CHILE - 1962
Garrincha leva Brasil ao bi


Campeão:
Brasil
Vice:
Tchecoslováquia
Ficha técnica
Sede: Chile
Países inscritos: 57
Participantes: 16
Gols: 89
Média de gols: 2,78
Média de público: 27.930
Cinqüenta e sete países se inscreveram para disputar a 7ª Copa do Mundo, estabelecendo-se, assim, novo recorde em relação às edições anteriores. Após as eliminatórias preliminares, os 16 finalistas eram, segundo a crônica internacional, os mais legítimos representantes daquilo que se poderia prever como um confronto de forças entre dois continentes, duas escolas de bola. De um lado, seis representantes norte e sul-americanos; do outro, 10 europeus. Nas competições anteriores, três vezes a taça ficara na Europa, três outras viera para a América do Sul.

O Brasil armou, dentro de moldes muito parecidos com os de 1958, sua seleção campeã do mundo. A comissão técnica era quase a mesma, com uma importante modificação: Vicente Feola foi substituído por Aimoré Moreira.

Muita gente, porém, não compartilhava do entusiasmo de Paulo Machado de Carvalho por Aimoré Moreira, que podia ser um treinador discutível, falar demais, meter de vez em quando os pés pelas mãos, mas uma virtude não lhe podia ser negada: mais que Feola, conhecia profundamente o futebol. Mesmo assim, quando chegou a Viña del Mar, sub-sede em que seria disputado o grupo brasileiro das oitavas-de-final da Copa do Mundo de 1962, ainda não tinha um time definido. A convocação inicial de 43 jogadores - feita de modo a não desagradar a ninguém - foi uma espécie de tiro pela culatra. Justamente por ter sido tão pródiga, gerou uma onda de protestos dos clubes de maior torcida no Rio de Janeiro e em São Paulo.

De início, Aimoré pretendia manter a equipe que se sagrara campeã mundial na Suécia. Se não os 11 que haviam disputado a final, pelo menos tantos quantos fosse possível, apoiando-se numa velha máxima do futebol: "Em time que está vencendo não se mexe" - e o treinador relutava em fazer experiências. E Paulo Machado de Carvalho o apoiava. Em Viña del Mar, as questões que ocupavam a mente do treinador foram se resolvendo por si mesmas.

Surpresa e violência
A sétima Copa do Mundo começou sob o signo da surpresa e da violência. Em Arica, União Soviética e Iugoslávia se classificaram às quartas-de-final enquanto o Uruguai desapontava com uma eliminação prematura e a humilde Colômbia colhia, num incrível empate de 4 x 4 com os soviéticos, seu melhor resultado. Em Santiago, outro grupo, outras surpresas: Chile e Alemanha Ocidental passaram à etapa seguinte, mas a Itália, com três oriundi (o brasileiro Mazola, agora usando seu nome verdadeiro, Altafini, e os argentinos Maschio e Sivori), pouco fazia, assim como Suíça, eterna outsider. Neste grupo, chilenos e italianos disputaram uma das mais violentas partidas de toda a história das Copas, trocando socos, pontapés, empurrões e desaforos, tudo isso sob o olhar tolerante do árbitro Ken Aston. Ainda nas oitavas-de-final, em Rancagua, Argentina e Bulgária, também se despediam mais cedo, abrindo caminho para Hungria e Inglaterra chegarem às quartas-de-final. Em Viña del Mar, estava o Brasil. Com Mauro de zagueiro-central e capitão, e com Zagalo na ponta-esquerda, os campeões do mundo estrearam em 30 de maio diante dos mexicanos. Permanentemente preocupados com Garrincha e Pelé, os mexicanos trancaram-se na defesa. Assim, depois de um primeiro tempo sem gol, o Brasil teve de contar com um descuido da defesa mexicana para conseguir marcar, aos 11 minutos do segundo tempo, com Zagalo. Aos 28, em jogada tipicamente sua, criativa, inteligente, maliciosa, desconcertante, Pelé enganou quatro marcadores e fez o segundo gol. Com 2 x 0 de vantagem, o Brasil passou o resto do tempo rolando a bola, poupando-se para o segundo jogo, uma difícil parada com a Seleção Tchecoslovaca.

"Não mudaremos o time até o final da Copa", declarou Aimoré, após a estréia com os mexicanos. Estava certo o treinador. A Seleção Brasileira podia não ser perfeita, podia estar quatro anos mais velha, mais cansada, mais gasta, podia não ser o time dos seus sonhos. Mas era, sem dúvida, a melhor que se podia armar no momento. Mudança? Só em caso de imprevisto.

