Opinião e Análise

A história se repete: o Titanic afundou
1 de Julho de 2006, 06:38

FRANKFURT - Titanic era o transatlântico que jamais afundaria. Encontrou um iceberg pelo caminho, logo na primeira viagem, e foi parar no fundo do Atlântico Norte.

Frankfurt assistiu hoje à submersão de falácia semelhante: a seleção que chegou à Alemanha com a imagem de imbatível, admirada e temida, naufragou pateticamente diante do primeiro adversário à altura de uma Copa.

A parte de cima do navio era uma beleza, reluzente, sob medida para campanhas publicitárias, mas o casco era de latão. Envelhecido.

Tudo o que se criticou nos primeiros jogos se repetiu hoje: laterais que não ofereciam opção de jogo e sobrecarregavam os meias, saída de bola burocrática e horizontal, atacantes fáceis de marcar, nenhuma liderança em campo para tentar reverter uma situação de desvantagem.

Os brasileiros no Waldstadion elegeram o responsável, suponho que você tenha ouvido o grito. Foi assim: "Ei, Parreira, vai tomar no c...".

Carlos Alberto Parreira, o gerente da corporação, principal responsável pela eliminação prematura (mas merecida) do Brasil. Não há fator atenuante para ele. Tinha o melhor elenco do planeta, mas não conseguiu formar uma equipe compatível com os talentos individuais. Nunca.

Quando essa seleção jogou realmente bem nas Eliminatórias? Contra a Argentina, em casa. (Em Buenos Aires, perdemos feio.) E o que mais? Ganhamos a Copa América graças a um empate milagroso na final contra a Argentina. E houve também o show na final da Copa das Confederações contra... a Argentina.

Moral da história: nosso negócio é enfrentar sempre os vizinhos.

Vários lances da partida de hoje resumem a tragédia brasileira, mas prefiro um, quando a França já vencia. Ronaldinho Gaúcho recebeu na linha central e avançou pela esquerda. Trombou em dois marcadores e voltou para o campo brasileiro, até perder a bola com a chegada de um terceiro marcador e propiciar um contra-ataque. Nenhum jogador brasileiro se apresentou para receber a bola. Solidariedade, zero. Mobilidade, zero.

Tragédia técnica, expressa na má forma de Cafu, Roberto Carlos e Adriano, entre outros, mas sobretudo tragédia tática. Parreira começa hoje a perder a aura de estrategista que estranhamente carrega. O prestígio que havia conquistado com o tetra sofreu um abalo terrível. Levou um baile de Raymond Domenech. O tempo estabelecerá se será lembrado apenas pelo "Ei, Parreira, vai tomar no c..." ou se restará algo de 1994.

Outra lição é a de que devemos fugir da França em Copas. O Brasil perdeu, mas é preciso dizer que os franceses ganharam. Só costumamos ter olhos para nossos defeitos. É postura infantil e não ajuda a entender por que as coisas ocorrem.

Para começar, no meio do caminho havia Vovô Zidane - classe e liderança ainda invejáveis. Thuram e Gallas formaram excelente dupla de zaga. Vieira e Makelele mandaram no meio-de-campo. E Henry, como bom artilheiro, aproveitou a única chance que lhe deram.

O Brasil de Parreira parou em Frankfurt. Horas antes, em Gelsenkirchen, Felipão completou seu 12º. jogo consecutivo em Copas, com 11 vitórias e um empate. A seleção brasileira faz as malas, enquanto a valente seleção portuguesa avança para as semifinais.

É difícil resistir à tentação de contrastar uma coisa com a outra, mas vou resistir, em nome da sobriedade.

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