Opinião e Análise

Carta ao Ronaldinho Gaúcho
28 de Junho de 2006, 06:34

DORTMUND - E aí, rapaz? Desculpe-me pelo incômodo. Não quero atrapalhar seu desempenho nos torneios de videogame da concentração. Serei breve. É sobre a França.

Você tinha 18 anos em 1998 e deve ter assistido à final da Copa em Porto Alegre. Eu tinha 32 e vi o jogo no Stade de France, graças a um ingresso comprado no câmbio negro, meia hora antes do início da partida, de um funcionário malandro da federação russa de futebol. (Redundância?)

Fiquei atrás do gol em que o Roberto Carlos tentou dar uma bicicleta, furou, jogou para escanteio, o Zidane marcou o primeiro. E, bola vinda do outro lado, o segundo.

Foi na minha frente também que, no segundo tempo, o Ronaldo matou bonito a bola no peito e, na cara do gol, fuzilou. Em cima do Barthez. Depois soubemos da convulsão e pipocaram as teorias conspiratórias.

De onde eu estava, era fácil notar que os franceses se postaram em campo como um triângulo, na formação 4-3-2-1. Disciplinadamente, mantiveram esse posicionamento o tempo todo.

Isso significa que congestionaram os corredores de Cafu e Roberto Carlos, e dobraram a marcação no Rivaldo. Dunga, Aldair e Júnior Baiano foram obrigados a distribuir o jogo. Terminamos com quatro atacantes em campo, cada qual tentando resolver sozinho.

O Deschamps levantou a taça. Foi uma festa bonita. Meu ingresso vale um bom dinheiro na França.

Pois bem. Quero pedir a você um favor. No próximo sábado, ajude a escrever um posfácio para aquela história. Eu sei, você não estava lá, não teve nada com aquilo. Do time atual, só Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo entraram em campo. Dida, Émerson e Zé Roberto estavam no banco.

Sei também que você não joga sozinho. Até o Dida, ao repor bem ou mal a bola, interfere na qualidade do jogo.

Mas, com todo o respeito, você é quem está devendo. Para você mesmo. Percebe-se só de olhar. Tem até gente maldosa na Alemanha dizendo que o camisa 10 do Brasil ainda não chegou, vai desembarcar a qualquer momento.

Desembarque lá em Frankfurt. Do quadrado, o Ronaldo já marcou três, o Kaká participa dos gols mesmo quando não está bem e o Adriano, que atravessa uma fase daquelas, deu jeito de marcar dois. Olha o Zé Roberto! Falta você, Gaúcho.

Não é mole ser Ronaldinho, está certo. Na última temporada, você conquistou o campeonato espanhol outra vez, a Liga dos Campeões, o bicampeonato de melhor do mundo segundo a FIFA, e a turma ainda espera que você arrebente na Copa.

Peço apenas que você arrebente contra a França. Não precisa marcar gol. Seja Ronaldinho. Desequilibre. Seus parceiros de videogame vão captar a mensagem e acompanhar a partitura.

E, cá entre nós, esse time da França é fraquinho e envelhecido. Para fazer de novo dois gols como os de 1998, o Zidane precisaria de uma escada. Tem o Henry, mas o Lúcio e o Juan vão passar o jogo dizendo que ele é o máximo, que se sentem honrados pela chance de marcá-lo, e a vaidade dele cuidará do resto.

Sobra o Vieira, mas ele joga com o Émerson na Juventus e jogou com o Gilberto Silva no Arsenal. Amigos, amigos, mata-mata de Copa à parte: um deles avisa quem manda no meio-de-campo. "C'est moi, Monsieur Vieira."

É só o que eu peço, arrebente. No ônibus da seleção, está escrito: "Monitorado por 180 milhões de brasileiros". Desconfio que esses monitores pediriam o mesmo a você.

Não tenho nada a oferecer em troca, exceto gratidão. E uma vaga vitalícia em qualquer curso que eu dê. Não sei se interessa. De repente você transfere para um amigo que gosta de cinema ou jornalismo. Tem muita gente esquisita por aí.

Boa sorte no videogame. A gente se vê no sábado.

Ah: uma jornalista com quem eu trabalho pediu para dizer que acha você lindo. "De verdade", ela falou. Não entendi.

Abraço forte,

Sérgio

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