Brasil fica sem Pelé
O imprevisto realmente aconteceu, em 2 de junho, no jogo com os tchecos. Aos 28 minutos, Pelé recebeu uma bola de Didi, avançou até a meia-lua da área tcheca e dali chutou, forte, sem direção, por cima do gol. Imediatamente, levou a mão à virilha, como se acusasse alguma dor. Mas logo saiu caminhando normalmente. Dois minutos depois, Zito trocou passes com Didi, no meio do campo, e passou para Pelé, na direita. Já agora Pelé tinha, não apenas a mão na virilha, mas uma expressão de dor no rosto. Dali até o final do jogo, ele se limitaria a fazer número em campo. Sabia-se que era uma contusão grave e que ele estava definitivamente fora da sétima Copa do Mundo.

O terceiro jogo, em 6 de junho, era com a forte Seleção Espanhola. Para o lugar de Pelé, Aimoré poderia deslocar Vavá para a esquerda e escalar Coutinho na direita ou reforçar o meio-campo, formando uma linha com Zito, Didi, Mengálvio e Zagalo e deixando apenas Garrincha e Vavá lá na frente. Mas o que ele queria era uma Seleção Brasileira ofensiva, tentando superar com muita valentia a ausência de Pelé. E, já que a questão era de valentia, nada melhor que um ponta-de-lança de cabelos encaracolados, cara de mau, jeito de brigão, chamado Amarildo.

A Espanha marcou o primeiro gol, teve chance de fazer mais um (pênalti de Nílton Santos em Adelardo, numa falta que o juiz, erradamente, preferiu dar fora da área) e foi mais equipe durante todo o primeiro tempo. No segundo tempo, porém, Amarildo - o substituto do insubstituível Pelé - marcaria dois gols e inscreveria o seu nome entre as grandes revelações da Copa. O Brasil derrotara a Espanha por 2 x 1 e estava nas quartas-de-final, junto com a Tchecoslováquia.

Anjo de pernas tortas
Aqui, abre-se um parêntese para que nele se fale do jogador que talvez melhor resuma a própria história da sétima Copa do Mundo: Garrincha. Este inexplicável fenômeno do futebol - cujas pernas tortas acentuavam o mistério de um irresistível drible pela direita - levara para Viña del Mar a mesma alegria ingênua do menino que crescera caçando passarinho em Raiz da Serra. Acabaria perdendo toda a sua ingenuidade, em campos chilenos, para se transformar num demolidor de defesas, num demônio que enchia de pânico todos os marcadores.

Já nas quartas-de-final, na vitória de 3 x 1 sobre a Inglaterra, além de seguidos dribles sobre Flowers, Wilson e Bobby Moore, marcou dois gols e cobrou a falta que permitiu a Vavá aproveitar a rebatida do goleiro para fazer o terceiro. Garrincha, naquela tarde de 10 de junho, fizera os brasileiros esquecerem Pelé - ou acreditarem que, mesmo sem Pelé, poderiam ser os campeões do mundo.

Enquanto isso, o Chile vivia momentos de euforia nacional ao desmentir os cérebros eletrônicos numa bonita vitória sobre a União Soviética. Ao mesmo tempo, Iugoslávia e Tchecoslováquia, eliminando, respectivamente, a Alemanha Ocidental e a Hungria, eram as outras semifinalistas. Assim, dois sul-americanos e dois europeus decidiriam o texto.

Mané cansa de apanhar
A tabela determinou que representantes do mesmo continente se enfrentassem antes da final. A Tchecoslováquia - um pouco indecisa em Viña del Mar - acabava chegando um pouco mais longe do que se esperava, impondo-se, com méritos, à Iugoslávia. E o Brasil, pela primeira vez tendo de se sobrepor ao adversário e à torcida, mediu-se com o Chile, no Estádio Nacional de Santiago.

Foi uma partida repleta de lances emocionantes, não faltando até alguns momentos de violência. Os brasileiros foram sempre melhores, apesar de sensivelmente prejudicados pelo juiz peruano Arturo Yamazaki. Dois gols de Garrincha, sempre Garrincha, e dois outros de Vavá garantiram aos campeões do mundo uma vitória líquida por 4 x 2. Mas o Brasil haveria de pagar um preço por aquela semifinal. Garrincha, dura e impiedosamente atingido pelos pontapés adversários, acabou agredindo um deles e saindo de campo expulso. Mais uma vez, o anjo se convertera em demônio.

