusiasmo contagiante. O país tem muita tradição esportiva, mas considera marginal o futebol. Nesta Copa da Alemanha, com a divulgação que o país está conseguindo, as coisas começaram a mudar.

   Nos últimos Mundiais, a Austrália teve de disputar a repescagem contra a quinta equipe sul-americana e, normalmente, se dava mal. Desta vez, conseguiu superar o Uruguai e a euforia tomou conta do gigantesco país-ilha.

   A Fifa determinou que, a partir de agora, o país dispute as eliminatórias pelo continente asiático. Apesar de estar localizada na Oceania, suas chances de classificação aumentaram e não se reduzirão a apenas dois jogos.

Euforia

  Aqui na Alemanha, a Austrália fez campanha regular com uma vitória, um empate e uma derrota. Conseguiu a classificação às duras penas. Mesmo com a eliminação nas oitavas de final, depois de perder para a Itália, o entusiasmo tomou conta do país.

   Agora, a Federação Australiana quer levar para lá a Copa do Mundo de 2018. Admitindo que em 2014 o mais forte candidato da América do Sul é mesmo o Brasil, na seqüência, a Fifa promete promover a Copa do Mundo na Ásia ou na Oceania.

   China e Índia já manifestaram extra-oficialmente o desejo de também sediar a competição. Promoção conjunta, como em 2002 entre Japão e Coréia, já afirmou a Fifa, não vai mais acontecer.

   A vantagem da Austrália é que a Olimpíada de Sidney, em 2000, foi organizada de forma bastante elogiável. Por esta razão, a China poderá argumentar que está montando toda estrutura para a Olimpíada de 2008. E que se igualará à Austrália em idênticas condições.

   Já que a proposta do futebol é interiorizar cada vez mais o esporte e a Oceania é um continente pouco explorado pelo esporte mais popular do mundo, até que pode ser visto com bons olhos este desejo.

BAMBAMBÃM


Cuidado com a Espanha

Ninguém está falando da Espanha nesta Copa do Mundo. No entanto, a equipe dirigida por Luiz Aragonéz está apresentando um futebol de alto nível, forte na defesa e criativo no ataque.

A atual geração espanhola, com os jovens Fábregas e David Villa e com o experiente Raúl, poderá dar muitas alegrias à fanática torcida. Será que chegou a hora da Espanha acabar com o complexo se cachorro vira-lata?

Na última Copa do Mundo, a Espanha tinha um bom time e foi eliminada nas quartas-de-final, pela Coréia do Sul, por causa da arbitragem. Por justiça e pelo bom futebol, os espanhóis até que merecem chegar longe na Alemanha.


 
BUMBUMBUM


Chora Marco Van Basten

O atual técnico da Holanda, Marco Van Basten, foi um grande jogador de futebol. Mas como técnico se equivocou ao não levar para a Copa ao menos três jogadores experientes que fizeram muita falta: Makaay, Davids e Seedorf.

Errar é humano e Van Basten, que está em seu primeiro emprego como treinador, tem todo esse direito. Porém, após a derrota de Portugal, ele declarou que sua equipe não chegara longe pela inexperiência.

Ora, se ele tinha à disposição atletas como os citados, porque então não deixou as rixas de lado e não os convocou? Porque deixou o avante Van Nistelooy no banco, sendo ele dos mais experientes do grupo holandês? Perder faz parte do futebol. Mas chorar, sem razão, é muito feio.


  
(*) Márcio Bernardes é âncora da Rede Transamérica de Rádio, comentarista da TV Cultura e colunista da BR Press. Está na Alemanha cobrindo sua 9a. Copa do Mundo. Fale com ele pelo e-mail pauta@brpress.net .