Opinião e Análise

Itália exorcizou fantasmas de 1990 e 1994
9 de Julho de 2006, 02:40
BERLIM - Os deuses do futebol sabem o que fazem. Nada mais justo, para uma Copa de baixa qualidade técnica, do que uma final sofrida (em todos os sentidos do termo) que vai aos pênaltis. E, se o "fair play" jamais imperou em campo, apenas nas arquibancadas e nas ruas, nada mais coerente do que a agressão de Zidane a Materazzi.

Poderia muito bem ter sido uma noite gloriosa para Zidane, reverenciado ao longo desta semana como o último sobrevivente de uma estirpe rara de craques. Muita gente torcia hoje pela França por causa dele.

Aí, logo no início do jogo, os franceses ganham um pênalti. (Malouda deve ter feito o mesmo curso de mergulho na Sorbonne pelo qual passaram Henry e Grosso.) À la Djalminha, Zidane quase erra, mas o gol sai. Os deuses parecem ainda estar com ele.

Na prorrogação, Buffon faz aquela defesa espetacular quando Zidane cabeceia em cruzamento perfeito de Sagnol. Opa: os deuses começavam a rearranjar o quebra-cabeças.

Logo depois, com a expulsão, vieram cobrar uma conta antiga: a da Copa de 1998.

Zidane saiu daquele Mundial como o principal nome por conta dos gols na final, mas os dois escanteios apagaram da memória uma expulsão parecida com a de hoje, que o tirou de boa parte da Copa e prejudicou a equipe francesa em momentos decisivos.

Os deuses da bola são como os elefantes: não esquecem. E Zizou, um dos maiores jogadores europeus da história, encerrou assim a carreira, de forma melancólica, sem voltar a campo para receber com seus colegas a medalha de prata.

Logo ele, um suposto cavalheiro, elegante e discreto, pisou feio no "fair play". Típico deste Mundial.

Os demais remanescentes do título francês de 1998 foram apresentados à sensação experimentada naquela ocasião pelos brasileiros. Com o resultado de hoje, a França continua igualada à Inglaterra: são os únicos países que só conquistaram o Mundial jogando em casa.

A vitória italiana também arredonda o significado de outro evento marcante desta Copa: a decisão antecipada foi, na verdade, a semifinal de Dortmund contra a Alemanha.

E, por falar em Alemanha, os italianos retribuíram hoje o que os alemães lhes fizeram em 1990, quando foram a Roma conquistar o título, enquanto os donos da casa disputavam o terceiro lugar.

Hoje, os italianos vieram a Berlim buscar a taça. Os alemães, jogando em casa, precisaram festejar o terceiro posto.

E como festejaram, diga-se.

Por fim, a Itália carregava o fantasma de ter perdido a única decisão por pênaltis na história das Copas, em 1994. Perder duas seria trágico. Os deuses resolveram essa parada fazendo o Trezeguet estourar a bola no travessão.

Era uma final para render tributo com direito a tapete vermelho para Zidane, mas serviu também para tirar o peso que repousava sobre os ombros de Roberto Baggio.

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