Segunda Opinião, por Alexandre Baçallo
(Munique, BR Press) - A Copa do Mundo acabou para o brasileiro. Temos uma cultura que, quando a seleção nacional deixa
a competição, ela perde completamente a sua
importância. É bem possível compreender a reação do torcedor. Somos passionais, sonhadores, os meios de comunicação
exageram no ufanismo e as últimas gerações criaram um conceito de que somos os melhores e o resto é resto.
Na verdade somos mesmo os melhores do mundo. E os cinco títulos conquistados comprovam essa tese. Temos excepcionais jogadores e que têm futebol para
figurarem em todas as listas de seleções mundiais.
Desde o ano passado, e por diversas vezes em 2006,
disse e repeti que o grande adversário brasileiro
seria o próprio Brasil.
O futebol é encantador porque, muitas vezes, o melhor
não vence o pior. Diferente de outros esportes, onde a
equipe superior normalmente vence a inferior, o
futebol deve ser o esporte mais popular do mundo,
entre outras coisas por causa da ausência da
normalidade.
Precisávamos colocar em campo essa superioridade. E lamentavelmente, essa é a verdade: não jogamos bem a Copa do Mundo.
Claro que nós, jornalistas, que também somos torcedores, esperávamos que o time melhorasse com o passar da competição. E que Parreira cairia na real para
ir moldando aquilo que todos consideravam o melhor.
Não jogamos como pentacampeões em nenhuma das cinco partidas. Talvez contra Japão e Gana daria para abrir uma exceção. Mas foi um futebol sem brilho. Nem parecia que a camisa amarela tinha uma constelação de
cinco estrelas, que poderiam luzir para que a teoria se transformasse em realidade.
Faltou vibração e humildade. Faltou mais amor à camisa. Faltou não ter vergonha de chorar pelo erro cometido. E não podemos reclamar da sorte ou da inferioridade dos adversários.
Diferente de 1986, quando a França nos
desclassificou nos pênaltis sem merecermos deixar o México, em 2006 repetiu-se a supremacia de 1998. Eles venceram e mereceram.
QUENTINHAS
Expulso da Fifa
Conheci Andréas Wenzel, o locutor do estádio Olímpico de Berlim, expulso pela Fifa de suas atividades. É uma figura o cidadão.
Ufanista, ele se comportava mais como torcedor do que como profissional. Pedia raça para os jogadores e ordenava
o incentivo dos torcedores à seleção da Alemanha, que sofria para virar o jogo contra a Argentina. Virou
personalidade no país.
Avente Azzurra
A imprensa italiana se comportava de uma forma até a partida contra a Ucrânia e agora tem outra atitude depois da classificação às semifinais. As manchetes são cheias de utopias, encantos e incentivos.
Como a Itália começou a Copa de forma pouco empolgante, os críticos foram impiedosos e agora se comportam como se nada tivesse acontecido.
Tevez in tour
Carlitos Tevez vai ficar mais alguns dias aqui na Alemanha e depois pretende ir à França e Espanha. Só a
partir daí é que se apresentará ao Corinthians.
Já havíamos antecipado as intenções do atacante e
recebemos um telefonema de um dirigente do Timão que
queria maiores detalhes, porque o clube não sabia de nada.
Pega, Lehmann!
A Alemanha tem um novo herói e ele se chama Jean
Lehmann. Depois de suas defesas na decisão com a Argentina, o goleiro já ganhou mais de 1 milhão de
euros, liberando sua imagem para a publicidade de três
empresas.
O goleiro, de 36 anos, vive momentos
contagiantes e o técnico Klinsmann, que bancou sua
escalação, está mais feliz ainda.
Maradona barraqueiro
Maradona não foi leal com a Fifa. Tratado com todas
as mesuras, ganhou quatro entradas da área Vip dos estádios
em cada jogo que quis assistir neste Mundial. Fez um
escândalo porque o seu segurança não tinha convite e
forçou a barra para ver o jogo Alemanha e Argentina.
O ex-craque pretendia criar um fato político e se deu mal.
Avante Azzurra 2
Shevchenko, o astro do Milan e da seleção ucraniana,
vai continuar aqui na Alemanha. Ele garantiu que
estará em Dortmund torcendo pela Squadra Azzurra.
Apesar de desclassificado pela Itália, ele fez média
com os tiffosi e garantiu que agora os italianos
partirão com tudo para a conquista da Copa.
