Segunda Opinião, por Alexandre Baçallo
(Frankfurt, BR Press)- O primeiro tempo da seleção brasileira foi decepcionante. Confesso que minha otimista previsão
acabou totalmente frustrada. E as mudanças promovidas por Parreira não deram resultado.
Juninho Pernambucano não acrescentou nada na marcação e na armação. Foi bem substituído por Adriano, que poderia ter entrado no
intervalo. Ronaldinho Gaúcho foi escalado para jogar com liberdade, da mesma forma que no Barcelona. E não conseguiu produzir nada. Movimentou-se com dificuldade e, muitas vezes, foi visto longe de Ronaldo. E o
Fenômeno não recebia bolas, ficando perdido na frente.
O ponto mais negativo da primeira etapa foi
justamente Kaká. Ele mostrava dispersão e não
conseguia reeditar seu futebol que todos sabemos ser de primeira qualidade. Felizmente a zaga não decepcionou e esteve firme, até acima daquilo que sempre esperamos dela. Os mesmos erros de passe do primeiro tempo foram repetidos no início do segundo.
Enquanto Zidane lembrava o talento de Moliére, coordenando com maestria o meio campo, Cafu falhava na marcação e no apoio, fazendo esquecer aquele fantástico lateral revelado pelo São Paulo.
E a França, pasmem os que esperavam o contrário, foi quem ditou o ritmo do
jogo. Zidane e Thierry Henry eram os maestros que pensávamos ter em nossa orquestra.
Outros tempos
Os nossos não conseguiam sequer ler a partitura e, por isto, a música não soava como melodia. Não era o futebol pentacampeão que tanto nos orgulhamos e que estava em busca da sexta estrela.
Foi justamente a dupla talentosa da seleção
francesa que combinou a jogada de gol aos 11 minutos. Depois de uma falta desnecessária de Cafu, Zidane fez sinal para Henry.
Nossa defesa, principalmente Roberto
Carlos, apreciou a passagem da bola que teve dois toques mágicos: na cobrança da falta e no toque de gol.
Depois disto, foi o desespero brasileiro contra o
toque de bola francês. E a tranqüilidade realmente
favorece a aplicação do melhor jogo.
A entrada de Cicinho foi tardia. O estádio inteiro
sabia que Cafu era ponto nulo na equipe brasileira.
Robinho
E o que dizer da presença de Robinho, que foi chamado por
Parreira apenas aos 33 minutos? Além do Brasil não mostrar iniciativa dentro de campo,
faltou brilhar o talento individual dos jogadores.
A seleção francesa foi superior e mereceu vencer a
partida. Assim, o sonho do hexa foi adiado.
QUENTINHAS
Sacrifício do urso
Todos já sabem que o símbolo da Bavária é o leão.
Já a região de Berlim adotou o urso e tem muito
orgulho dele.
Há anos os bávaros mataram todos os
ursos, devido a razões até hoje pouco esclarecidas.
Agora apareceu um urso nos arredores de Munique, que
devorou seis ou sete ovelhas, provocando ampla
discussão em todo estado.
O Ministro do Meio-Ambiente alemão autorizou o
abate do tal urso e a cena foi exibida para o país
inteiro. A imagem é bávara, ou melhor, bárbara.
Os
integrantes das entidades que defendem os animais
estão revoltados e provocam as maiores hostilidades
contra o ministro e outras pessoas que estão sendo
consideradas assassinas.
Cervejinha para a imprensa?
A polícia alemã dá a impressão que montou plantão
nos arredores do centro de imprensa de Munique. Como
os jornalistas trabalham em revezamento durante 24
horas por dia, de noite e de madrugada, há muito entra
e sai do estacionamento do local.
E muitos carros
pilotados pelos jornalistas são parados e
fiscalizados. Todos eles são submetidos ao bafômetro.
Pavel Janas de emprego novo?
Algumas equipes européias sinalizam na possível
contratação do técnico Pavel Janas. Ele pediu demissão
do comando da seleção polonesa.
Apesar da tradição de
sempre mandar bons times para Copas do Mundo, a
Polônia desta vez foi péssima. Perdeu da Alemanha e
Equador e venceu a Costa Rica. Não conseguiu passar da
primeira fase.
Aragonés fortalecido
Falando ainda em treinadores, a desclassificação da
Espanha não diminuiu o prestígio do técnico Luiz
Aragonés. Seu contrato foi renovado até a Eurocopa
2008.
Realmente, faz tempo que a Fúria não manda para
um Mundial uma seleção com as qualidades desta de
2006. Foi um acidente do futebol, que não tirou o
brilho de Aragonés.
Técnico argentino, por que não?
