Opinião e Análise

"Fair play" para boi dormir
6 de Julho de 2006, 03:12
BERLIM - A duas partidas do final, já se pode afirmar com tranqüilidade que esta Copa não foi exatamente marcada pelo "fair play". Longe disso: das botinadas assassinas nos primeiros jogos -- sem que os árbitros as punissem à altura -- até o mergulho cênico de Henry na área portuguesa, o que se viu não se pareceu muito com jogo limpo ou justo.

Comecemos pelos jogadores, que andaram desrespeitando seus colegas de trabalho. No amplo repertório de carrinhos, tesouradas, soladas e cabeçadas vistas na Alemanha, o que mais impressiona é a falta de respeito de uns com os outros.

Estamos em uma Copa, com a participação da suposta fina flor do futebol mundial. Imagine até onde iríamos se as partidas não tivessem sido disputadas por cavalheiros com salários anuais na faixa dos sete dígitos. Em euros.

Tentativas de provocar os adversários pela imprensa e de tentar influenciar os árbitros no gramado também não parecem condizentes com práticas elegantes que orgulhassem o Barão de Coupertin. Houve muito disso por aqui.

E os árbitros? Mais uma vez, não obedeceram a critérios uniformes na marcação de faltas e sua respectiva punição, ou nos minutos extras de cada tempo, para ficar em duas situações bem pontuais. Uns foram mais rigorosos, outros mais liberais.

Eles e seus auxiliares erraram muito. Errar é humano, sabemos disso, mas há algo muito esquisito (e, para muitos, suspeito) no ar quando os erros sempre beneficiam a equipe mais tradicional em campo.

Em tese, a comunicação entre eles durante a partida deveria melhorar um pouco a situação. Não foi o que se viu. E, como os telões dos estádios mostraram a transmissão das partidas e reprisaram lances polêmicos, houve situações bisonhas.

Testemunhei uma em Brasil x Gana. Parte do estádio suspeitou que Adriano estivesse impedido no segundo (e decisivo) gol brasileiro. Só quem estava na linha do lance poderia arriscar um palpite mais calibrado. O problema é que o telão exibiu o replay e congelou o lance. Impedimento. Vaia.

Esse assunto (uso de tecnologia para dirimir dúvidas) é antigo e nada indica que os atuais dirigentes da FIFA mudem de opinião. Perfeito. Eles têm seus argumentos. O problema é que, nos momentos de dúvida, só um restrito grupo de seleções se beneficiou, enquanto às demais restou chorar.

Houve ainda um pessoal que não entrou em campo, mas que também não contribuiu para o jogo limpo: a imprensa. Justiça seja feita nesse aspecto à maior parte da brasileira, que se volta apenas contra a própria seleção, sem tentar desestabilizar os outros.

Jornais ingleses e franceses, sobretudo, foram pródigos em atazanar a vida dos adversários e encontrar os motivos mais surpreendentes para justificar vitórias ou derrotas.

À sua maneira, eles também deram suas botinadas e mandaram às favas o "fair play".

> Comente esta coluna no Blog do Sérgio Rizzo