A final, em 17 de junho, deu ao Brasil a vitória que não lhe fora possível em Viña del Mar, onde sua Seleção enfrentara a da Tchecoslováquia nas oitavas. Até a véspera, não se sabia se Garrincha jogaria. Seria suspenso pelo tribunal especial da FIFA? Bem, o tribunal absolveu Garrincha. Os tchecos abriram o marcador, num gol do notável Masopust, mas Amarildo, Zito e Vavá fixariam o placar final em 3 x 1. Desta vez, a taça de ouro foi erguida por Mauro, num palanque armado no gramado do Estádio Nacional de Santiago do Chile. Vibração, risos, lágrimas, a festa dos bi-campeões. Garrincha - como um passarinho em pleno vôo - deixava o campo feliz, gingando sobre as pernas tortas.

Artilheiro
Garrincha (Brasil), 4 gols
Nome completo: Manoel dos Santos
Nascimento: 28 de outubro de 1933, em Magé-RJ
Clubes: Botafogo, Corinthians, Portuguesa-RJ, Atlético Junior-COL, Flamengo e Olaria-RJ

No Brasil, muitos consideram Garrincha o segundo melhor jogador de todos os tempos, abaixo apenas de Pelé. Driblador inveterado e irreverente, o ponta-direita fez praticamente toda sua carreira no Botafogo. Defendeu a seleção nas Copas de 1958, 1962 e 1966, sendo que, na segunda, foi o principal responsável pelo título brasileiro, principalmente após a contusão de Pelé ainda na primeira fase. Morreu em 1983, alcoólatra e na miséria.

Vavá (Brasil), 4 gols
Nome completo: Edvaldo Izídio Netto
Nascimento: 12 de novembro de 1934, em Recife
Clubes: Sport, Vasco, Atlético de Madri, Palmeiras, América-MEX, San Diego-EUA e Portuguesa

Oportunista, ganhou o apelido de "Peito de Aço" pelo seu estilo trombador. Curioso é que, no início da carreira, jogava no meio-campo, só passando para o ataque após a transferência para o Vasco. Ao lado de Breitner, é um dos dois jogadores a marcar gol em mais de uma final de Copa.

Drazan Jerkovic (Iugoslávia), 4 gols
Nome completo: Dragan Jerkovic
Nascimento: 6 de agosto de 1936, em Sibenik (atual Croácia)
Clubes: Dinamo Zagreb e Gent-BEL


É o segundo maior artilheiro da história do Dínamo de Zagreb, com 300 gols. Como técnico, comandou as três primeiras partidas da seleção da Croácia após a separação das repúblicas iugoslavas. Algumas fontes o consideram artilheiro único da Copa de 1962, com 5 gols. A diferença deve-se ao primeiro jogo da Iugoslávia naquele Mundial. Jerkovic e Galic fizeram dois gols cada, mas um dos gols de Galic teria sido marcado por Jerkovic. Em 1990, a Fifa reconheceu o equívoco e oficializou que o croata foi artilheiro isolado da Copa de 1962, mas o site da entidade o coloca ao lado de Garrincha, Ivanov, Albert, Vavá e Leonel Sánchez com 4 tentos.

Albert (Hungria), 4 gols
Nome completo: Florian Albert
Nascimento: 15 de setembro de 1951, em Hercegszants
Clubes: Ferencváros


Maior jogador húngaro após a geração de Puskas e Kocsis. Ficou conhecido no Brasil por comandar a vitória da Hungria sobre a seleção na Copa de 1966. Em 1967, foi eleito jogador do ano pela revista France Football.

Ivanov (União Soviética), 4 gols
Nome completo: Valentin Ivanov
Nascimento: 19 de novembro de 1934, Moscou
Clubes: Torpedo Moscou


Jogador que variava entre a meia direita e o ataque, tinha capacidade de armar e concluir jogadas. Um dos maiores jogadores do futebol soviético, foi medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956 e campeão da Eurocopa de 1960. Seu jogo de despedida, em 1966, teve 100 mil espectadores.

Sánchez (Chile), 4 gols
Nome completo: Leonel Sánchez Linero
Nascimento: 25 de abril de 1936
Clubes: Universidad de Chile, Colo Colo, Palestino e Ferrobádminton


Dono de um forte chute de esquerda, Leonel Sánchez foi um dos maiores ídolos da Universidad de Chile. Meia-esquerda de origem, mas, como não tinha características de armador, foi se deslocando para a ponta. Entrou para a história do futebol chileno ao marcar o gol da vitória sobre a União Soviética, nas quartas-de-final, levando seu país para a semifinal.

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