Opinião e Análise

Faltam três anos e uns 330 dias para a Copa de 2010
10 de Julho de 2006, 07:53
BERLIM - Boa parte da humanidade toca a vida de acordo com o calendário cristão, mas torcedores de futebol, embora também respeitem essa maneira de registrar a passagem do tempo, têm um relógio interno paralelo.

É difícil para não-torcedores entender o funcionamento dessa engrenagem um tanto peculiar. Nela, o equivalente aos anos são as temporadas de seus clubes.

Um corintiano se lembrará de 1977 como aquele em que seu time foi campeão depois de um jejum de mais de duas décadas, um flamenguista associará 1980 ao primeiro título nacional do esquadrão de Zico e cia., um são-paulino se lembrará de 1992 e 1993 como o biênio da glória internacional na Era Telê e por aí vai.

Na Europa, isso é ainda mais característico: as temporadas por aqui começam em agosto e terminam em maio. Logo, produzem um calendário "atravessado" no meio do cristão.

Por causa dele, torcedores brasileiros que acompanham o futebol europeu não descansam jamais. Até em 25 de dezembro a Europa já pôs bola para rolar.

Há os campeonatos e as copas nacionais, as competições continentais e, agora, um torneio mundial de clubes. São as referências anuais. Elas se submetem, no entanto, a uma contagem superior, a das Copas.

De quatro em quatro anos, o calendário dos seres humanos normais e o dos torcedores típicos se confundem.

Para os primeiros, é apenas tempo de festa com duração pré-estabelecida. Encerrada a maratona, vai-se cuidar da vida e esquece-se da febre de bola.

Para os segundos, é o ápice de um ciclo de estudo, acompanhamento, expectativa e palpitologia iniciado quatro anos antes.

Quando uma Copa se encerra, a contagem para a próxima automaticamente começa. É a virada de uma ampulheta que lhes regula a vida em forma de quadriênios.

Em uma segunda-feira como esta, eles têm ainda um rescaldo de discussão que durará um certo tempo, até que as preocupações clubísticas cotidianas retomem seu lugar.

O relógio interno desses sujeitos, contudo, já disparou o cronômetro que será zerado apenas no próximo rito de passagem de sua existência como torcedores: a Copa de 2010, na África do Sul.

Para facilitar, o governo sul-africano poderia (se é que já não o fez) instalar em Johanesburgo um relógio acessível pela internet. Hoje, ele informaria que faltam três anos e uns 330 dias para ficarmos uma Copa mais velhos.

Agora com 11 Mundiais de idade, me despeço por aqui, desejando a todos muitas Copas de vida.

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