Rooney crucificado
Wayne Rooney chegou na Alemanha ainda se recuperando
de uma fratura no pé direito e acabou se tornando a principal referência do time inglês.
Após a eliminação
da Inglaterra do Mundial, o técnico Sven-Goran
Eriksson pediu que os ingleses não crucifiquem o atacante.
FRASES
"Não estou arrependido de nada do que fiz".
Carlos Alberto Parreira, com cuja a opinião pouca gente concorda.
"Só a Europa está nas semifinais". Berliner Morgen Post, manchete um tanto discricionária.
"Quero ser campeão em 2010".
Adriano, que já pensa na próxima Copa do Mundo.
"A França foi muito criticada, mas foi bem montada,
cresceu na competição e merece estar entre os quatro
primeiros colocados da Copa do Mundo".
Felipão, mostrando respeito pelo adversário.
“Está na hora de deixar o peso do Ronaldo de lado. Ele é um grande jogador”. Silvio Santos, que está se divertindo muito aqui na
Alemanha.
TOQUE FINAL
Paradoxo espanhol
Uma vez perguntei a um jornalista espanhol a razão da seleção nacional não conseguir boas colocações em Copas do Mundo. Minha dúvida aumentou nos últimos tempos, porque
considero o Campeonato Espanhol o maior do mundo. Muito melhor do que o italiano.
Além de atrair grandes jogadores dos cinco
continentes, a Espanha sempre produziu bons jogadores. E o futebol é o esporte mais popular do país.
Como poderia haver alguma explicação convincente diante dessa realidade? E, ademais, os clubes são fortes
e importantes. Basta ver a história de conquistas do Real Madri.
Há outras equipes tradicionais e centenárias. As cidades vivem intensamente o futebol, que traz receitas
apenas inferiores ao Campeonato Inglês. Os patrocínios são milionários, a maioria dos clubes tem centenas de
milhares de associados, os carnês para a temporada são
vendidos com muita antecedência e o marketing ajuda a
arrecadar mais dinheiro.
Regionalismo
"O problema da seleção nacional espanhola é o regionalismo!", respondeu-me o colega. Como assim? Não consegui entender! As divisões geográficas, culturais, econômicas,
étnicas e sociais em todo país chegam a surpreender os desentendidos.
Já se sabia da rivalidade entre os catalães e madrilenos. Já se sabe que o País Basco luta com armas e atentados terroristas pela sua independência. Na Espanha, além do sotaque diferente, os dialetos
dão a impressão que se muda de país dependendo da região.
BAMBAMBÃ
Portugal: rumo ao seleto grupo de campeões?
A seleção de Portugal está pela primeira vez em uma semifinal de Copa do Mundo e chega com pinta de que vai incomodar. Com um futebol bem ao estilo do técnico Luiz Felipe Scolari, tem tudo para dar muito trabalho à França.
Certamente os comandados de Felipão não darão aos franceses o espaço que o Brasil deu, no último sábado (01/07), pelas quartas-de-final. Zidane (mesmo genial) não terá a liberdade que teve. Em 1974, a Holanda encantou o mundo, com o inesquecível carrossel e chegou pela primeira vez a uma decisão.
Quem sabe, Portugal não pode repetir o feito holandês e chegar à final, também em solo alemão?
BUMBUMBUM
O tempo conspira contra os craques
O camisa 10 da França mais uma vez foi o grande carrasco da seleção brasileira em uma Copa do Mundo. Em 1998, Zidane fez dois gols de cabeça na decisão do Mundial e levou a seleção do país ao título em casa.
Sábado (01/07), o craque desfilou um futebol brilhante contra o Brasil e foi o grande responsável pela eliminação da equipe de Parreira, nas quartas-de-final da Copa do Mundo.
Zidane é um camisa 10 à moda antiga, que dificilmente vai aparecer outra vez no futebol. Pena que ele vai deixar os gramados após o Mundial. Aos 34 anos, não terá pernas para aguentar os pontapés dos adversários.
Bumbumbum é o tempo, implacável com os deuses da bola, que deveriam ser eternos. E o tempo não será gereroso com Zidane, que deixará o futebol órfão de mais um grande camisa 10.
(*) Márcio Bernardes é âncora da Rede Transamérica de Rádio, comentarista da TV Cultura e colunista da BR Press. Está na Alemanha cobrindo sua 9a. Copa do Mundo. Fale com ele pelo e-mail pauta@brpress.net .