Márcio Bernardes
Na hora, imaginei se as crianças no metrô de São Paulo ou do Rio estariam gritando "Ka-ká!" ou "Gor-di-nhô!". Cenas como essa ocorrem o tempo todo nas cidades alemãs. São indícios de uma adesão festiva e espontânea ao time comandado por Jürgen Klinsmann.
O mundo da bola gira muito rápido. Quando cheguei à Alemanha, no início de junho, Klinsmann era massacrado e os jogadores, vistos com desconfiança. Pesquisa nacional indicava que apenas 20% dos alemães acreditavam na possibilidade de conquistar o título.
Veio a primeira vitória, contra a Costa Rica, e a confiança foi tomando forma. Depois do segundo jogo, contra a Polônia, outra pesquisa apontou 37% de crença no título. É provável que uma sondagem revelasse, hoje, índice superior a 50%. E que o vilão de três semanas atrás fosse apontado como o principal responsável pela boa campanha.
Klinsmann, o californiano: treinador da seleção desde 2004, ele continuou a morar nos EUA, o que lhe valeu críticas pesadas na Alemanha, cujo time titular é quase 100% doméstico: três jogadores do Bayern de Munique (Lahm, Schweinsteiger, Ballack), dois do Werder Bremen (Frings, Klose) e um do Borussia Dortmund (Metzelder), do Hertha Berlim (Friedrich), do Hanôver (Mertesacker), do Colônia (Podolski) e do Bayer Leverkusen (Schneider).
O único "estrangeiro" é o goleiro Lehmann, do Arsenal. (Ballack se apresentará ao Chelsea depois da Copa.)
Além de doméstico, é um elenco equilibrado no aspecto geográfico, com jogadores de diversas regiões, o que também ajuda a angariar simpatia em todo o país, diferentemente dos velhos tempos em que o Bayern de Munique dominava a seleção.
Klinsmann trouxe dos EUA um psicólogo e um preparador físico especializado em fitness. Quase houve um terremoto. Agora, as novidades são aplaudidas. Nada como a vitória para apaziguar os ânimos e criar consensos.
Podolski, Klose e os demais patinhos feios do início da Copa foram aos poucos se tornando cisnes. O encanto em torno dos jogadores terá sua prova de fogo no duelo do próximo dia 30, contra a Argentina de "Maxi" Rodriguez (que golaço!), em Berlim.
Desconfio que nem mesmo uma derrota (desde que honrosa) conseguirá destruir a aura dos novos heróis.
Klinsmann, no entanto, sabe que talvez volte a ser a bruxa da história. Avaliou que não chegar às semifinais será uma "catástrofe".
O papel reservado à Argentina nesse roteiro inclui passagem de volta na primeira classe para Buenos Aires, com diversos caixotes de cerveja como brinde e o Maradona contando piadas para animar o ambiente. Oito dias antes da final.