Opinião e Análise

Bola parada, língua solta
29 de Junho de 2006, 05:07
DORTMUND - Os primeiros dois dias sem jogos durante a Copa serviram como um respiro para a Alemanha, que teve tempo de voltar um pouco à rotina de sempre, e como um momento para a imprensa esportiva de todo o mundo exercitar a capacidade de prever o futuro.

Ou: quem avançará para as semifinais? Quem estará em Berlim no dia 9? Haverá um novo Deus da bola ao fim do Mundial?

Opa. Novo? Esta era a Copa de Ronaldinho Gaúcho, mas já não se encontra quem acredite que virá mesmo a ser. A rigor, esta era a Copa do Brasil -- e também desapareceu o entusiasmo com a seleção.

Restou o sentimento generalizado de que o time ainda pode conquistar o título por causa do brilho de seus jogadores, acima da média, e não da força do conjunto.

"O Brasil é um elogio à individualidade e ao talento, mas nem sempre 11 grandes solistas formam uma grande orquestra", pondera Arrigo Sacchi, treinador da Itália em 1994.

Sacchi acredita que a Alemanha elimine a Argentina (que ele critica duramente pelo estilo de jogo lento, com buracos na defesa) e, mesmo sem talentos, possa vencer o Brasil.

Bem diferente do que Parreira gostaria de ouvir, mas é o que andam dizendo. Apenas reproduzo o que se tornou consensual.

Outros técnicos são lembrados pelo que supostamente fizeram às suas equipes, como Klinsmann e Felipão. Pelos motivos óbvios, o treinador alemão talvez seja a principal estrela da imprensa local neste momento, à falta de um craque que tenha inscrito decisivamente seu nome na história (recorde de gols do Ronaldo à parte).

O mérito de Klinsmann teria sido o de tirar leite de pedra: formar uma equipe competitiva a partir de um grupo de jogadores que, até pouco tempo atrás, era visto como medíocre.

Michel Platini pede para não se esquecerem dos franceses. "O Brasil é mais técnico do que todos os outros, mas o futebol é irracional e nem sempre o favorito vence", diz. Platini considera que a final será travada entre os vencedores de Argentina x Alemanha e Brasil x França.

Essa é outra opinião consensual. Ou quase consensual. Os italianos acreditam que podem chegar.

Com aquele time?, você pergunta. Pois é, mas eles lembram que tomaram apenas um gol (e foi contra) e que cresceram em outras Copas diante de cenários parecidos - ninguém acreditava neles, enfrentavam crises terríveis, perderam jogadores por contusão e suspensão.

O jornal francês "L'Équipe" diz que este Mundial marca um retorno ao "classicismo", com uma espécie de "Liga dos Campeões" - seis países que já foram campeões mundiais entre os oito finalistas.

Na melhor das hipóteses, vão restar quatro nas semifinais (o que ocorreu pela última vez em 1990, com Alemanha, Argentina, Itália e Inglaterra). Na pior, dois - como em 1994 (Brasil, Itália) e 2002 (Brasil, Alemanha).

No horizonte de possibilidades: o nosso hexa, o tetra alemão ou italiano, o tri argentino, o bi inglês ou francês.

Amanhã, a língua volta a ceder lugar para a bola e as profecias encaram o duro teste da realidade.