Márcio Bernardes
A seleção brasileira é superior, reconheciam todos eles. Por isso mesmo, alegavam, não precisava de ajuda extrafutebolística.
O Brasil acusado de favorecimento? Esse foi o primeiro dos aspectos incomuns que cercaram o jogo desta tarde.
Em geral, gostamos de invocar as mais variadas teorias da conspiração contra nós (no gênero "a FIFA não vai deixar o Brasil ganhar outra vez" e "a final de 1998 foi vendida para a França"), e não a favor.
Ontem, falamos todos do pênalti que beneficiou a Itália nos descontos. Hoje, falaram de nossos impedimentos e do nosso anti-jogo. Nada como conhecer o outro lado da moeda, independentemente de a reclamação ser justa ou não.
O outro aspecto incomum no Westfalenstadion foram as vaias. Não as dos brasileiros contra o Brasil, como as que atingiram Ronaldo no jogo contra a Croácia. Essas desapareceram, supõe-se que em definitivo; o próprio Ronaldo foi novamente saudado hoje de forma especial.
Não. Foram vaias dos que supostamente nos admiram -- os ganeses, os alemães e a confederação internacional de fanáticos pelo futebol brasileiro. Irritados com a frieza da seleção, eles começaram a vaiá-la no segundo tempo. De forma pesada, um tanto revoltada.
A impaciência com o estilo Parreira, percebe-se agora, já não é exclusividade nossa. Mais gente por aí considera que nossos craques não estão correspondendo, no conjunto, ao enorme prestígio de que desfrutam.
O futebol é extraordinário, no entanto, porque um minuto de jogo às vezes é o bastante para inverter as cartas sobre a mesa. Hoje, deu-se a mágica quando as vaias de ganenses e "ganalemães" foram lentamente sufocadas por gritos de "olé" da torcida brasileira.
Até que, como se os jogadores atendessem afinal ao pedido das arquibancadas, uma troca de passes que começou horizontalmente na defesa terminou com um golaço de Zé Roberto.
Deu novamente para o gasto. Três ou quatro rompantes decisivos, mais a sorte e perícia de Dida naquele escanteio, levaram o Brasil às quartas-de-final.
Se continuar jogando apenas na medida da necessidade, não se deve esperar nada muito diferente disso contra a França, no próximo sábado, em Frankfurt.
Só que, nesse caso, a medida da necessidade não será apenas ganhar. Você sabe do que falo.
Um certo 3 a 0, oito anos atrás, exige que a seleção, ao menos uma vez, vá além da conta do chá.