SUÉCIA - 1958
Brasil campeão, com Rei e tudo


Campeão:
Brasil
Vice:
Suécia
Ficha técnica
Sede: Suécia
Países inscritos: 51
Participantes: 16
Gols: 126
Média de gols: 3,6
Média de público: 24.800
A CBD era, agora, uma nova entidade, com novo comando e novos planos. João Havelange, ao assumir a presidência no dia 14 de janeiro de 1958, em substituição a Sílvio Pacheco, deixara bem claro, ainda que em tom diplomático, que uma das suas metas era impor uma filosofia de trabalho à CBD que nada tinha a ver com o ranço das administrações anteriores. Havelange pretendia entregar a Seleção Brasileira a quem, de fato, entendia do assunto, a gente especializada, a um pessoal técnico realmente capaz. João Havelange pretendia mudar tudo aquilo, embora, no fundo, soubesse que não seria fácil.

E fácil também não seria a escolha do novo técnico. Havelange ia ouvindo gente, aqui e ali. E, a cada informação recebida, sentia-se mais e mais perdido. O mês de março chegava ao fim sem que ele tivesse, pelo menos, uma idéia de quem seria o treinador do escrete canarinho. Curiosamente, porém, Havelange tinha o principal: um plano de trabalho. Seu autor, Paulo Machado de Carvalho, era um velho dirigente paulista, empresário bem-sucedido, dono de emissoras de rádio e televisão, homem bem-quisto nos meios esportivos de todo o país. Havelange se entusiasmara com as idéias que Paulo Machado de Carvalho tinha para organizar a Seleção, nos três meses que antecediam a Copa.

Tiveram que engolir...
Muito se falou do Plano Paulo Machado de Carvalho, antes e depois da campanha brasileira na Suécia. Antes, jornalistas e gente do futebol criticaram, item por item, as propostas apresentadas à CBD pelo dirigente paulista. Uns ridicularizavam aquele "excesso de detalhes" com que Carvalho defendia seus pontos de vista. Outros simplesmente não acreditavam naquela história de comissão técnica, com um chefe, um supervisor, uma equipe médica, um psicólogo e até um dentista. Depois da Copa, contudo, as opiniões mudariam: Paulo Machado de Carvalho passaria a ser o "Marechal da Vitória" e seu plano, a própria razão da vitória.

Paulo Machado de Carvalho, escolhido para chefiar a comissão técnica que ele mesmo criara, simplificou tudo com a indicação de Vicente Italo Feola para técnico. Simpático, boa-praça, incapaz de um gesto ou uma palavra mais ríspida, sem ter feito um só inimigo em seus trinta anos de futebol, o gordo Vicente Feola, com todas as qualidades, foi uma escolha surpreendente. Aos 49 anos de idade, com poucos êxitos numa carreira iniciada em 1935, não parecia ser o homem indicado para levar a Seleção Brasileira a um título que Flávio Costa e Zezé Moreira não haviam conseguido.

Garrincha no psicotécnico
O psicólogo João Carvalhaes fora contratado justamente para transformar o nostálgico, emotivo e temperamental jogador brasileiro num atleta psicologicamente preparado para suportar as pressões a que estava sujeito numa Copa do Mundo. Desde o início, seus conhecimentos de psicologia entraram em conflito com as complicadas sutilezas do esporte. Não foi à toa que, após se submeter ao psicoteste, a portas fechadas com Carvalhaes, Nílton Santos chamou o psicólogo a um canto e fez um apelo em forma de advertência. "Olha, doutor, está aí fora um sujeito que talvez não seja capaz de acertar o mais fácil desses testes. É o Garrincha. Por favor, doutor, tenha paciência com ele. Mesmo que erre tudo, aprove-o. Aprove-o, doutor, pois nós vamos precisar muito dele nesta Copa", suplicou o quarto-zagueiro. Carvalhaes, felizmente, ouviu o apelo de Nílton Santos. Foi, talvez, sua maior contribuição à Seleção Brasileira.

"Professor, bota esse menino Pelé pra jogar"
Às 5 horas da tarde de 24 de maio de 1958, a Seleção Brasileira embarcou para a Europa. Os preparativos para a Copa do Mundo duraram pouco mais de um mês. Agora, antes da estréia na Suécia, haveria mais dois amistosos na Itália, o primeiro com a Fiorentina e o segundo contra a Internazionale de Milão. Mas os dois jogos - ambos vencidos pelo Brasil por 4 x 0 - não serviram para definir muita coisa. Pelo contrário, deixaram o gordo Feola ainda mais longe do time ideal.

Sem Garrincha e sem vários outros jogadores que tinham condições de sobra para serem os titulares, a Seleção Brasileira estreou na Copa do Mundo em 8 de junho, em Uddevalla, diante da Áustria. A estréia não apresentou maiores problemas para os brasileiros, cuja equipe, mesmo sem ser a ideal, estava muitos furos acima da modesta e pouco imaginativa Seleção Austríaca. Resultado: 3 x 0, com dois gols de Mazola e um de Nílton Santos.

O segundo jogo, em 11 de junho, em Gotemburgo, deixou ainda mais nítidas as deficiências da Seleção Brasileira. Foi um suadíssimo 0 x 0, os brasileiros jogando melhor, os ingleses resistindo bem na defesa e tentando os contragolpes. Foi este jogo - ou as deficiências nele ressaltadas - que levou Bellini, capitão do time, mais Nílton Santos e Didi a baterem um longo papo com Vicente Feola, nos jardins de Hindas, dois dias antes da partida em que brasileiros e soviéticos definiriam a sorte do seu grupo.