Já que José Pekerman pediu demissão da seleção
argentina, está aí uma boa possibilidade dos grandes
clubes brasileiros tentarem sua contratação.
Reconheço seus equívocos no jogo com a Alemanha, mas
não é possível deixar de reconhecer as qualidades e a
história deste brilhante profissional. E nunca é
demais dizer que estamos carentes de bons treinadores.
FRASES
“Não vamos parar por aqui. A vitória sobre o Brasil
foi importante, mas nosso objetivo sempre foi o
título. Agora temos que pensar em Portugal e tentar
repetir a atuação de hoje (sábado)", Zidane, focado na
conquista da Copa da Alemanha.
“O Felipe é o maior ídolo de Portugal”.
Gilberto Mandail, presidente da Federação Portuguesa,
que bancou a contratação de Felipão contra tudo e
contra todos.
“Quero morrer em paz com vocês”. Emerson, brincando e sorrindo para os repórteres. Ou
ele estaria falando sério?
“Estamos voltando mais cedo por causa das burrices do nosso técnico”.
Carlos Rodrigues, jornalista de El Clarin, protestando
contra José Perkerman, que já é demissionário.
“Conseguimos a classificação numa homenagem a todo
povo alemão”. Jürgen Klinsmann, num discurso que lembra Lula.
“A Alemanha já é finalista da Copa”
Angela Merkel, primeira-ministra alemã, entre otimista e demagógica.
“A Itália engrenou. E vai vencer a Alemanha”. Manchete ufanista do Corriere dela Sera.
TOQUE FINAL
Casório de Beckenbauer
Somente agora consegui espaço para falar do
casamento de Franz Beckenbauer com Heidi, de 39 anos, sua companheira desde 2002, realizado no último dia 23,
em Oberndorf, pequena cidade da Bavária.
Eles escolheram este dia porque seria aniversário
de dona Antonie, mãe do astro e que morreu no mês de
janeiro com 91 anos.
Cinco dias antes do casamento, cruzamos num evento em Munique, Franz, Carlos Alberto Torres e eu. O velho
capitão do Tri foi companheiro do Kaiser no Cosmos de
Nova York. Ficaram muito amigos e sempre que podem se
falam e se encontram.
Foi nessa época que Carlos Alberto e Pelé me
aproximaram de Beckenbauer. Estive algumas vezes em
Nova York, inclusive naquela memorável festa de
despedida do Rei do Futebol.
Em 1980, ao lado do saudoso amigo Quico Calil,
levamos a equipe norte-americana para jogar em
Uberlândia e Santos. Foi uma semana inesquecível e de
mais oportunidades de trocar experiências com figuras
tão ilustres e ao mesmo tempo tão simples.
Neste encontro, aqui na Alemanha, Carlos Alberto foi
convidado para a cerimônia que foi cercada de muito
sigilo. Da mesma forma que aconteceu em 1990, o
ex-lateral disse ao amigo que gostaria que eu também fosse com ele.
Na Copa da Itália, três dias antes da decisão,
fomos visitar a concentração alemã num belo hotel
campestre nos arredores de Roma. Naquele dia, o Kaiser
nos avisou que se eles se sagrassem campeões do mundo
haveria uma festa privadíssima no hotel, porque a
delegação só voltaria ao seu país na segunda-feira. E
nos convidou para estar lá com eles.
Nunca torci tanto pela Alemanha. Dito e feito. Após a conquista, no estádio Olímpico, fui com Carlos
Alberto para a festa. Percebi toda imprensa na entrada
do hotel querendo participar e reportar o
acontecimento e sendo barrada pelos seguranças.
Único jornalista
Certifiquei-me se não havia esquecido meu gravador e a máquina fotográfica. Fiquei até as oito horas da
manhã do outro dia participando de uma festa em que fui
convidado por osmose e que escreveu mais uma
importante página profissional na minha vida, já que
fui o único jornalista do mundo presente na
comemoração.
Naquela época, conheci Sybille, ex-mulher de Franz, de quem ele se separou há 4 anos.
Desta vez, não pude ir ao casamento por causa de
compromissos profissionais com os jogos decisivos do
grupo G e F. Carlos Alberto contou-me que a cerimônia,
apesar de simples, foi contagiante.
Beckenbauer quis fazer surpresa e por isso marcou o
casamento no meio do Mundial. Heidi é ex-secretária do
Bayern de Munique e mãe dos dois últimos filhos do
Kaiser.
Espero que eles sejam muito felizes!
(*) Márcio Bernardes é âncora da Rede Transamérica de Rádio, comentarista da TV Cultura e colunista da BR Press. Está na Alemanha cobrindo sua 9a. Copa do Mundo. Fale com ele pelo e-mail pauta@brpress.net .