Didi, por exemplo, achava que o meio-campo precisava de um jogador menos clássico e mais vibrante que Dino Sani. Um jogador assim como Zito. Já Bellini lembrava o comportamento de Mazola durante o jogo com os ingleses: ao perder um gol feito, o atacante sofrera uma crise nervosa, em pleno campo, chorando, gritando, esperneando, pedindo que o levassem para longe dali. Bellini fora obrigado a dar-lhe uma bofetada, fazendo-o voltar a si. Bellini, Didi e Nílton Santos concordavam: já era tempo de dar uma chance a Pelé. O garoto tinha apenas 17 anos, é verdade. mas sangue novo também ajudava. Por último, o argumento do próprio Nílton Santos sobre Garrincha: - Joel é um bom jogador, aplicado, vivo, raçudo. Mas a gente precisa de um Garrincha para surpreender esses gringos. Sem Garrinha, acho muito difícil o nosso ataque furar certas defesas européias.

Feola ouviu, atento, as ponderações dos três - Bellini, Didi e Nílton Santos, jogadores pelos quais o treinador tinha grande respeito. Foi então que decidiu escalar Zito, Pelé e Garrincha naquele jogo com os soviéticos.

Minutos arrasadores
Em 15 de junho, o Estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo, recebia mais de 50 mil pessoas, na maior assistência que seria registrada em todo o campeonato. E o Brasil, com o "irresponsável" Garrincha, o inexperiente Pelé e o desconhecido Zito, entrava em campo para uma grande vitória. Os dois primeiros minutos daquela partida constituem um dos mais belos momentos da história do futebol brasileiro. Os dribles seguidos de Garrincha sobre Kuznetsov, os marcadores que se multiplicavam à frente daquele fenômeno de pernas tortas, novos dribles de Garrincha, um chute de Garrincha na trave, o passe perfeito de Didi, o gol de Vavá - tudo em apenas 2 minutos. Naqueles dois minutos, o Brasil partira não apenas para uma vitória de 2 x 0 sobre os soviéticos mas para a própria conquista da taça de ouro.

A Seleção, quase por acaso, definira-se naquele jogo, passando às quartas-de-final como primeira colocada do Grupo 4, em que a União Soviética, apesar da derrota, classificou-se em segundo. No Grupo l, França e Iugoslávia superaram Escócia e Paraguai. No Grupo 2, a Argentina fazia um decepcionante retorno à Copa do Mundo, depois de uma ausência de 28 anos, ao ser eliminada pela Irlanda do Norte numa série de jogos em que se classificaram Alemanha Ocidental e Tchecoslováquia. No Grupo 3, Suécia e País de Gales eram os primeiros, impondo-se a México e Hungria, esta com um time que nem de longe lembrava a lendária equipe de Puskas, Kocsis e Hidegkuti.

As quartas-de-final foram disputadas em 19 de junho, a Alemanha Ocidental derrotando a Iugoslávia, a França passando pela Irlanda do Norte e a Suécia brilhando diante da União Soviética. Ao Brasil coube enfrentar o País de Gales, cuja seleção, trancada durante os 90 minutos de jogo, parecia ter entrado em campo com a preocupação única de não ser goleada. Um gol de Pelé, já no segundo tempo, fez o Brasil respirar aliviado: 1 x 0, vitória dificílima em Gotemburgo.

Nação de admiradores
As semifinais, em 24 de junho, dariam à Suécia uma dupla alegria: seu triunfo sobre a Alemanha Ocidental e a vitória do Brasil frente à França. O futebol brasileiro ganhara ali uma nação de admiradores. Por isso, os suecos haviam torcido contra os franceses, goleados por 5 x 2 em mais uma exibição brasileira. Pelé - "um menino de 17 anos, ainda sem idade para assistir aos filmes de Brigitte Bardot" - fez três gols contra os franceses, Vavá um, Didi outro. O Brasil estava na final.

Choveu muito no dia da final e o campo ficou encharcado, como os suecos queriam. O Brasil teve de trocar a camisa amarela pela azul, também como os suecos queriam. E o primeiro gol, logo no início, foi feito pelo veterano Liedholm, ainda como os donos da casa desejavam. Além disso, o time de Feola tinha não o titular De Sordi, mas o reserva Djalma Santos para marcar Nacka Skoglund, a grande estrela do ataque sueco. Mas a Copa do Mundo de 1958 - desta feita para premiar o melhor - voltava a contrariar as previsões dos experts, numa final em que o Brasil goleou a Suécia por 5 x 2.

Com uma atuação perfeita - técnica, física e psicologicamente acima de tudo o que os profetas do futebol tinham antecipado -, os brasileiros tornaram-se campeões mundiais pela primeira vez. E não era para menos. A Copa do Mundo realmente estava em boas mãos.

Artilheiro
Fontaine (França), 13 gols
Nome completo: Just Fontaine
Nascimento: 18 de agosto de 1933, em Marrakesh-MAR
Clubes: KAC Marrakesh-MAR, Nice e Stade de Reims

É o maior artilheiro em uma única edição de Copa do Mundo. Nascido em Marrocos, sempre defendeu a seleção do país de seu pai. No Mundial da Suécia, Fontaine marcou gol em todos os jogos da França, sendo que, apenas contra a Alemanha Ocidental, anotou quatro. Encerrou a carreira com 27 anos após sofrer duas fraturas da tíbia em um curto período de tempo. Depois, passou a se dedicar ao sindicato dos jogadores franceses.

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